Maio de 2008

O prêmio Nobel de literatura de 2002, o húngaro Imre Kertész teve seu livro de não-ficção lançado este ano pela Planeta, Eu, um outro. Leitura prolífica em frases fortes. O autor trabalhou como tradutor e teve sua existência completamente impactada pela presença num campo de concentração. Por mais que isso tenha sido marcante, encontra força e humor para dizer que, talvez, pior do que isto seja a sensação de medo diante da necessidade de criar um texto.
A escrita não é uniforme, mas é densa e profunda. Utiliza-se de Rimbaud para brincar com o estranho dentro de nós, mas é brilhante quando reconhece que no máximo conseguimos ser co-autores de nossas biografias, quem se acha mais no controle, cuidado, é melhor não chegar perto deste livro, ou não, já está na hora de rever suas crenças e valores.
Maio de 2008
Ser humano é utilizar da arte para inserir um pouco de reflexão inconsciente no dia-a-dia. Mesmo o mais bruto dos homens é capaz de se render, é verdade que nem para todos os trabalhos…
Maio de 2008

A discussão se você sonha em preto e branco ou em cores já deve ter feito parte de sua vida, mas agora enxergar em preto e branco é uma situação inusitada. A exposição do artista escandinavo Olafur Eliasson faz essa brincadeira com as pessoas, quem andar pelo segundo andar do Moma vai enxergar tudo em preto e branco, devido a uma instalação de luzes amarelas que esse artista colocou. É interessante notar as reações das pessoas, ainda bem que todos sabem se tratar apenas de situação passageira, imagine sentir isso de verdade? Bem, mais sobre essa provocação, está por vir no novo filme do Fernando Meirelles, Ensaio sobre a cegueira, pelo menos esse é o nome do livro do Saramago. A estréia está prometido para Setembro.
Voltando ao Moma, além das “brincadeiras” de Eliasson é possível acompanhar uns recortes do acervo e outra interessante exposição: Design and the elastic mind. É quase a intersecção entre ciência, design e arte. Vem muita coisa por aí, não apenas em nanotecnologia, como também numa interpretação visual dos novos caminhos da ciência. Confesso que esperava bem mais da Color Chart, a terceira grande exposição. Mas é sempre estimulante ver um trabalho de Mark Rothko de perto. Essa semana será basicamente dedicadas à museus de NY.
Maio de 2008

Um conto do amor é a estréia do psicanalista e colunista da Folha na ficção. Uma das poucas coisas que faço religiosamente é ler o Contardo toda quinta, isso aumenta a responsabilidade. Quando vi a ficção dele, fui logo comprar. Antes de acabar a leitura, o livro é pequeno, já tinha acompanhado a discussão, via Folha entre o Adriano Scharwtz e o Gerald Thomas, um meio que criticando, outro, tomando as dores e apaixonadamente defendendo.
Se prefere ter uma visão mais isenta, pare de ler este post agora. Se não, vai correr o risco de ler o livro influenciado, como eu li. Scharwtz (estou escrevendo o nome de cabeça) comparou o livro ao Código da Vinci. Ao ler, vai perceber porquê. Eu não li o tal Código, mas consegui perceber.
Voltemos ao Contardo. Indico o livro, mas confesso que esperava mais densidade, são tantos temas e formas de encarar o mundo às quintas que eu esperava outros elementos no livro. Mas a ficção é assim mesmo, difícil. Por isso, são poucos os ficcionistas que se transformam em clássico. Vale ler o livro e rever a relação com o seu pai.
Maio de 2008

O filme deste ano de Woody Allen não agradou a crítica, alguns até o classificam de ruim. Sou suspeito e coloco Allen num restrito grupo dos que, além da minha razão, merecem a minha emoção. Eu gostei de O sonho de Cassandra. Vale ver e refletir. Se todos pagassem, aí sim, não seria Allen e um filminho moralista qualquer, mas o tio sai ileso.
Terry mostrou-se mais fraco, se fraco for alguém que não consegue segurar seus erros, e pôs o plano de ascensão dos irmãos a perder. No mínimo, vi que o tio rico que algumas vezes já habitou os meus delírios, como suposta solução, costuma cobrar preços altos. É fácil também na juventude se colocar no lugar de Ian e se deslumbrar pela beleza e arrojo sensual da atriz interpretada por Hayley Atwell.
Além dos sonhos de um futuro melhor, o filme faz alusão ao mito de Cassandra e a relação do homem com sua necessidade de prever o futuro. Não se pode desprezar toda a relação de Terry com o jogo, com a esperança da virada.
O preço de algumas coisas muitas vezes é bem mais alto do que o crédito que o sistema pode nos conceder…
Maio de 2008
Ser humano é ser tentado a criar uma nova vida mas temer que o risco não valha, é querer mudar se a garantia da evolução tiver assegurada. Antes o conhecido sem tempero, do que o novo amargo.