Arquivo: Abril de 2008



Só, bem ou mal acompanhado?

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Toda relação precisa ser revista, de tempos em tempos. Talvez no ideal, ela seria todo ano refeita, se as pessoas que dela participam continuam interessados no outro, seguem em frente, se não, hora de saltar ou agir.

Confesso que fico meio cabreiro com os livros do Flávio Gikovate, muitas coisas me parecem interessantes de seu pensar, a forma às vezes me confunde com auto-ajuda, a apresentação do livro empurra, tem um pedido “quero ser popular” que me incomoda. Mas se um livro é também sedução visual, o mais importante é o conteúdo.

No último, Uma história de amor… Com final feliz,  Gikovate volta a atacar o amor como um sentimento cruel e criador de dependência. Defende a individualidade, a morte do amor romântico e a criação do +amor. Interessante. Fácil? Acredito que não, mas um desafio grande respeitar as individualidades e criar uma relação verdadeira e madura numa sociedade que, ou está assistindo a implosão das relações, ou se mantém fiel a uma estrutura antiga e teórica. Ou seja, muitos não tentam, os que tentam, sofrem as repressões e as inseguranças da nova trilha. É se conhecer e daí escolher entre o fácil hipócrita e o difícil desconhecido.

Espelho XXV

Ser humana é colocar uma vida gerada acima de qualquer vergonha moral.

O senso prático de uma mulher!

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Vale assistir Irina Palm, filme de Sam Garbanski sobre uma cinquentona capaz de se sujeitar a questionar sua moral para tentar salvar a vida do neto.

Odeio afirmações de homem ressaltando a superioridade e o futuro das mulheres, acho-as falsas e no fundo, machistas, aqueles discursos que tem um único objetivo, não alterar a situação atual, continuar vendo na mulher, um ser inferior. Não compartilho, e não compartilhar, não é tão simples quanto possa parecer óbvio. Homens e mulheres estão perdidos, tentando encontrar seu novo papel. O filme se presta muito para entender essa diferença. Nós homens, incluímos as mulheres num universo fantasioso onde apenas algumas não são permitidas. Quanto mais machista for, mais a mãe é a única instância que fica de fora desse universo. Daí, a grande dificuldade nos relacionamentos. Daí a necessidade de, para alguns, várias mulheres e nunca uma só nos vários papéis.

O que acho que existe de fato de diferente entre um homem e uma mulher é a disposição inicial das mulheres de se esforçarem além de seus limites pelo bem de um ser gerado por elas, ou por alguém gerado por elas. Um filme para olhar para as mulheres de sua vida, sejam quais sejam, de uma outra perspectiva, desde que seja um pouco mais forte do que a preferência do chá do marido de Maggie…

Poder, arte e religião sempre caminharam juntos

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Hoje fui a SP Arte no prédio da Bienal em São Paulo. Não fui comprar, como disse para um artista amigo, apenas educar os olhos. A feira é interessante, é óbvio que não tem o cacoete de vanguarda, mas traz um bom panorama da arte brasileira e alguma coisa de países vizinhos, pouco da Europa.

É claro que sou contra o fato do evento acontecer com recursos da lei Rouanet. O ingresso não parece subsidiado, as galerias afirmam que o preço da locação do espaço não é, comprar arte, está longe de ser algo indispensável, apesar de, na minha opinião, absolutamente necessário, mas é um luxo que ainda poucos podem se dar (não vou discutir aqui que muitos dos que podem, lamentavelmente não tem cultura e educação para isso. Nada contra o design, mas entre um bom pintor ou um bom escultor e um designer da BMW ou da Audi, não hesito), ou seja, preferiria ver os recursos dos impostos viabilizando companhias populares em locais populares.

Mas a SP Arte é apenas um gancho para falar da Renascença e da história dos Medici, seu banco e sua ligação com o poder e a religião. O Banco criado no final do século XV durou 99 anos e foi poderoso. Seus proprietários incentivadores da arte. Qual a conexão com a religião? Bem, para ter o poder que tinham, eram o banco oficial dos papas, cobravam seus impostos, dízimos e financiavam festas e funerais da igreja. Financiavam também a nomeação dos bispos. Sim, os bispos “pagavam” para ter suas paróquias, depois isto voltava na arrecadação que tinha uma parte distribuida de volta ao papa. Os banqueiros contavam com vistas grossas em relação a usura, pecado então, e com um resultado incentivado pelo parceiro que no fim tinha a decisão sobre o juízo final, portanto arrecadava muito, livrando “os pecadores do inferno”.

Mesmo assim o banco quebrou. A solução de Lorenzo, o Magnífico foi conseguir emplacar seu filho como papa. O poder mudou de sentido na família. Toda a história do Banco Medici e de seus familiares está muito bem retrato nesse livro da editora Record, escrito por Tim Parks., O Banco Medici. Boa leitura para quem quer entender a confluência entre arte, poder, religião e a vaidade humana.

Abutres e Leo Minosa

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Essa repasso sem ver, mas com muito boas fontes. Eugenio Bucci aborda com muita sabedoria o caso Isabella hoje no Estado de S. Paulo. Vai a um clássico de Billy Wilder para retomar o que já havia chamado de “efeito Leo Minosa” e que se passa novamente no Brasil no caso Isabella. Eu mesmo já fiz dois posts discutindo o assunto, demais…

Para entender o ponto de Bucci é necessário explicar que Leo Minosa é um jovem que fica preso num desmoronamento por umas pedras. Um repórter sem escrúpulos, vivido por Kirk Douglas, descobre que pode dar fim ao seu total desconhecimento e mediocridade quanto mais o garoto lá ficar e sofrer. Vários fatores, de misticismos, afinal é o monte sagrado dos 7 abutres, às vantagens da exposição percebidas pelo xerife e logicamente pelo repórter, definem o destino do jovem. Pouco conta que não é tão difícil assim resolver o problema. O circo sobrepassa o drama pessoal.

Procurei na 2001 e não há esse filme disponível (A montanha dos sete abutres, 1951, direção de Billy Wilder), mas fica a sugestão e a indicação da reflexão sobre o poder da mídia e de cada um de nós de enxergar algo positivo na desgraça alheia. O que será que quem vai até o tal edifícil London ou a casa dos pais da mulher tem de diferente de você que está lendo este post?

Psicanálise e família

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Há alguns dias acabei a leitura do livro de Janet Malcolm. Tenho me interessado bastante por psicanálise, estudado, até talvez como opção profissional. O livro é da década de 80, o mundo mudou rápido desde lá. A jornalista americana passou um tempo em conversas no consultório com um psicanalista americano, um freudiano tradicional, discutindo questões importantes da relação analista-analisado, questões que povoam a imaginação dos que temem um divã.

O título, Psicanálise, a profissão impossível é retirada de Freud, que colocou a profissão na impossibilidade juntamente com a educação e o governar. Para quem deita ou pretende deitar no divã, a leitura é mais do que recomendada. Estou discutindo alguns aspectos de lá com minha analista, transpondo Nova York da década de 1980 para São Paulo de 2008. Sou entusiasta da psicanálise e descrente das soluções rápidas, mas não tenho dúvidas de que é melhor olhar e discutir suas questões internas, mesmo que em terapias alternativas do que continuar a não ouvir suas incertezas.

A Veja de hoje trás um artigo com o psicanalista francês Charles Melman onde o final da família e a estranheza deste em perceber que o interesse maior pela análise é dos jovens são o destaque. Os jovens, devido ao fim da família, não sabem mais o que desejar. Pesquisa da Folha mostra que é isso mesmo, que a família não está só chegando ao seu final numa estrutura de papéis, está sim chegando ao final pela opção das pessoas. Entre os brasileiros maiores de 16 anos que não tem filhos, estonteantes 59% afirmam não querer ter. 15% dos que tiveram filhos, assumem que preferiam não ter tido. Ou seja, ou algo muda, ou é o início lento e demorado de problemas para a espécie.

As pessoas não estão conseguindo olhar para o futuro com esperança, estão preferindo um prazer rápido e com isso, juntando todos os fatos, não sabendo de onde vem esse prazer. Fico na torcida para que meus pais não tenham feito parte da amostra da pesquisa e respondido que se arrependeram, isso iria provocar um desvio longo e sério no meu processo analítico…

Espelho XXIV

Ser humano é querer quem se ama só para si, esquecendo o risco do excesso e da necessidade de explorar.

Rodrigues por Antunes!

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Minha idéia era assistir as três montagens de Senhora dos afogados, peça de Nelson Rodrigues, duas em cartaz no momento e a terceira, no próximo ano, com o Zé Celso. O tempo anda escasso e não vou conseguir assistir a montagem da Companhia Firma, no Centro Cultural São Paulo.

Esperava mais impacto da montagem do Antunes. Tinha lido que foram 8 meses de ensaio, isso já é algo bem diferente do que se vê por aí. Existem extremos onde se vai ao palco, num improviso, pouco ensaio, cenário automotivo e pouca dedicação. Sinal de respeito.

Qualquer contato com a obra de Nelson Rodrigues é um contato com nosso interior. Os mais resistentes começam imaginando, de onde surgiu tanta maluquice? Depois de alguns minutos é comum ter aquela sensação de um estranho conhecido. Aqui uma filha faz de tudo para ter o pai apenas para si. Tragédia pouca é sempre bobagem. As máscaras do grupo fazem pensar, mas pelo lido, imaginava minutos mais longos de eco da peça dentro de mim.

Para cada sabor, um paladar

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O novo filme do chinês Wong Kar-Wai não tem encontrado o mesmo eco na crítica de seus anteriores. Mas deixo aqui minha extrema recomendação para assisti-lo. Se puder, é claro que não pode, esqueça o título, Beijo roubado atrapalha, coloca o espectador numa posição que poderia não ser tão óbvia.

Além dos questionamentos possíveis em relação aos relacionamentos humanos, o filme é uma experiência estética das mais interessantes. Se você assisti-lo sem legendas e sem som, talvez apenas com uma expansão da trilha sonora, pode imaginar que está numa exposição de um artista que domina amplamente as cores.

Se Norah Jones em sua estréia como atriz não excita, também não atrapalha, combina com a linguagem do filme, afinal o café não é em Manhattan. Duas das musas mais interessantes do cinema atual: Rachel Weisz e Natalie Portman.

No mínimo a cena final se coloca como o novo padrão do cinema para o que se propõe. Vá ver!

O que é pior? Não desgrudar do caso Isabella ou comprar no leilão do Abadia?

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Como falei sobre a atração das pessoas sobre o acompanhamento do assassinato da menina Isabella, achei que minha também incredulidade no leilão do Abadia tinha alguma relação. Não são as mesmas emoções, mas que são parentes, são. Não é possível que as pessoas não se importem com a fonte do que usam. Comprar uma cueca usada do Abadia preenche que necessidade de existir? Que tipo de orgulho dá acesso a um relógio de grife, agora muito mais barato, mesmo se sabendo a origem deste desconto? Será que isso sacia a fome de celebridade das pessoas? Triste fim de quem precisa disto…

Machado de Assis em viagem pelo Piauí…

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João Moreira Salles adaptou A cartomante e Marcos Caetano, Um homem célebre, dois contos de Machado de Assis para novelas de rádio que podem ser baixadas do site da revista Piauí.

Vale a pena! O ideal é ouvir as novelas, curtir um pouco do clima de uma época que a maioria não viveu, mas mesmo assim conhece, e depois mergulhar nos textos originais. De garantido só a reflexão sobre futuro, amizade, desejo, traição e o enorme embate entre talento e vocação. Clique na imagem do gramofone acima e baixe para o seu computador. Cada conto está dividido em dois arquivos, e os quatro totalizam 25 megas. Hoje à noite, pare para pensar, não ligue na Globo, baixe na Piauí e escute no computador ou ipod.

Espelho XXIII

Ser humano é assistir a desgraça de outro pendendo entre as acusações moralistas e estranhezas internas, passando por uma esperança de justiça.

Mal: atração ou rejeição?

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As revistas semanais e a imprensa em geral deste final de semana são um bom ponto de reflexão, um mergulho no nosso lado menos nobre. Quem já não se pegou revirando os detalhes da família de Isabella, a menina de 5 anos, morta na semana passada? Por que faço isto? Por que você faz isto?

Que papel caberia a imprensa? Aprofundar a questão ou aproveitar e apelar ao sentimentalismo e vender mais revistas? Não acompanhei, li apenas a Veja, mas reproduzo aqui as capas e fico perguntando se não está faltando alguém conduzir o leitor de volta desse mergulho sórdido? O quanto essa questão será aprofundada e as pessoas liberadas desse contato canhestro, dessa indefinição de atração ou rejeição com a desgraça, principalmente se for a alheia? Espero que caso resolvido, apareçam perfis interessantes e didáticos dos envolvidos, para isso, será necessário estudar os orkuts deles. Estranho mundo digital. Não, apenas, estranho mundo…

Sagrado ou profano?

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Parece que em Maastricht, a cidade mais antiga da Holanda, está acontecendo uma série de transformaçõees das antigas igrejas, a mais interessante e significativa para mim parece ser a que o escritório de arquitetura Merkx + Girod fez com a antiga igreja Dominicana, hoje a livraria Selexyz Dominicanen.

Cada um reverencia quem quer, confesso que entre as poucas que o faço, estão os livros. Para mim, a transformação é perfeita, junta um espaço que ainda diz muito para as pessoas, nem que sejam memórias, meu caso, mas dá a ele o conteúdo  perfeito. Ainda não fui, pretendo encaixar numa próxima viagem, uma visitinha, espero que o estoque de livros em inglês seja interessante. Quem já visitou e gostou da Ateneu em Buenos Aires, deve gostar também dessa na Holanda.

Espelho XXII

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Ser humano é lutar por ganhar para poder deixar, mas esquecer de aprender o que realmente se devia deixar.

Correio do tempo - um pouco de Benedetti

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A Alfaguara lançou a pouco o livro de contos do uruguaio Mario Benedetti. Ainda não conheço muito da obra dele, mas está na minha lista de escritores a serem observados da cabeceira. Tem uma escrita surpreendente, direta por um lado, simbólica sem ser rebuscada por outro. O começo do livro não me empolgou, mas de repente, comecei a reconhecer o que me atrai no seu estilo, comecei a grifar mais o texto.

O torturado e oficialmente morto que aparece para visitar o seu carrasco e tenta ter com ele um diálogo, quase que para tirar um peso da consciência, é inusitado, como também o é a viúva que diante do assalto resolve tratar um pouco de sua solidão. O homem que olha no espelho e pensa: “o espelho é um farsante, um traidor, um pilantra. Esse que aí está, olhando-me com sarcasmo, pálido de tanta insônia, é um frágil arremedo de mim mesmo, um fác-símile sem sangue. “, tem com este uma relação diferente a ponto de preservar o filho deste: “Não o trago para o espelho para que não se gaste, para que não comece, tão criança, a envelhecer, para que continue a olhar com os olhos…”

O escritor que resolve parar de escrever solta uma frase antológica, “deixei de ser um autor medíocre para ser um leitor inteligente”. O amante que parte em busca da mulher e começa a se relacionar com a irmã faz uma análise da relação das pessoas com o dinheiro: “nunca aceitei nenhum dinheiro, pois mesmo nessa idade achava que a gorjeta entre pobres era não apenas humilhante, como sempre é, mas também ridícula. Sua melhor gorjeta era o afeto”. Ou o homem octagenário que escreve para uma mulher que lhe deu um momento único:”cheguei a conclusão que devo a você o momento mais feliz e memorável desse percurso. Talvez você se lembre (tomara), mas por via das dúvidas vou transcrever o que ainda é capaz de ditar minha memória, em cujas repentinas lacunas se nota especialmente (mais do que no uso da bengala ou no moderado alerta prostático) minha respeitável idade. Por sorte, você se salvou (pelo menos até agora) dos caprichos do meu esquecimento”. Pergunta na carta se ela fez aquilo aos 14 anos porque sabia que iria se mudar. Existe modo mais elegante de narrar que o humano carrega por décadas esse tipo de emoção?

Por fim, resta um testamento menos monetizado do que o habitual. Duas mensagens fortes o suficientes, capazes de fazer alguém lembrar delas quando se pensar em herança: os óculos para que o herdeiro possa ver o mundo como o morto via, às vezes injusto, desarticulado, confuso, às vezes, generoso, harmonioso, estimulante. E a máquina fotográfica para a ex-mulher, como reforço da tentativa de fixar certos instantes de bem-aventurança.

 Acredito que esses exemplos servem de estímulo para uma leitura cheia de significado.