Arquivo: Dezembro de 2007



Espelho II

Ser humano é olhar para o outro e alternar entre a necessidade falto de ser aceito e o desejo indomado do desprezo.

Dá para ser feliz no exílio?

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A coluna do Bernardo de Carvalho hoje na Folha empurra o leitor a uma reflexão interessante sobre os limites de se sentir em casa ou exilado. Trata dos limites que o poder cultural impõe e a cerca que levanta, “defendendo” os habitantes do diferente de outras culturas, do quanto se tende a enxergar como estranho, e a repelir, até desdenhar, o que não é usual e pertencente ao próprio círculo. A foto acima, retirada de um site político espanhol é do Robert Capa e serve como ilustração perfeita para um embate um pouco mais mundano, que gostaria de começar com a citação de Hugo de São Vítor, princípio do texto do Bernando, final do livro de Erich Auerbach (Ensaios da literatura ocidental):

Delicado é aquele para quem a pátria é doce. Bravo, aquele para quem a pátria é tudo. Mas perfeito é aquele para quem o mundo inteiro é exílio.”

Dito isso abandono a literatura e volto para uma discussão filosófica, e portanto, quase sem fim, da questão da felicidade. Não tenho formação, estofo para aprofundar, mas quando vejo algo assim, sinto-me na obrigação de dar meus pitacos. Se não tenho profundidade suficiente, tenho a visão externa do estranhamento que os manuais de auto-ajuda e seus conceitos fáceis causam naqueles que já ultrapassaram o nível de sua leitura, aqueles que conseguiram deixar de se enganar com a simplicidade das conclusões. Para esses, aceitar que o perfeito é a situação de exílio é um ótimo consolo no desenvolvimento de seus relacionamentos e dia-a-dia. Ouso dizer, se você não está agora com nenhum sinal de desconforto, de exílio, é porque está acomodado demais…

Poder, estética, cultura e natureza

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Pela manhã corria pelos Jardins e fazia uma avaliação estética da cidade. Não é que as casas ainda preservam uma diversidade muito maior do que o pobre neoclássico reinante nas construções dos prédios e shoppings? Os incorporadores responsáveis hão de pagar um preço. A mancha no visual é definitiva, a moda se alastrou e não haverá implosão que dê conta de exterminar o estrago. No jornal li uma nota que o arquiteto Arthur Casas vai ser o responsável pelo interior do Shopping Cidade Jardim. Ele acaba de perder os pontos que tinha ganho comigo quando fez também uma crítica forte numa revista ao neoclássico. Se os que conseguem enxergar a aberração desse apelo a um passado desfocado não forem até o fim com suas convicções, como é que se pode incrementar esteticamente quem já se desenvolveu financeiramente mas ainda tem um trilho cultural a caminhar? Precisava também avalizar o monstrengo da marginal? Não dava para ter ficado de fora dessa e manter a coerência da crítica anterior?

Outra questão complementar diz respeito a natureza. Ontem discutia com um amigo, que poderia comprar palmeiras imperiais de muitos anos (as do Jardim Botânico do Rio de Janeiro são da época do Império), do quanto é mais construtivo plantar e esperar crescer, mesmo que se corra o risco de só deixar para alguém desfrutar. Era o que a família tinha feito na fazenda e 20 anos depois elas já estavam bastante interessantes. Adianto que quando fiz meu jardim não pude comprar árvores prontas, fui obrigado a valorizar o crescimento lento e gradual, valorizar ser testemunha da transformação e do embelezamento das minhas árvores. Se tivesse condições, acho que não faria, mas aceito a diferença entre hipótese e fato concreto. Acredito que para mim elas terão um valor enorme, muito maior do que simplesmente assinar um cheque grande e economizar anos de crescimento.

No final da minha corrida de hoje vi que a rua Panamá estava interditada pelo CET nas duas pontas, tudo isso por causa de um guindaste gigante que plantava árvores enormes num jardim de uma bela casa. O que me incomoda é a dúvida se os futuros moradores vão perceber o quanto de esforço da natureza foi comprado e colocado ali, se vão ser capazes de desfrutar de tudo aquilo, ou vão simplesmente aguardar que os visitantes se impressionem com seu poder econômico…

Espelho I

Ser humano é aceitar a incoerência temporária dos sentimentos. Não, utilizar a falha premeditada da razão como álibi para todos os instintos…