Blog da Editora Virgília - Sobre Livros e Cultura

XLVIII

Ser humano é desejar e odiar uma mesma coisa, muitas vezes a um mesmo tempo, muitas vezes numa intensidade similar…

Freud, ou os fins justificam os meios…

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Nunca tinha lido nada mais profundo sobre Freud. Comprei a biografia escrita pelo Peter Gay, Uma vida para nosso tempo e também o livro do Renato Mezan, O pensador da cultura. Dois livros parrudos que de um jeito ou outro não me clamaram à leitura. Quando me deparei com esse da série Breves Biografias, - Freud - Criador da mente moderna - decidi diminuir minha ignorância.

Valeu a pena, muitas vezes senti falta de um texto mais fluido, mas deu para conhecer melhor o modo de pensar de Freud. Pessoa difícil, assumidamente carente de amigos e inimigos, e nem tão assumidamente capaz de revelar o quanto transformou suas interpretações em fatos. Também fica claro que não praticava o que pregava, mas isso não é tão grave quando se percebe que praticava e criava a teoria ao mesmo tempo. Muitas de suas interpretações foram questionadas, algumas destruídas, mas ele sistematizou algo novo. O seu incosciente, você deve a ele.

Interpretação dos sonhos, um de seus principais livros, e depois um grande best-seller, vendeu durante os primeiros 10 anos uma média de 75 cópias. Ele tinha um pouco da consciência da dificuldade de sua tarefa, mas dela não desistiu. Durante a Guerra temeu por sua sobrevivência e aceitou pagamento em batatas. No final da vida, quando cobrava 20 dólares por consulta, esnobou 100.000 dólares para contar ao senhor Goldwyn, da MGM, como as mentes funcionavam (desde o início a indústria de Hollywood foi profissional na tentativa não só de conquista de seu público…). Mas sem ele, as famílias continuariam a ser estruturas tão complexas quanto são, só que sem a capacidade de olhar um para o outro com toda a ambigüidade que ajudou a ver.

Visite a Paralela, lá tem a inspiração da Bienal 2008

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Vale a pena visitar a Paralela 08, de perto e de longe, fica lá no galpão do Liceu de Artes e Ofícios, aliás, um lugar que mereceria ser mais utilizado, apesar do calor. Quando se chega, a portinha acima não promete, mas o teto do galpão é dos mais bonitos.

Tem um panorama interessante da arte contemporânea brasileira, uma nova geração que cria e mostra o seu estilo. Minha filha de 4 anos pôde interagir com várias obras. Se você não gostar, vá daí para a igreja de Santo Expedito, ali do lado, o padroeiro das causas urgentes, talvez ele dê um jeito no seu senso estético.

Uma provocação à Bienal, lá tem uma foto do Rubens Mano de 2001 ou 2002. O que é a foto? Um andar do Pavilhão da Bienal vazio. Ainda vou visitar a Bienal, vou verificar no andar vazio tem o crédito do Rubens Mano…

Ela não se queixa, mas eu me queixo - Marília Gabriela

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Assisti hoje a última apresentação desta temporada de Aquela mulher, texto do José Eduardo Angalusa, direção de Antonio Fagundes e presença única de Marília Gabriela no palco. A peça volta no ano que vem, mas eu não recomendo, não gostei.

Não gostei de nada. Achei a atriz, forçada no início, desencontrada no final, num figurino de deusa mulher, com asas e salto altos que impediam deslocamentos naturais, mesmo teatrais. O texto também não me agradou. Acho difícil fazer arte sobre algo tão forte e tão recente. As piadas com a Marisa Letícia me parecem fáceis e de mal gosto, Hillary e Bill poderiam inspirar discussões mais ricas sobre poder, traição e relacionamentos…

Quem sabe o que quer? Woody Allen e as mulheres

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Falar de Woody Allen para mim é arriscar-se a misturar razão e emoção. Já disse aqui que ele e Bergman são meus dois cineastas favoritos (juro que não é por inspiração de Allen que, segundo dizem, queria ser Bergman, mas, segundo eu, tem muito humor para isso…). Acabo de assistir Vicky, Cristina, Barcelona. Além de boas gargalhadas (humor inteligente, se você for assistir não se sinta obrigado a rir), dá-se para discutir bastante a vida e os sentimentos.

Um protesto, quase não há fotos de divulgação de Rebecca Hall, a Vicky (a foto acima não está relacionada ao filme), atriz que mexeu com meus instintos masculinos bem mais do que Scarlett Johansson e até mesmo Penélope Cruz.

O filme narra a história de duas amigas americanas de férias em Barcelona. Uma saber o que quer, outra, apenas o que não quer. Uma pragmática, outra romântica, as duas se envolvem com um pintor quase canastrão, ainda muito ligado a ex-explosiva mulher. A partir daí Allen constrói uma teia de relacionamentos humanos para provar que o difícil mesmo é a gente saber o que quer o tempo todo. Seguindo a linha do post sobre Madame Bovary e a traição virtual, só não vale mesmo é ficar como a July (tia da Vicky), tentando resolver a vida dos outros já que a sua, bem a sua, está amarrada demais para tentar, amarrada em conforto e segurança.

A crítica diz que é uma volta de Allen a bons tempos. Mas não se pode considerar Woody Allen sem pensar no conjunto da obra. Um filme por ano, todos, no mínimo, com textos inteligentes e fora do mainstream do cinema americano (tanto é que nos últimos 3 ou 4 filmes foi para a Europa). Não perca Vicky, Cristina, Barcelona e veja com que personagem seus instintos mais combinam…

Ação, reflexão, o romance e as praias

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Admito que tenho algumas resistências ao Carlos Heitor Cony, lembro que li e gostei bastante do Quase memória, mas lá se vai mais de década e naquela época eu não fazia anotações algumas nos livros. Sei que sua obra está sendo relançada, até comprei O ventre, seu romance de estréia que ainda não li. Dos colunistas da Folha é um dos que menos leio, associo a Manchete, seminário e um conservadorismo exagerado. Mas patrulheiro em relação ao preconceito, sempre inicio a leitura.

O da Ilustrada de ontem foi dos mais úteis, trata da divisão do romance em duas vertentes básicas: ação e reflexão. Admite que alguns tem um pouco dos dois, mas conclui que à literatura caberia mais a reflexão e ao cinema e até teatro, a matéria-prima adequada seria a ação. Lembra Glauber Rocha que disse “José de Alencar foi um rio, Machado de Assis, um bica d’água”. Justifica que talvez por isso Machado de Assis nunca tenha alcançado o público que merece no exterior, ao contrário de Jorge Amado, vendeu milhões. Jorge Amado seguiria a linha de José de Alencar e permitiria aos gringos matar sua curiosidade de tipos tropicais. Para as reflexões, esses mesmos gringos, leriam os locais. Faz sentido.

Colocou também que prefere não ter seus romances adaptados para mídia de ação, algumas vezes, preferiu criar obras específicas já com esta necessidade embutida. Para quem escreve fica a questão: como Cony, “com as minhas limitações, procuro refletir sobre a condição humana em vez de narrá-la”, ou como Alencar, Amado e tantos outros, “colocar muita ação em personagens dramáticos”. Talvez esteja aí uma diferença entre o livro sucesso de crítica e o livro sucesso de público. Poucos conseguem ser os dois ao mesmo tempo. Se e quando Paulo Coelho ganhar o prêmio Nobel, não tenho dúvida que o próprio Albert Nobel encontraria um jeito de voltar e declarar extinto o prêmio, aí, em todas as áreas, o abuso teria sido excessivo…

Madame Bovary também é você - nem que virtualmente…

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Há poucos dias fiz um post sobre Madame Bovary, mas clássico é isso, inspira em outras áreas. Para quem não leu a coluna do Contardo Calligaris ontem na Folha de S. Paulo, recomendo fortemente. Uma continuidade da semana anterior, discutindo pornografia na internet e traição. Emma Bovary, parafraseando Flaubert, pode ser eu, você ou qualquer pessoa, mas desta vez, sem a necessidade da carruagem à proteger as aventuras. Agora utiliza-se a rapidez da conexão que aproxima as idéias e as palavras mas afasta os corpos.

Mas discutir os Bovarys é discutir o tédio na existência. Como ele anda na sua? Como anda o seu relacionamento? Não dá para ter descanso. Se o ímpeto da resposta sugeriu “estável” eis algo que não se sustenta. Leia o Contardo, com um pouco mais de fôlego leia Madame Bovary mas faça algo de prático, sem fazer nada, lhe restará escolher um dos lados do livro, quem será Charles? Quem será Emma? O pior é se os dois forem Charles, aí, haja monotonia. Mas ainda pior é ser salvo apenas por um movimento dos dedos no teclado…

Leitura fácil, mas cuidado para não se enganar

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Eu já gostava de aforismos muito antes de gostar de Nietzsche. Uma boa frase, bem pensada, bem sacada serve como inspiração para reflexões e até ações. Gosto também bastante do Daniel Piza, não perco suas críticas aos domingos, assim, não me restou chance a não ser comprar o novo livro dele, uma compilação da última parte de sua coluna nos jornais por onde passou: Aforismos sem juízo, nome também do livro. O único risco que se corre, é ficar na superfície das sentenças, perder o muito do que não foi dito… As revisitas servem para que? Inclusive já usei uma frase numa orelha de um livro.

Espelho XLVII

Ser humano é desafiar o que já está entendido, forçar os limites. Mas ser humano é também esperar que um outro faça isso, esperar brigando apenas pelo conforto.

Einstein no Ibirapuera

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Fui com o meu filho de 11 anos visitar a exposição sobre Albert Einstein no Parque Ibirapuera. É uma exposição que demanda leitura de legendas e painéis, ele estava meio desanimado de início, eu também, não estou acostumado a ler sobre ciências, entendo pouco. Algumas coisas mais práticas vão aparecendo e convidando o visitante a interagir, fica bem melhor. Mas num questionamento interno fiquei divagando se para um cientista, os meandros da literatura, da cultura, também não podem parecer tão distantes quanto alguns pontos da física ou química chegam a me parecer.

Do meio para o final, aquela reação típica dos homens, gostam quando entendem, sentem-se muito melhor. Dá para sair de lá com conceitos interessantes da E=mxc2 e de outras contribuições de Einstein. Também detalhes da vida pessoal permitem criar o personagem como um duto dentro do visitante. Achei o filme 3D muito pobre, imagino que uma narração não encarecia quase nada e faria uma total diferença para o público leigo. Cometi o erro de deixar a outra parte da família apenas no parque, nos demandaram e não tivemos tempo para explorar os laboratórios. É um bom programa e se estende fácil para 2 ou 3 horas.

O negativo fica para o material entulhado que se tem visão antes de chegar a portaria e a falta de limpeza e conservação de alguns pôsteres, nada grave, mas como dizem por aí, sem a concordância de Einstein, deus está nos detalhes… Também achei o pequeno complemento artístico bem fraco, exceção a Guto Lacaz e mais um outro que não me lembro, não é preciso dizer muito para comprovar no campo artístico a relatividade de Einstein, um trabalho de Gustavo Rosa, dá a cara da exposição, bota a língua para ele Einstein…

Acabo de abrir um curso de formação para as Assessoras Fashion

assessoras-fashion.jpg Acabo de abrir um novo negócio… Um curso de extensão cultural às assessoras fashion do Shopping Cidade Jardim. Atenção diretoria do Shopping, cobro mais barato que uma dessas bolsas que dizem, geram filas, ou pelo menos geravam, quando o dinheiro fictício do mercado era utilizado para saciar, também ficticiamente, as necessidades desses endinheirados.

Que vantagens teriam? De repente, poderiam também incluir uma visita à Livraria da Vila, hoje a livraria mais bonita do Brasil, e teriam mais assuntos, talvez possamos escolher alguma obra especializada em substantivos de elogios, é sempre útil para parecer autêntica. Hoje, tenho certeza que não devem ter lido nada além de O segredo e A cabana (se você leu e gostou desses livros, não está visitando o lugar errado?) ou outros títulos concorrentes. Se você não está entendo nada, sugiro a leitura da matéria de hoje da Revista da Folha. O Shopping oferece agora esse novo serviço, assessoras para estimular a venda das lojas e a segurança da compradora, a pessoa preenche uma ficha e torna seu perfil conhecido pelas especialistas que fzem uma busca prévia. A escolhida para a matéria queria dicas de roupas para passar o final de semana com o marido e os filhos… Daqui a pouco o ser humano vai estar precisando de dicas para que? Talvez eu também peça ajuda, minha mãe virá para São Paulo na próxima semana, que roupa preciso comprar para encontrá-la?

Ridículo tudo isso. Mas ao invés de ficar apenas criticando, coloco-me à disposição do Shopping para dar dicas básicas de cultura e literatura, para que no mínimo, as tais Assessoras Fashion, possam fazer um tipo. Tem uma enorme parte das pessoas que prefere um subproduto do livro, o pouco de credibilidade e “inteligência” que ele transfere. Já imaginou, se além de a blusinha ideal para uma mãe sair com os filhos e o maridão, elas souberem falar de um livro fantástico, é muito mais valor agregado…

Quanto doi uma traição? - Dom Casmurro

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Acabei a leitura de Dom Casmurro, talvez o livro mais discutido de Machado de Assis, Bentinho e, principalmente, Capitu já são personagens de discussões, inspiração para novelas, vivem no imaginário dos brasileiros. O tanto que se fala da história, me impede de lembrar se já o lera na adolescência. Gostei, insisto, Machado de Assis tem o dom de me fazer ler com movimentos imaginários na boca, um riso que não chega a se formar, mas sempre se insinua.

Ainda prefiro Memórias póstumas de Brás Cubas, mas Dom Casmurro é interessante. Aos religiosos recomendo a leitura para uma revisão da estratégia das promessas. José Dias, o agregado da família Santiago não deixa dúvidas sobre esse papel ainda presente na cultura brasileira, atira para todos os lados, sempre sem saber de onde virá a migalha mais consistente. Machado de Assis deixa claro o risco da evolução de quadrados amorosos, sem julgamento moral, apenas da facilidade de confusão entre fatos, sentimentos e situações. Não quero aqui concluir se houve ou não a traição, mas o livro pode fazer o leitor refletir sobre as dores e as conseqüências do adultério e o quanto elas são transferidas para as proles. A psicanálise e todas as outras psis têm sobrevida garantida…