

Carnaval é para mim sempre uma época de reflexão. Nunca vou me esquecer do estresse quando tinha 13 anos após o meu pai me colocar para dentro do baile e dizer, agora vê se dança. Com muita vergonha iniciei ali minha curta trajetória nos salões de Itapeva, cidade onde morava. Venci a vergonha e confesso que nos 5 anos seguintes me diverti muito, depois já tinha namorada séria e o carnaval foi se transformando em outra coisa na minha vida. Naqueles anos, ainda ingênuos, era momento de beijar, se não existia uma musa única, valia a quantidade na comparação com os amigos à espera da abertura da padaria ou do sol nascer, momentos que não se apagam.
Agora já faço coisa menos divertida no carnaval, mas não menos interessante, uma delas é ir ao cinema, quase sempre de um filme ao outro. Ontem fui assistir Paranoid Park e o 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Recomendo os dois filmes, como também recomendo a leitura dos artigos do Aliás de ontem sobre o corpo e carnaval. José de Souza Martins nos lembra o quão transgressor é o período do carnaval na perspectiva do ano, o quanto esses dias podem representar na vida de uma pessoa, o quanto as pessoas deixam submergir desejos e personalidades que se encontram soterradas dentro de si. Lembra também que a relação com o corpo hoje, na era das tatuagens e piercings pode estar esvaziando o carnaval. O meu carnaval se esvaziou porque, pelo bem ou pelo mal, para mim era sinônimo de sair dançando abraçado, pegar na cintura para dar um pulinho e dar alguns beijos gostosos. Coisa que como passei a poder fazer com a minha mulher a qualquer horário, se esvaziou ao longo do ano.
Já a matéria ao lado sobre o corpo sem gorduras e a possibilidade de se olhar o corpo também como uma peça de design, mostra não só como a magreza migrou das classes pobres para as aristocráticas, como também o quanto a loucura de um corpo perfeito afeta as mulheres brasileiras, sim, os brasileiros consomem 90% dos remédios para emagrecer produzidos no mundo. Algo está errado na dita terra da felicidade. A moça acima, ao lado do cartaz do filme passou pela 42a. cirurgia plástica. Ângela Bismarchi fez uma cirurgia reversível para deixar os olhos mais próximos a uma oriental, tema do desfile de sua escola, mas o fez porque quer entrar para o livro dos recordes, ainda lhe faltam mais 5 cirurgias. O que estamos fazendo com nossos corpos? Qual a relação disso tudo com o filme? Assista, você vai ver que não me refiro ao que a estudante faz ao 4 meses e tanto, mas sim ao que a amiga é obrigada a fazer com seu corpo para que o médico não deixe a estudante numa situação ainda pior.
Consigo ficar sem os beijos, não consigo ficar sem as reflexões e o aprofundamento do que somos como espécie. Quem me vê…