Arquivo: Janeiro de 2008



Espelho XII

Ser humano é ter dificuldade entre decidir ser um homem de ação ou de pensamento, é definir por um e exagerar, é temer não conseguir o equilíbrio, é não atingir esse equilíbrio e mesmo assim tentar. Poucos fazem, a maioria se explode de um lado ou de outro.

Contra todos, inclusive a si!

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Ler Memórias do subsolo deve ser forte para qualquer um, para mim foi bastante interessante. Ainda no meio da primeira parte chamei minha mulher para conversar e pedi sua ajuda. Identifiquei dentro de mim um homem de pensamento e também um homem de ação, os pontos descritos por Dostoiévski me fizeram pensar muito, acho que tenho sim esses dois lados dentro de mim, mas vejo o risco de errar a hora de chamar o lado correto, com a ajuda dela, fica muito mais fácil.

Depois também me identifiquei com o personagem sentindo-se obrigado a ir na festa dos amigos do andar de cima, não pela festa, mas pela possibilidade de contraposição, de diferença de estilo e valores. Já me deparei várias vezes na vida com essas situações, já mudei a forma de reação diante delas, já me debati e vou continuar a faze-lo, acho que isso se passa com todos. Essas reflexões continuam por toda a vida, se cessarem é porque paramos de viver. Dostoiévski é isso. Memórias do subsolo é contrapor o mundo, quem não tem esses momentos, inclusive a si.

Conexão perdida

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Nesse final de semana estava eu em Itapeva, cidade onde cresci, visitando meus pais quando resolvi dar uma última busca no que sobrou da biblioteca do meu avô. Fôra eu seu principal assaltante, na verdade seu segundo, o principal foi o tempo, muito deve ter se perdido, vários livros tem não só o desgaste natural como a marca dos cupins a lhe acrescentar um pouco mais de história e a aumentar para mim o fascínio pela simplicidade e praticidade do produto, isso sim é que é tecnologia, disponível e resistente.

Entre outros, encontrei o livro acima, abro curioso e me dou conta que a edição contém 3 obras de Tolstói, duas delas eu tinha lido esse mês, postei comentários aqui no blog: Sonata a Kreutzer e A morte de Ivan Ilitch. Como não sou chegado a buscar conexões esotéricas preferi refletir sobre a queda da conexão que poderia ter se estabelecido. Será que o meu avô leu esse livro? O que poderia ter achado? Que pena que não conversamos sobre isso, que pena que ele não passou isso para a minha mãe, minha tia ou mesmo minha avó, até hoje viva. Que prazer e que possibilidades se perderam em eu não poder discutir com o meu avô todas as questões existenciais propostas por Tolstói nesses livros. O que vou fazer é tomar um cuidado extra para que o ciclo não se repita. As edições que li estão todas grafadas e comentadas, junto agora essa achada e deixo minha biblioteca preparada para que os meus descendentes possivelmente se interessem por esses assuntos e possamos expandir um pouco mais nossa família, discutindo também assuntos tão sérios e necessários como os dessa obra, e ter o privilégio de discutir isso com os laços visíveis e invisíveis que nos unem… Mas para isso, pouco vai adiantar minha competência intelectual, vai valer mesmo é o amor que conseguiremos regar!

Espelho XI

Ser humano é ver o tempo passar e ficar indeciso diante das lembranças do passado e as projeções do futuro, é arriscar não acordar a tempo de viver o presente.

Para quem tem, já teve ou caminha para os 40 anos!

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Se você está nos quarenta, se aproxima, está distante mas já pensa no futuro, passou por pouco e quer reavaliar, passou por muito e precisa rever, não deixe de ler o novo livro da Virgília: Tempo a favor, o que você vai ser, ter ou parecer após os 40? O consultor Renato Bernhoeft, um sessentão bem resolvido com filhos na fase dos quarenta resolveu dar sua contribuição para o assunto. Para quem lê o blog, já sabe de alguns dos meus mergulhos na crise dos 40, crise da qual estou quase tendo alta, não por definições e sim por tempo.

Depois de muito refletir, só agora comecei a ler o Memórias do subsolo do Dostoiévski para “completar” a reflexão, posso concluir que é uma fase ótima, requer apenas uma adaptação. Dê uma olhada nas frases do Quem disse o que, algumas pérolas, ouso dizer que quase valem por um livro. Acho arriscado os que passam pelos 40 de forma desapercebida, tenho certeza que depois vai ser pior.

Na próxima semana estarei blogando as informações do livro e daí vocês podem conferir os detalhes. Antecipo que são abordados 5 papéis de nossas vidas: Profissional, Familiar, Social, Educacional e Individual. Dentro de cada papel Bernhoeft coloca questões importantes de uma maneira profunda sem ser chata e sem apelar para a auto-ajuda.

Machado de Assis e as finanças

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Depois da economia em Fernando Pessoa, Gustavo Franco veio com o economia em Machado de Assis. São crônicas de Machado que as escreveu com mais de 22 pseudônimos diferentes e tem um foco nas finanças. É o melhor de Machado? Não, mas mesmo assim vale a leitura, vai requerer um pouco mais de esforço, existem muitas notas, necessárias mas que quebram o ritmo. Já dá para saber que deste o século XIX os acionistas não eram muito bem tratados pelas empresas. A Governança Corporativa resolveu? Tomara que sim, mas vale lembrar que para Machado de Assis o paralelo animal para o acionista era o passivo carneiro, o dócil cordeiro. Indicado para os que gostam de economia e finanças e conseguem juntar esses interesses à literatura.

Hillary Duff, Dostoiévski e a sociedade de imagem

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Hoje queria começar a leitura de Memórias do subsolo, acabei de ler A economia em Machado de Assis que vou resenhar para a Gazeta Mercantil, mas tinha prometido levar o meu filho de 10 anos ao show da Hillary Duff e o fiz. Parti disposto a encarar o programa como uma análise socio-antropológica e principalmente como um momento de entender melhor esse cara que está crescendo e buscando o seu espaço, a sua individualidade.

Não descobri nenhum carisma especial na moça, mas deve ser problema meu, é uma febre entre os jovens. Tive ainda em casa uma discussão com o meu filho relativa a máquina fotográfica que ele insistia em levar. Eu tentava impedir, argumentei que estava claramente escrito a proibição de se fotografar, ele insistiu, eu cedi com a condição que se a câmera não voltasse ele iria arcar com o preju. Fomos, quando cheguei lá me deparei com milhares de máquinas, aqueles garotos e garotas além de gritar muito, fotografavam tudo, tentavam obter uma boa imagem, muito mais do que curtir ou assistir ao show. Ninguém deve ter conseguido, mas esse é o dilema dessa sociedade imagética, a todo momento se fotografa, nos locais públicos o que mais se faz é apertar um click, talvez seja apenas um estranhamento com relação a minha juventude quando se fotografava e ainda se mandava o filme pelo correio para ser revelado em Manaus (alguém aí lembra da Sonora?).

Mas como eu teria ficado se tivesse insistido em não liberar a ida da camêra?  O que iria dizer no meio de toda aquela bagunça? Que pelo menos nós estávamos cumprindo as regras? Qual seria a resposta dele? Por que então não se alteram as regras ou se exigem o cumprimento delas? Que impacto isso tem nas nossas vidas? Se isso acontece num simples show, imagine o que acontece em outros campos muito mais sérios da vida, aí, talvez somente Dostoiévski ajude, vou encarar.

Quanto a Duff, torço para que seja apenas uma fase do meu filho, que eu tenha dado exemplos suficientes para ir para ídolos mais sustentáveis com a idade.

Espelho X

Ser humano é recorrer ao perfume cosmético na busca de encontrar o aroma natural de algo perdido ou idealizado.

Perfume de mulher!

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Ontem estava num café, mesinha da calçada, discutindo com uma amiga, a Denise Gallo, especialista em inteligência de mercado para o público feminino (se tem interesse no assunto, visite o blog dela: http://blog.umaauma.com.br/)  sobre comportamento da mulher e a idéia de transformar o trabalho delas num livro da Virgília, aguarde.

O papo além de interessante estava profundo, discutíamos referências e filosofias de vida, os lados da equação, o preço da autonomia, a busca de realização, educação de filhos quando a mesa ao lado vagou e rapidamente foi ocupada por uma mulher já avançada na idade.

Para mim foi impossível não olhar, era daquelas senhoras exageradas em tudo, na cor da tintura, no dourado dos acessórios, na estampa das roupas, mas exagero mesmo era o aroma e a quantidade de perfume que tinha utilizado na esperança de algo, confesso que não sei o quê. Só sei que o incomodava muito. Até abreviei o papo, sim tinha uma reunião, mas o perfume deu dor de cabeça, estava quase insuportável. Nem comentei direito com a Denise, fui delicado, mas quando no e-mail que me enviou com os textos já no final da noite disse que ainda se podia sentir o perfume daquela mulher, voltei ao assunto. Onde imaginava ela ir com aquele perfume? O quanto a idade e a perda relativa dos sentidos empurram o ser humano para um exagero aos olhos dos que ainda os controlam quase que integralmente? Será que o companheiro daquela mulher ainda sente aquele perfume? Se sente, tem disposição para se manifestar ou a relação atingiu o estágio de acordo/desleixo onde um convive com o outro, pouco por costume, pouco por falta de desejo. Vou sugerir a Denise que inclua nos seus estudos a razão psicológica (ou será apenas oftalmológica?) desse e outros exageros.

A guerra das As: Apple x Amazon

A imprensa acredita que agora finalmente vai aparecer alguém para ameaçar a hegemonia da Apple e seu Itunes na música eletrônica, a Amazon. Se isso vingar, eu já vi várias promessas naufragarem, inclusive o Newton da Apple, pode ser que tenhamos a guerra do charme contra a eficiência, o design x a logística. Eu decidi não me posicionar. Só sei que devo pagar a conta disso, com certeza vou comprar um hardware que brevemente será aposentado, vou comprar um software que vai precisar de upgrade, nada contra, até me beneficio com tudo isso, mas gosto apenas de lembrar que também pago a conta…

Enquanto isso, música no Brasil ainda está mais para discussão sobre pirataria de CDs.

Meu som de final e início de ano

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Confesso que um pouco da minha ignorância musical foi sanada com um dos últimos CDs que comprei: Fernanda Takai. Sabia apenas de orelhada que era a cantora do Pato Fu, se me perguntarem uma música do Pato Fu serei reprovado, talvez ao ouvir, até conheça a música (é a mesma coisa nas pesquisas de intenção de voto, espontâneo não voto, se o nominho estiver lá, é capaz). Já tive um ouvido bossa nova e preconceituoso, expandi. Explicar o que é esse CD da Fernanda Takai é algo interessante. Além do prazer da edição do mesmo, da embalagem, dos encartes, o som é uma revisão de Nara Leão com toques e pitadas contemporâneas, tudo de muitíssimo bom gosto.

Pena que tenho andado mais de lambreta do que de carro. Moto, música e trânsito são coisas incompatíveis. Mas inclui a Fernanda Takai no meu radar, comprei o livro com as crônicas, ainda não acabei, mas já vi o suficiente para concluir que a Fernanda não se trata apenas de mais um produto de marketing, pensado para ocupar determinado espaço carente no mercado, é na verdade o resultado de muita sensibilidade, talento musical e capacidade e vontade de ser alguém. Homenageou Nara Leão, homenageou com classe, trabalho para deixar Nara orgulhosa. Se ainda não ouviu, confira, me fez esquecer muito dos desconfortos com o trânsito no reveillon.

Espelho IX

Ser humano é ficar indeciso diante do veredicto do juiz interno da própria consciência, é querer manipular ou fugir da sentença, é questionar se mesmo acertando, valeu a pena!

Vida correta vale a pena?

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Sigo minha cruzada no universo dos russos. A indicação de leitura da vez é A morte de Ivan Ilitch, o questionamento que deve ficar é sobre o valor de uma existência diante de determinados parâmetros. O juiz Ilitch ao morrer se questiona por que tamanho sofrimento, dores físicas como fáceis para as dores morais, se ele teve uma existência correta?

Alguns acham o livro e o assunto mórbidos, esses não percebem que não é um questionamento de morte, e sim um questionamento de vida, de valores e guias para as próprias ações. Ninguém vai acertar toda hora, (o que é acertar?), o certo e o errado o que são? O que é moral? No fundo são decisões de foro íntimo vividas num coletivo, uma busca de um equilíbrio tenso que não te abandona nunca. Nunca estive perto do final, simulo uma construção de moral que vai sendo a somatória de decisões, algumas mais confortáveis, outras menos, dos supostos erros e acertos, dos confortos e desconfortos, dos prazeres e das dores vou constituindo a minha moral, são essas decisões que imagino rever se pressentir que o final se aproxima. Mas esse é um caminho longo, uma preparação para ainda no mínimo uns 50 e tantos anos, quiça, 60!

Cem anos de madame Beauvoir, acordai mulheres!

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Dia 9 de janeiro deveria-se ter comemorado os 100 anos de nascimento de Simone de Beauvoir. Não vi nada na imprensa, descobri hoje no Caderno 2. O interessante e para as mulheres ficarem atentas é a reedição de suas obras que vêm por aí. Cutuquei a minha mulher para não perder essa onda e definir, nem que seja com as contradições de Beauvoir, sua relação com o dito Segundo Sexo.

O que se fala da importância de sua obra é muito pouco. A foto acima auxilia a pensar a questão do feminino, só posso palpitar do lado de cá. Cobro das mulheres com as quais me relaciono diferentes papéis, me esforço para que todos estejam baseados num mesmo modelo, mas a dificuldade da coerência, se é que é necessária, não é exclusiva minha. Viver é isso, o que não se pode é deixar escapar a oportunidade de se avaliar. Escrevo isso bastante atrapalhado por uma dessas mulheres, minha filha de 3 anos que penteia o seu cabelo e cantarola uma musiquinha sobre o seu machucado de ontem. Me esforço para encontrar a concentração para finalizar e sugerir que essa diferença de papéis entre homens e mulheres há de ser um tema que está longe de ser equacionado, onde muitas partes blefarão razão, outras desdenharão com emoção, o segredo talvez seja explorar e confrontar o que mulheres como Beauvoir escreveram e viveram, aí sim, garantia de não correr o risco de passar sem ter passado, a única hipótese descartável.

Espelho VIII

Ser humano é se assustar com a capacidade do cérebro de criar cenários diferentes do dia-a-dia e da moral aparente.

Tolstói, mergulho interno

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Li uma resenha sobre A sonata a Kreutzer no Estadao de domingo passado e fui atrás do livro. Não tinha, e para variar, nas livrarias não se tinha lido o jornal, a resposta é sempre que tiveram que chegar para trabalhar no domingo de manhã. É impressionante como as livrarias ainda não se deram conta que podem vender muito mais livros se derem o mínimo destaque para os livros que estão no jornal, aprendi isso na primeira aula do curso de administração de livrarias que fiz na Finlândia, talvez por aqui seja diferente…

Saí sem o livro, mas consegui o CD da sonata de Bethoven, o meu é uma gravação da Decca com Itzhak Perlman e Vladimir Ashkenazy, lindíssimo, se quiser ouvir um pedacinho da sonata, eis um link (UOL Megastore).

Além desse CD comprei também o livro Padre Sérgio. Foram minhas duas leituras da semana, um pequeno mergulho e tirada de atraso de Tolstói. Recomendo. O final de Padre Sérgio achei que deveria ser mais complexo, mas os dilemas e a relação dele com a vaidade e a tentação o empurram ao paralelo, se não quiser questionar isso, não abra. Mas forte mesmo é A sonata a Kreutzer que chegou na 2a. pelo correio. Quem for ler e tiver alguém com quem divide a vida afetiva, se pegará observando o outro em detalhes e decidindo se utilizará um instrumento de medição analógica ou digital para avaliar a semelhança de seus sentimentos e dúvidas com o do personagem criado por Tolstói. Pode demorar um pouco para se admitir o parentesco, mas ele existe e a leitura é capaz de alinhar as pontas de sua relação ou eliminá-las antes que coisa pior aconteça, inspirada pelos demônios de Tolstói.

Espelho VII

Ser humano é, diante da fragilidade e da desnecessidade da situação, mostrar toda a sua força.

Metralhadora e helicóptero x pé-de-cabra

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Não é por nada não, ou a polícia e as autoridades sabem de coisas que não divulgaram ou exageraram muito na encenação da segurança no retorno dos quadros ao Masp. Só para lembrar, o assalto foi primário, sem sofisticação. Fico imaginando a cara de espanto do assaltante foragido, não deve ter entendido para que tamanho aparado. Espero que tenha restado o mínimo de recursos e jogo de cena para o dia-a-dia.