Arquivo: Maio de 2008



Arte serve para quê? Acostamento…

acostamento.jpg

Assisti na última terça no Campo Lacaniano uma palestra do pintor Sérgio Fingermann, gostei bastante. Não conhecia muito do trabalho dele, confesso que gostei mais das palavras do que já vi do trabalho, mas essas foram profundas.

Se não falasse nada sobre a ética de fazer o que se acredita, e falou muito. Se não falasse nada sobre o falar do trabalho de outro ao invés do próprio, e falou muito, já teria valido a pena a noite apenas pela reprodução, sem fonte identificada, de que a arte é como um acostamento. Se você andar apenas pela estrada, vai ver muita paisagem e não perceber nada. Se quiser curtir a paisagem, vai ter que parar no acostamento e aí sim, enxergar algo, abandonar a seqüência ininterrupta e impossível de perceber do dia-a-dia. A arte serve para isso, um break, um refresco, uma possibilidade de pegar detalhes que se não dedicados, nunca serão descobertos.

Dá para viver sem arte? Sim, até acho que é possível, mas é isso, chegar e ser incapaz de descrever o que se passou. Uma vida sem paisagem, focada apenas no na ultrapassagem, no evitar acidentes.

Abaixo um trabalho de Sérgio, alguém que se cruzar a sua vida, dê seta, estacione e ouça.

sergiofingermann.jpg

O que um livro faz com sua vida?

livros-leitura.JPG

Começaram a ser divulgados hoje os primeiros resultados da pesquisa Retratos da Leitura. Não dá para ser muito otimista. O estudante brasileiro vê pouco o seu pai lendo, 43% deles nunca vêem. Você tem filhos? Que tipo de exemplo dá? Quantos livros anda lendo? Ou prefere usar seu tempo frente às novelas, séries e programas imbecilizantes? 80% dos estudantes passam o tempo livre assistindo TV.

O pior é ler que 60% diz não conhecer ninguém que melhorou de vida porque leu muito. Uma pergunta e comparação estúpida, uma resposta pior ainda. Se para o ministério da Educação ler muito é melhorar de vida, estamos condenados a formar uma sociedade utilitarista. Ler não é melhorar de vida, ler é viver, ler é compreender melhor a vida, ter capacidade de processamento e expressão. Começar perguntando para um jovem se ele “vai se dar bem na vida” porque tem referências de pessoas que leram muito é não ter entendido para que serve a leitura. Essa pergunta, salvo a primeira divulgação tenha sido errada, é catastrófica.

É a cultura da preguiça dando as regras. Ler dá trabalho sim, exige esforço, concentração, mas dá autonomia, numa razão inversa ao que a televisão toma. Abandone esse blog agora e abra um livro!

Mais duas baixas, um anarquista e um carpinteiro, da ética

robertofreire.jpgjeffersonperes.jpg

Nesse feriado se foram 2 brasileiros interessantes. O terapeura e escritor Roberto Freire. Lembro pouco do que li dele, foi há mais de 20 anos, algo deve ter sobrado de Sem tesão não há solução e Ame e dê vexame. Contribuiu com programas de TV e até levou seu livro para o cinema.

Já o senador Jefferson Peres ousou desafiar alguns dos piores costumes políticos do país. No mínimo, quando “acuado” por Renan Calheiros, não se intimidou, pediu para ser investigado. Parecia fazer parte daqueles poucos homens que se aproximam do poder sem liberar o sentimento de ambição máxima, sem ter a postura de que o tempo está passando e o patrimônio precisa ser construído ou aumentado. O sobrenome do meio era Carpinteiro, um carpinteiro da ética, algo antigo, customizado e manual, maciço, muito diferentes dos modulares de hoje em dia, daqueles onde a aparência tenta enganar. O duro é ter que ouvir muitos desses enganadores vangloriando a postura ética do que se foi. Se valorizassem mesmo, tentariam fazer igual, no Senado, ou mais amplo, no Congresso e nos poderes legislativos, executivos e até judiciários do país, sem esquecer os comandantes da iniciativa privada, o discurso anda bem descolado da prática, tenta seguir o que imaginam que pega bem, o que um dia ouviram dizer que era o correto, algo que sabem ser certo, mas que insistem em imaginar ingênuo, ou válido apenas para os outros…

1968, o ano que não terminou

zuenir.jpg

A caixa é um charme, fetiche. Não tinha lido 1968, o ano que terminou, comprei, emprestei e nunca mais vi de volta. Comprei agora de novo e li rápido. Tenho uma queda por esses relatos, mais do que isso, uma questão para resolver na terapia: sinto um pouco de inveja de quem lutou por uma causa. Por mais que hoje, amadurecido ou endireitado, não cheguei no PFL/DEM, apenas estou desiludido com os partidos e os homens públicos, eu veja que muita besteira se fez, acho que faz parte do papel do jovem. Minha geração fez pouco, mais do que se faz hoje, mas estive nas ruas, brigando pelas diretas, fazendo boca-de-urna pelo PMDB, depois PT e depois PSDB, mas lá se vão uns 20 anos…

O livro do Zuenir de 1988 é muitíssimo bem escrito e mostra de forma gostosa o porque as pessoas entraram naquilo e o que foi o ano de 1968. Os principais acontecimentos estão lá, tudo começando numa festa de reveillon. A mudança de costumes está mais no segundo livro, O que fizemos de nós, esse ainda estou lendo, mas a imprensa escrita trouxe muito de 1968 nas últimas semanas. Dos otimistas aos pessimistas, a rebeldia em vários países, brigando contra controles diferentes, mudou menos do que se queria. No Brasil, não se encurtou, nem arrefeceu a ditadura, desembocamos num hiato político, a mercê de velhos costumes clientelistas, impregnados na esquerda e na direita, a democracia serviu para revelar isso.

Para quem tinha 3 anos naquele ano ou anos insuficientes para ter participado, a leitura serve como base para entender alguns dos caminhos desse país, serve também para entender um pouco da espécie, ver como no fundo, o homem começou a olhar ainda mais para si.

Soube sair da sombra!

zelia.jpg

Acabei não falando sobre a morte de Zélia Gatai. Repensei e resolvi resolver a injustiça. Li Anarquistas graças a deus e um outro livro, que agora não me lembro e que está na minha biblioteca da casa de campo.

Coloquei a imagem acima para mostrar que duas pessoas conseguem co-habitar o mesmo segmento de uma maneira decente e construtiva. Começou tarde, mas tinha vontade e talento, tirou o atraso. Conseguiu constituir personalidade mesmo estando ao lado de quem já foi o maior vendedor de livros do Brasil, ultrapassado por Paulo Coelho. Não deve ter sido fácil. Não sei, mas Jorge deve ter ajudado bastante, a ser checado, mas eis um exemplo de casal que soube repartir e somar.

Só sou contra ela ter assumido a cadeira que foi dele na Academia Brasileira de Letras, poderia ter sido outra, a homenagem teria mais independência.

Shakespeare e nossas assombrações

shakespeare.jpg

Eis uma boa série da editora Globo, por enquanto saíram, Shakespeare, Borges e Dante. Deve vir mais por aí. Li este, do bardo… Apenas para dizer o quanto acho pobre esse tipo de chavão, bardo para cá, bruxo para lá, tentativas de demonstrar intimidade, alguns até devem conhecer as obras, mas quem conhece mesmo, não deveria utilizar, corre o risco de se misturar com aventureiros, categoria na qual me encaixo, assumidamente.

De Shakespeare conheço mais as peças e umas poucas aulas de voz onde descobri que declamar poesias não é tão simples quanto parece. Bárbara Heliodora é conhecida e reconhecida como especialista no autor. O livrinho tem bastante informação, consegue dar uma visão geral da obra, se você fizer anotações, nunca mais vai confundir os personagens das principais obras.

Serve como introdução, mas serve principalmente como guia, para entender o contexto e até mesmo programar as próximas idas ao teatro. Por falar do que vai dentro de nós, Shakespeare sobrevive.

A vida na estante

estante.jpg

Ruy Castro na Folha de sábado fala sobre as livrarias ou bibliotecas: “O único risco que se corre nelas é abrir um livro ao acaso e deparar com uma informação ou idéia que nos transforma a vida para sempre, para o bem ou para o mal.”

Faz a apologia a ser leitor quando crescesse, faz uma declaração de amor aos livros. Vale ler, não apenas a coluna do Ruy, mas alguns dos livros da sua biblioteca. Se você não tem uma, o que está esperando?

Fez sua parte…

rm.jpgrm1.jpgrm2.jpg

Morreu ontem um empreendedor dos mais interessantes, Robert Mondavi. Além de mudado de fato o mundo dos vinhos, experimentou um adversário mais forte do que a filoxera, a briga da família e a dificuldade de fazer sua empresa encarar as mudanças impostas pelo mercado de capitais. No fim, Mondavi já não tinha mais a empresa, mas deixou um legado a quem os vinhos chamados do Novo Mundo, devem muito.

Para ir com o filho e depois, continuar próximo

speed-racer.jpg

Ontem fui com meu filho de 11 anos assistir a Speed Racer. Tinha uma lembrança positiva do desenho que permeou minha infância, não lembrava detalhes, hoje correndo pela manhã, lembrei todinha a música que me foi ensinada para decorar as preposições (a, ante, até, após….). Meu filho nunca tinha ouvido falar até ser atingido pela intensa campanha do filme.

Nessas horas me policio para não ser um adulto educador chato. Mas a maturidade de 42 anos tolhe um pouco da criança que ainda existe dentro de mim, vá lá, talvez essa criança seja um pouco mais singela e emocional do que tecnológica. O filme tem muita cor, uma mistura de realidade e ficção, como li numa crítica hoje, reflexo do mundo em que vivemos. Meu filho gostou, eu saí de lá convencido que não adianta lutar contra o poder da indústria “cultural” americana. Eles tem cores, música, efeitos especiais a seu favor, eu, além de carregar o ônus de ser pai e ter que educar tenho menos efeitos especiais a apresentar. Também me convenci que o negócio é deixar que o impacto dos valores de uma cultura muito distante do que eu acho ideal aconteça agora e depois eu tento dar uma dose de realidade. Ou seja, mais uma vez me vi no papel de “separar” o meu filho de algo que lhe parece natural. Será que conseguirei? Tenho dois adversários muito poderosos, nem sei quem é mais, a mãe, ou a indústria de Hollywood…

Identidade? Gênero?

 aprendi-com-meu-pai.jpg

A coluna do Contardo Calligaris na Ilustrada de ontem apresentava o livro do John Hemingway, Strange tribe, para discutir como é complexo responder as expectativas dos protótipos de papéis estabalecidos. Sei menos dos Hemingways do que gostaria. Li um ou dois livros de Ernest, visitei a casa onde nasceu em Chicago, porque estava no meu caminho de visita às casas de Frank Loyd Wright, tive fantasias com suas netas na adolescência, Mariel e Margot, se não me engano. Descobri um pouco mais da vida de Gregory, seu filho e pai de John,  quando minha mulher criou a capa do livro de um amigo, Aprendi com meu pai,  e escolheu uma foto de Ernst com Greg, a idéia era mostrar uma relação singela entre pai e filho, a foto passava aquilo, mas aí o autor pesquisou um pouco mais e descobriu a vida “errante” de Greg, as prisões, a mania de se vestir de mulher e a transformação de sexo.

Manteve-se a foto na capa, dei a idéia de uma explicação de que o papel de pai é assim mesmo, difícil, complexo, e pode ter momentos “ideais”. Mas aquele menino sorridente da capa trazia dentro de si muitas dúvidas, inclusive a de gênero não é um caso isolado. Contardo faz uma comparação distante com o que aconteceu a Ronaldo e a solidariedade de uma faixa numa favela, solidariedade não ao homem e sim ao papel imaginado. A vida é isso, uma tentativa de aproximar os papéis imaginados, por nós e pelos outros, da existência concreta e difícil do dia-a-dia. Ter um pai como o de John deve ter propiciado a oportunidade de refletir bastante sobre isso.

Espelho XXIX

Ser humano é imaginar que se tem controle sobre seus atos, e, ao ver o tempo passar, descobrir que é necessário um pouco de sorte e muito de determinação para que as coisas não fujam completamente do controle.

O mal, o fantástico, o escuro e o espelho

fritzl1.jpgfritzl2.jpgespelho.jpg

Onde está o mal nas imagens acima?

No jovem garoto da esquerda, 16 anos com toda uma vida pela frente em 1951, logo após o final da 2a. Guerra e das atrocidades nazistas ?(aliás, esse garoto nasceu em 1935). No senhor de 1973 que chocou o mundo ao fazer o que fez com a própria filha? Ou no espelho, capaz de refletir o meu, o seu, o rosto de todo mundo? O que fez aquele jovem virar esse senhor?

O que faz o Fantástico apelar tanto tempo entrevistando a mãe da Isabella? O que sente o Zeca Camargo ao ficar narrando as chamadas? Confesso que senti um pouco de nojo desse programa que não costumo assistir. O fiz para desafiar os meus limites, para ver até onde vai a imagem que qualquer espelho pode refletir. Sequer me emocionei, só o meu desprezo para quem optar por ganhar audiência cutucando com vara curta a maldade das pessoas.

Na Ilustrada de hoje o jornalista João Pereira Coutinho constata que nunca os leitores tinham batido tanto como o fizeram quando escreveu sobre Fritzl e aproximou o mal do cotidiano. É importante refletir, lá Coutinho mostra que o mal não está ligado a ignorância, como já se quis acreditar. Argumenta que sequer a Cultura é garantia de ações avançadas. Para ele os seres humanos são capazes de tudo, para o bem e para o mal, tudo com pleno conhecimento das ações, o que de fato deve ser temido, nunca as palavras. A conclusão do artigo, a qual endosso, é que não há sistema ou terapia capaz de erradicar nossa frágil e complexa condição…

Se quiser dar uma olhada no blog do João, clique abaixo:

jpcoutinho.jpg

4o. livro da Virgília já está nas livrarias! Miguel Abuhab - Um Homem que não pára!

frente-maior.jpg

Esse é para quem gosta de boas histórias de negócios, sim elas existem, concordo que são poucas.

A trajetória de Miguel Abuhab mostra como a determinação supera muitas outras qualidades na consecução de objetivos. De família bastante humilde, onde as mulheres foram sacrificadas em mais ajudar na casa do que poder estudar, os Abuhabs bem formaram os seus 4 filhos homens, 2 deles estudaram no ITA. Miguel foi um deles. Não embarcou nos empregos da moda, não ficou trabalhando em São Paulo, mudou-se para Joinville e foi trabalhar na Consul, ainda uma pequena empresa.

Lá virou o gênio vindo do ITA, ganhou a confiança do dono, informatizou os processos, vencendo grandes resistências internas. A empresa foi vendida e os americanos não o promoveram, não teve dúvidas, pediu demissão. No dia seguinte começou, ainda sem ter certeza do que estava montando, a criar a Datasul. De empresa de consultoria cresceu e se transformou num dos principais players de informática do Brasil. Foi quem mais sofreu o ataque dos gigantes multinacionais que aqui chegaram. De repente o continuo crescimento quase se transformou numa profunda quebra.

Soube buscar fundos de investimento, e mesmo com o dinheiro novo percebeu que a situação não estava resolvida. Ousou, mudou o modelo de negócios e peitou tradições e interpretações trabalhistas. Venceu todas, a Datasul voltou a crescer e em 2006 abriu seu capital. Miguel se acomodou? Não, continua ativa na Datasul, acelerando mais do que nunca na Neogrid e querendo mostrar ao mundo o que enxerga de tão fascinante na Teoria das Restrições. Se você está em busca de uma história de empreendedor, de ver na prática altos e baixos e reviravoltas, eis uma bela leitura.

Espelho XXVIII

Ser humano é procurar nos museus um pouco da sensibilidade artística que falta nas nossas vidas mais burocráticas. É sonhar com a ruptura de limites e com a imortalidade estampada nas paredes.

Bienal 2008 de lá

whitney.jpgwhitney2.jpg

Este é o último post sobre museus, fechei meu ciclo de NY desta vez, um museu por dia foi suficiente. Queria ainda ter ido ao Jewish uma exposição de Pollock, de Kooning e outros, e ao voltar ao Brasil e folhar a revista Wish, ao New Museum no Soho.

Fiquei meio frustrado com a Bienal do 2008 do Whitney, um museu de arte americana. Sexta-feira foi um péssimo dia, choveu forte de manhã até a ida para o aeroporto, estava frio e um museu poderia não só esquentar, mas também inspirar. Não aconteceu, saí com aquela sensação de desafiar os critérios do curador, pouco espaço para pintura, muito para instalações.

Outra coisa inadmissível, na minha opinião, eram as advertências de que os polaroids do fotógrafo Mapplethorpe poderiam ser ofensivos a alguns. Imaginei que seriam dos mais fortes, mas nada além de algumas genitálias, e as expressões homossexuais do universo dele. Esses americanos… Na volta li a crônica do Ruy Castro, Psicanálise de galinheiro, que começa com uma observação de Nelson Rodrigues: se conhecessemos a vida sexual um do outro, ninguém cumprimentaria ninguém. E aí esses americanos fingindo estar preocupados com as polaroids do Mapplethorpe…

Ousadia e irreverência no Metropolitan

courbet1.jpgcourbet3.jpgcourbet2.jpg

O Metropolitan é um daqueles museus interessantes mas que acabam exigindo demais de seus visitantes. Ou você dedica alguns dias ao museu, ou escolhe o que ver, é muito grande. Optei pela exposição do francês Gustave Courbet (1819-1877), classificado como um dos mestres do realismo francês. Minha afinidade com a pintura se inicia nos que seguiram a Courbet, não tenho muita paciência para o que de forma ignorante, classifico como classicismo, mas se você não for radical, consegue me entender.

O trabalho de Courbet é bastante ideológico, tomou posição em questões políticas, desafio os critérios das artes. Não selecionado para uma exposição, armou um grande evento paralelo. Falastrão, sabia que era necessário chocar e desafiar as pessoas. Suas pinturas ficaram escondidas por um tempo. Além de colocar algumas cenas de lesbianismo explícito na tela, a Origem do mundo de 1866 tem sua ousadia. Há poucos anos vi numa Bienal em SP o trabalho de um chinês que também retratava vaginas e se mostrava de vanguarda. Mesmo sem Mao ou Revolução Cultural, mostrar isso em 1866 é mais ousado, mas dizer: “Eu tenho 50 anos de idade e sempre vivi em liberdade; deixem-me acabar a vida assim; quando eu estiver morto deixem que falem: ‘Ele não pertenceu a nenhuma escola, a nenhuma igreja, a nenhuma instituição, a nenhuma academia, muito menos a nenhuma regime, a não ser, ao regime da liberdade’.” Ainda válido, pior, necessário numa sociedade cada vez menos livre de rótulos e dependente de se imaginar vista.

Acupuntura no museu

cai2.jpgcai3.jpgcai1.jpg

A conexão do hotel em NY estava similar a da década passada, por isso, atrasei os posts, mas vou fazer a cobertura dos museus desse tour museológico que fiz nesta semana.

Quando chequei a programação e vi a foto dos carros espetados no Guggenheim decidi não ir. Dois dias depois li um artigo no Caderno 2 que me fez mudar de idéia. Ainda bem que a jornalista foi convincente, a primeira vista o trabalho de Cai Guo-Qiang não entusiasmo, pode parecer um uso visual e apelativo de imagens caricaturizadas. Mas quando mergulha na explicação, as coisas começam a fazer sentido. Cai brinca com as flechas e com uma antiga fábula chinesa sobre estratégias de invasão e roubo dos recursos do adversário… Precisa dizer mais? As flechas se conectam com a acupuntura outra tradição chinesa que invadiu o ocidente.

Mas o que mais gostei do trabalho dele foi a utilização da pólvora, descoberta pelos chineses, Cai a introduz na arte. Além da plasticidade das explosões, os quadros sobre papel resultantes são dos mais estéticos. Valeu ter perdido o preconceito, aliás, quase sempre é assim.

Um museu para quem gosta de livros!

morgan2.jpgmorgan3.jpgmorgan-1.jpgmorganlibrary.jpg

Este eu não conhecia e passo a recomendar a todos que estejam em NY e gostem de livros. Chama-se Morgan Library, fica na Madison com a 36. É a antiga residência do banqueiro J. P. Morgan e sua biblioteca. Uma parte do conjunto foi vendida e depois recomprada pela fundação e entregue ao arquiteto Renzo Piano, prêmio Pritzker, para a adaptação inaugurada em 2006.

No momento, tem uma exposição de desenhos de Philip Guston, bíblias de Gutemberg e as  visitas ao escritório e a biblioteca do banqueiro, colecionador de bíblias. Suponho que Morgan devia ter certeza de que essa coleção deveria compensar os incômodos que a atividade profissional sugeria junto ao Senhor, mesmo com a tradição anglicana da igreja .

Na visita é impossível não se questionar até onde leva a ambição de um homem. É necessário também refletir sobre quantos tanto tiveram e bem menos fizeram. Um local agradável, tipo o Frick Collection, mas menor e que teve no projeto de Renzo Piano um complemente dos mais interessantes. Vale checar a programação, por dois dias perdi um debate com Ian McEwan.