
A Alfaguara lançou a pouco o livro de contos do uruguaio Mario Benedetti. Ainda não conheço muito da obra dele, mas está na minha lista de escritores a serem observados da cabeceira. Tem uma escrita surpreendente, direta por um lado, simbólica sem ser rebuscada por outro. O começo do livro não me empolgou, mas de repente, comecei a reconhecer o que me atrai no seu estilo, comecei a grifar mais o texto.
O torturado e oficialmente morto que aparece para visitar o seu carrasco e tenta ter com ele um diálogo, quase que para tirar um peso da consciência, é inusitado, como também o é a viúva que diante do assalto resolve tratar um pouco de sua solidão. O homem que olha no espelho e pensa: “o espelho é um farsante, um traidor, um pilantra. Esse que aí está, olhando-me com sarcasmo, pálido de tanta insônia, é um frágil arremedo de mim mesmo, um fác-símile sem sangue. “, tem com este uma relação diferente a ponto de preservar o filho deste: “Não o trago para o espelho para que não se gaste, para que não comece, tão criança, a envelhecer, para que continue a olhar com os olhos…”
O escritor que resolve parar de escrever solta uma frase antológica, “deixei de ser um autor medíocre para ser um leitor inteligente”. O amante que parte em busca da mulher e começa a se relacionar com a irmã faz uma análise da relação das pessoas com o dinheiro: “nunca aceitei nenhum dinheiro, pois mesmo nessa idade achava que a gorjeta entre pobres era não apenas humilhante, como sempre é, mas também ridícula. Sua melhor gorjeta era o afeto”. Ou o homem octagenário que escreve para uma mulher que lhe deu um momento único:”cheguei a conclusão que devo a você o momento mais feliz e memorável desse percurso. Talvez você se lembre (tomara), mas por via das dúvidas vou transcrever o que ainda é capaz de ditar minha memória, em cujas repentinas lacunas se nota especialmente (mais do que no uso da bengala ou no moderado alerta prostático) minha respeitável idade. Por sorte, você se salvou (pelo menos até agora) dos caprichos do meu esquecimento”. Pergunta na carta se ela fez aquilo aos 14 anos porque sabia que iria se mudar. Existe modo mais elegante de narrar que o humano carrega por décadas esse tipo de emoção?
Por fim, resta um testamento menos monetizado do que o habitual. Duas mensagens fortes o suficientes, capazes de fazer alguém lembrar delas quando se pensar em herança: os óculos para que o herdeiro possa ver o mundo como o morto via, às vezes injusto, desarticulado, confuso, às vezes, generoso, harmonioso, estimulante. E a máquina fotográfica para a ex-mulher, como reforço da tentativa de fixar certos instantes de bem-aventurança.
Acredito que esses exemplos servem de estímulo para uma leitura cheia de significado.