Dezembro de 2007
Pelo enorme calor e ainda não tão espalhadas conexões wi-fi no litoral paulista, esse pode ser o último post do ano.
Confesso que estou em dúvida se repito o tradicional planejamento que faço há décadas, ou se deixo passar, se curto a sensação de liberdade de não por no papel as minhas metas, de não ter nada a dirigir o meu futuro, como se minha mente descansasse ou se desincumbisse dessa tarefa.
O que tenho certeza é que vou ler muito, mergulhar ainda mais nos clássicos, olhar os russos com mais carinho, continuar o mergulho na obra do Philip Roth e ensaiar minhas primeiras páginas escritas. Agora eu mesmo serei vítima de meu rigor editorial, vamos ver se em casa de ferreiro o espeto é de pau…
Um 2008 mais consciente possível, cheio de ação, coragem e energia!
Dezembro de 2007
Amanhã faço 42 anos. Além do batido, ‘nossa como passa rápido!’, me vejo a deglutir o final da leitura do Ilusões perdidas de Balzac e a minha resistência a perder algumas delas, a minha disposição, e portanto jovialidade, em encarar a vida como ela é. Ainda agarrado a algumas ilusões, pendo entre o pessimismo constatativo da ação da espécie e o otimismo da briga para construir, se não um mundo, quiçá um entorno, um pouco menos hipócrita e mais saudável.
Mas a grande diversão dessa viagem tem sido constatar as várias facetas do bicho homem e o quanto tenho conseguido, ao expor os meus fantasmas, ter uma relação transparente e livre dos mesmos. Se 42 me chancelam para opinar sobre algo, é isso: não guarde os seus fantasmas, se tentar, eles vão assumir o comando. Assuma-se e passará a ter com eles uma relação mais simples e resolvida, inclusive para identificar que tipos de fantasmas estão no comando do seu interlocutor.
Dezembro de 2007
Um jornalista que admiro bastante é o Vinicius Torres Freire, agora no caderno Dinheiro da Folha. Desde que migrou para esse caderno os leitores perderam muitas de suas opiniões sobre outros campos da vida que não o econômico. Hoje ele comentou um assunto que me mobilizou aqui no blog, a questão do MASP. Fez um raciocínio sobre a solução aventada de se colocar grades para proteger o museu e as soluções arquitetônicas que são adotadas pela burguesia e elite paulistanas, há muito destruindo qualquer possibilidade de construção cultural, ou será que apenas refletindo a inexistência dela?
Vinicius questiona a participação da elite paulista nas obras culturais e cutuca as doações esparsas, feitas basicamente em nome das empresas e com benefícios fiscais. Deixo a última pergunta do artigo: Qual foi a última grande obra cultural da elite paulista???
Dezembro de 2007
Que fique bem claro aos meus amigos, aposto que conscientes da minha lealdade, o quanto os prezo, mas se por alguma ironia do destino eu chegar a presidência da república, terei que colocar o cargo acima do pessoal, no mínimo separar as coisas.
Já achava que o presidente Lula não pensava assim, agora veio a frase faltante, dita ao padre Júlio em cerimônia ontem: “A gente não tem de ter vergonha de um amigo. Companheiro é coisa tão sagrada que a gente constrói ao longo de muitos anos, de muita solidariedade”.
Cabe a polícia investigar o padre Júlio, tenho minhas hipóteses, não as misturo com o trabalho social que ele realiza, mas na minha visão o Lula se entregou. Foi com essa sacritude que ele tratou todos os amigos dos escândalos passados, corroborando o alastramento da queda de valores da sociedade brasileira. Amigo pode até ser sagrado, mas valor é constitutivo!
Dezembro de 2007
X Arquitetura Neoclássica
Lamentável, confesso que já estava com o Julio Neves atravessado há algum tempo. Ele é um dos arquitetos que embarcou na onda “I love Paris dos séculos passados” e contribui ativamente para deixar o visual de São Paulo muito mais pobre. Infelizmente não consigo me livrar de suas obras de discutível significado arquitetônico, prédio da Daslu e outros, agora, por incompetência e irresponsabilidade na direção do Masp, sou privado de ver os quadros do Picasso e do Portinari, roubados de maneira primária com macaco e pé de cabra. O pior é ler a entrevista do presidente do museu, disse que quer sair, tomará dessa vez seja sério.
Dezembro de 2007

No mesmo caderno do Valor há uma listagem dos fatos e pessoas importantes em 2007. É sempre interessante dar uma olhada nessas listas, no mínimo temos a certeza de que a memória é curta, da nossa capacidade enorme de não lembrar de não esquecer das sacanagens políticas e suas extensões, algumas tragédias e outros absurdos de uma imprensa muitas vezes ainda indecisa sobre seu papel, muitos devem estar seguros que é apelar para vender papel impresso.
Perdas importantes aconteceram, para mim, a principal foi do cineasta Ingmar Bergman. Poucas pessoas conseguiram me fazer refletir tanto sobre a espécie e os relacionamentos. Se você acha os filmes parados demais, insista, insista até entender o tempo que o diretor te dá para refletir sobre aquele tema. Descubra um pouco mais do quão complexo é viver. Mas ninguém aqui está combatendo a complexidade, pelo contrário, ela é que é interessante, só fica difícil aceitar os tamanhos reducionismos das salas de cinema comerciais, superficiais como a vida da maioria da espécie.
Dezembro de 2007
Saiu hoje no Valor Economico, caderno Eu & Fim de Semana, uma suposta sabatina com o amigo do Niemeyer e da “esquerda” brasileira, ex-ministro e hoje “consultor bombando mundial” Zé Dirceu. Algumas perguntas até que eram boas, mas o formato de pergunta e resposta sem possibilidade dos entrevistadores contestarem é pífio, dá o espaço para o Dirceu exercer o discurso factóide de fingir encarar ele mesmo a verdade, tentar dar a impressão que aborda tudo, mas o que faz mesmo é dar suas manipuladas e não revelar os bastidores do jogo que faz. Sinceramente acho que nem a finada velhinha de Taubaté conseguiria encaixar na cabeça todos os ideais socialistas que ele marketeia por aí e sua prática, não só no campo político, mas principalmente agora, como consultor e viabilizador de negócios. Mas o homem deve ter uma listinha de favores prestados muito grande, amarra o rabo de muita gente…
Dezembro de 2007
Hoje apareceram na imprensa as notícias sobre a festa dos 100 anos do Oscar Niemeyer, os “amigos” que lá estiveram puderam debater ao vivo todo o processo de internacionalização da “consultoria” do José Dirceu. É impressionante a capacidade desse novato no mundo dos negócios de expandir seus domínios, diz que já atua em 12 países. Assumo, tenho inveja, só dessa suposta capacidade de nem bem estrear e já ir ganhando mercados, pena que seja a mais pura ficção. Quem é que vai gritar e exigir que investigações tragam à tona todo esse submundo? Quem diria, no fundo de toda aquela “ideologia” o que existia mesmo era ambição pessoal, queria ficar rico, bem diferente da vidinha que vivenciou em terras de Fidel…
Não vou cobrar o Niemeyer uma coerência, mas vou cobrar de mim, prefiro não chegar tão cego assim aos 100 anos.
Dezembro de 2007
Hoje Oscar Niemeyer celebra 100 anos. Tem uma obra monumental, é um dos poucos brasileiros com extensão global, conseguiu “dar certo” num mundo onde suas ideologias não imperaram, se impôs apesar de sua conhecida ideologia comunista. Se você quiser conhecer um pouco mais do trabalho dele, há ampla cobertura na mídia, o cara merece, impactou alguns dos maiores nomes da arquitetura mundial e é quase uma unanimidade em ser um dos principais arquitetos vivos.
Vamos aqui então falar de outro lado. Não é sempre que se observa alguém comemorar 100 anos e estar ativo, estar transformando paisagens e expressando suas idéias e conceitos. Pode ser, mas nunca me lembro de ter lido os planos do Niemeyer para a aposentadoria. Meus planos são ser assim, já sonhei viver 93 anos, antes do Niemeyer já tinha levantado minha ambição para os 100, vendo-o nos jornais hoje, reitero meu desejo, não vou querer desperdiçar energia, conhecimento e tudo mais para “aproveitar a vida” na minha aposentadoria. Acho sinceramente que dá para conciliar a construção de sua “obra” com o desenrolar de sua vida, é lógico que vai dar bastante trabalho. Aposto que o centenário de hoje já se divertiu muito mais do que a maioria dos aposentados da Flórida…
Dezembro de 2007
Ser humano é buscar profundamente uma vida virtuosa e também ceder, em alguns momentos, às tentações dos excessos.
Dezembro de 2007

A edição comemorativa de 10 anos da revista Cult, uma ilha de profundidade nas bancas repletas de celebridades, traz uma interessante entrevista com o controvertido filósofo francês Gilles Lipovetsky. Filósofo que escolheu o luxo e o consumo para observar o ser humano aponta que já para Shakespeare os objetos de luxo nos distinguiam da animalidade, para o homem sempre há de haver a busca do excesso, o não contentamento com a satisfação das necessidades naturais e que pode haver uma busca da beleza no luxo, uma busca da sensualidade, desde que não se descambe para o escandaloso, comum em vários atos de consumo do que ele chamou de “hipermodernidade”, sinônimo dos tempos malucos em que vivemos.
Assim a própria arte penetra no universo do luxo, principalmente pelos preços que a arte contemporânea atinge. Há também o hiperconsumo de cultura, seja nas milhares de músicas do IPod, nas fitas de DVDs, nos canais de TV a cabo, livros, blogs etc. Mesmo sabendo que a felicidade não se adquire como mercadoria, nossas vidas estão cada vez mais devedoras das mercadorias, cada vez mais o ser humano tenta se expressar por meio de marcas, todos sonham com marcas, se antes um pobre sonhava, tão e somente, poder viver, hoje, não que não tenham direito, sonham em consumir marcas, e o vazio fica mais próximo e íntimo de muito mais pessoas, todos perdidos em busca do sentido da vida… Vale a leitura!
Dezembro de 2007
Você também acredita que lê menos do que gostaria porque não tem tempo? 10 dias a mais no ano ajudariam?
Se sim, talvez esteja na hora de, se não radicalizar como fez João Pereira Coutinho ao jogar o seu celular no rio Tejo, ao menos racionalizar o tempo gasto com chamadas de necessidade bastante questionáveis como bem pontuou o jornalista hoje na Ilustrada. Vale a pena ler a descrição dos assuntos edificantes que todos nós discutimos ao celular. Dizem as estatísticas que passamos 240 horas por ano ao celular, são os 10 dias citados. Antes da próxima ”querido, onde está?” que tal abrir um livrinho?
Dezembro de 2007
Em entrevista para Expedito Filho do Estado de S. Paulo em 10/12, o futuro presidente da “Câmara alta”, Garibaldi Alves se declara um grande leitor, vamos à fonte: “Definindo-se como ‘um leitor voraz’ de jornais, publicações, admite no entanto que livros só lê ‘esporadicamente’, e quase sempre os que aparecem nas listas de mais vendidos. Ainda assim, o gosto por política leva o senador potiguar a dedicar tempo, sempre que pode, a biografias de grandes líderes. Ultimamente, leu as vidas de Franklin Roosevelt, John F. Kennedy, Josef Stalin e Winston Churchill.”
Ou seja, nosso futuro presidente do senado lê muito pouco, ainda não deve ter compreendido o papel da leitura na vida e o quanto grandes livros poderiam auxiliá-lo nos episódios que já presenciou e vai ter intensificado agora na nova posição. Grandes narradores do ser humano poderiam levá-lo a um estágio adiante. Pobre do país que não tem nem entre os seus líderes pessoas capazes de encarar os autores indispensáveis.
Dezembro de 2007
Se ainda não leu, dá tempo de ler hoje, ou então, guardar para o meio da semana: caderno Aliás, O Estado de S. Paulo, 09/12. Tem uma entrevista do senador Jefferson Péres que é das mais interessantes. Tenho receio de defender políticos, mas mesmo sem ser do Amazonas e ter um histórico mais próximo, os senadores de São Paulo não passam no meu crivo, nem mesmo o Suplicy, eu ouso classificar o Péres como um dos políticos mais coerentes deste país.
Durante a semana a jornalista Dora Kramer já tinha defendido o senador das tirações de sarro que Calheiros e Sarney faziam, classificando-o de pobre. Acrescentou a jornalista, o senador Péres pode até ser pobre, mas é limpinho. Piadinhas à parte, o mesmo não pode ser dito de Calheiros e Sarney. O perfil de Péres é bastante coerente, o parágrafo final é necessário. Péres se assume ambicioso, mas não ganancioso, admite a vaidade, o gosto pelo conforto e não ter como objetivo ser classificado como santo, mas como incorruptível sim, e isso hojé já é muito.
Voltando ao tema do primeiro livro da Virgília, História do futuro do Brasil, tem no mesmo Aliás uma entrevista com o Carlos Guilherme Mota que expõe de forma clara as questões da elite brasileira e o momento que estamos vivendo. Mota é duro, le-lo, como ler o livro da Virgília é descer do bonde das ilusões, é encarar que há muito o que fazer e já não é mais possível fingir que está tudo bem se o insulfim ajuda a esconder um pouco da realidade. Para Mota, todos somos formigas, aprisionadas por um modelo ancestral. Corrêa da Costa no livro mostra que sempre se tomou as decisões da mesma forma nesse país. Mota argumenta que o senhorio do período colonial se metamorfoseou e não há ruptura, essa deve ser a verdadeira metamorfose a que o presidente Lula fez referência.
Dezembro de 2007

Ontem passei pelo aeroporto de Congonhas. Haja paciência, duvido que com outra formação cultural, a situação estaria como está. Nós brasileiros aceitamos demais ser mal tratados. Fica fácil perceber que o sistema aéreo e outros setores estão a beira de um colapso. Está faltando infra-estrutura. A Virgília vai lançar Memórias do Brasil grande, do Wilson Quintella, ex-presidente da Camargo Corrêa, relatando o período de grandes investimentos em obras públicas que se não tivessem sido feitas, agora tudo ainda estaria pior.
São histórias de várias grandes obras do estado de São Paulo e do Brasil. Metrô, ponte Rio-Niterói, Aeroporto, Brasília, Hidroelétricas. Há espaço para muita polêmica nesse tema, mas a contribuição da editora é trazer o assunto da infra-estrutura para discussão. A partir de final de janeiro, início de fevereiro.
Dezembro de 2007
Um amigo que acompanha o blog me ligou dizendo que os posts estão muito soturnos, se está tudo bem comigo? Parei para refletir.
Eu tenho sim essa relação meio crítica com a vida e com o ser humano. Mas quem me conhece e convive comigo sabe que sou bem humorado, algumas vezes até irônico, daqueles que correm o risco de perder um amigo mas não perder a piada. Agora, olhar no entorno nessa “pós-modernidade” não é nada assim tão animador. A prova do meu otimismo são os meus dois filhos e toda a minha motivação, minha esperança de ainda mudar o mundo, a construção da relação com a minha mulher. Eu sou assim crítico, até ácido, vejo o negativo, o ruim, mas consigo fazer isso com o intuito de mudar. A minha soturnez, é o combustível para minha mudança…
Dezembro de 2007
Ser humano é se aproveitar da impunidade e do poder para ajudar os amigos, criar um crédito ou pagar uma dívida. Mas esses são só os piores humanos.
Dezembro de 2007


Mais uma vez o Senado mostrou que o conceito de justiça é algo muito relativo para os que adquirem o direito de legislar em causa própria. Abaixo a corporação! Fico imaginando a forma que Sarney, Renan e outros “aliados” ficaram comemorando a “absolvição”, nojo!
Nunca li nada do acadêmico Sarney, mas o resultado da produção ficcional dele deve ser bem mais realista do que produz como político, essa sim uma ficção folhetinesca e baixa.