Arquivo: Junho de 2008



Recall nas livrarias

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A Companhia das Letras colocou ontem um anúncio no jornal informando que vai trocar quem comprou o livro O fazedor de Jorge Luis Borges. A versão correta precisa ter na página 3 a indicação de 1a. edição.

Fui a uma livraria, acho que não carece dizer qual, só digo que não era daquelas que os atendentes não abrem um livro, e ninguém tinha ouvido falar. Tudo bem, saiu ontem, talvez não tenha dado tempo. Mas o que me incomoda mesmo é que as livrarias insistem em ignorar os cadernos de cultura dos jornais ou as principais revistas que falam sobre livro. É normal você ver alguma matéria sobre um livro, se interessar e quando chega lá, sem toda a certeza, perceber que ninguém olhou aquilo. Sequer, algo organizado, pela gerência da rede. Ou seja, não há um trabalho focado em aumentar vendas.

A vida é uma escola privada

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Encontrei uma pessoa com quem trabalhei há uns 18 anos, os dois cansados, depois de correr 10kms. Começamos a colocar o papo em dia, falar da crise dos 40, como tinha sido a de cada um e falei para ele o que julgo ser uma das minhas melhores citações:

A vida é uma escola privada, você paga para aprender”.

Ele gostou, concordou e disse que nunca tinha ouvido. Achei que era olhar de tornar público a autoria. Concordam? Os grandes aprendizados só vêem com certo custo, financeiro, emocional ou de qualquer outra natureza.

Espelho XXXIII

Ser humano é buscar na mente dos outros uma inspiração, um aprendizado, uma aprovação para confrontar com os sentimentos e desejos oriundos da nossa trajetória inconstante de vida.

Citações para repensar a vida

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Sou fã confesso do Eduardo Giannetti. Julgo-o uma das vozes mais coerentes e lúcidas desse pais, acompanho toda sua obra. Este novo livro parece mais simples do que os outros, é só pensar, ah, frases, citações, quase sinal de divertimento.

Mas não é assim, as citações tem uma origem nobre. A formação e dedicação de Giannetti servem de filtro para grandes e profundas idéias dos principais pensadores do mundo e quase que te obrigam a rever seus posicionamentos diante da vida, no ambiente pessoal e no coletivo.

A vaidade é colocada como inerente à espécie, mas também necessária para se conseguir qualquer coisa. Já li, rabisquei e escolhi minhas preferidas. Vou abrir uma página ao acaso e escolher uma citação para o post. Veja se vale conhecer as outras?

A constante pressão do tempo não é o menor dos tormentos que envenenam a nossa existência. Ela mal nos permite tomar fôlego e logo nos persegue como um bedel munido de chicote. A perseguição cessa apenas para aquele que foi entregue ao tédio” (Schopenhauer, 1851)

Primeiro amor, dá para tentar esquecer!

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Essa é uma dica que fica em suspenso, foi o último dia. Mas talvez volte em outra temporada, se sim, vale a pena. No mínimo resta o nome do ator Marat Descartes. Fui pelo texto ser do Becket e o ator ter ganho o Prêmio Shell (Primeiro Amor). Não conhecia o Teatro Coletivo Fábrica, um espaço não tradicional na tradicional Rua da Consolação, em frente ao cemitério.

O texto é denso, e a montagem mais do que espartana, foi a condição para o texto ser liberado, era um romance e não uma peça, dá um pouco de sono. Existem algumas falas fortes, mergulha na condição e no despreparo humano para se relacionar. De repente a narrativa do parto. Uma das cenas mais fortes que vi um autor representar. Um berro ao mesmo tempo incomodante e merecedor de toda admiração. Gritos que expulsavam a busca humana pela entrega a algo que se acredita. E que encontraram, um momento de respeito supremo ao trabalho de alguém.

Qual questão humana?

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Confesso que fui assistir ao filme do diretor Nicolas Klotz acreditando que teria assunto para um post direto no outro blog do qual participo, o da HSM. Sai em dúvida se a indicação do filme fazia sentido para pessoas completamente voltadas ao mundo profissional. Sim, o filme é sobre presidente, vice-presidente, RH e outras coisas, mas como o título diz, é sobre ser humano.

Sai do cinema com aquela sensação de ter entendido menos do que toda a minha vivência já possibilita. Não é um filme fácil. Fui sozinho, portanto não tinha com quem comentar, ao ver o cartaz na saída, notei que o mesmo havia ganho o prêmio de crítica da Mostra de São Paulo do ano passado, fiquei mais preocupado. Mas se você prefere filmes lineares e crescentes, não vá. Esse incomoda, pelo que diz, pela tonalidade, pela atuação das pessoas.

Li algumas críticas e concluo que valeu. A associação dos processos seletivos com o nazismo parece forte, mas merece ser pensada, a certeza de que lembranças do passado assombram, é uma constatação sempre necessária. A indicação de que nem todos conseguem separar as experiências pessoais das missões na empresa um alerta. Um filme que requer atenção, concentração e disposição de encarar o cotidiano aceito como algo a ser questionado. Afinal, não é todos os dias que alguém não lhe deixa dar desculpas, o faz pensar que a saída “eu estava apenas cumprindo ordens” foi também dada pelos oficiais da SS durante o nazismo. Forte? Sim. Necessário? Também. Indigesto? Um pouco.

Quanto pior, melhor!

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Não li e nem pretendo ler o novo livro de Naomi Klein, mas li a entrevista dela na Cult. O livro denuncia o que a autora chama de “Capitalismo do desastre”, ou seja, empresas torcem por catástrofes, outras, vão mais abaixo, agem ativamente para que coisas não tão boas aconteçam ou não sejam corrigidas, isso mesmo, fazem lobby. Isso geralmente não acontece nos países mais desenvolvidos, lá o policiamento é maior. Mas os americanos enxergam empresas amigas agirem no Iraque, substituindo o Estado, recuperando os estragos do Katrina.

Por aqui, que tamanho tem o lobby da segurança? Os bilhões que são gastos, sim, gastos, não investidos em segurança particular são, no meu modo de ver, a garantia que o problema não vai se resolver, é blindagem, segurança, arma, alarme e outras maravilhas que prometem e nunca entregam a tranquilidade. Quem quer mudar isso? Klein, faz o papel da denuncia, início de discussões necessárias para se desmontar o circo. Se você está alimentando isso, seja na sua casa, no seu condomínio ou na sua empresa, que tal ler o novo livro de Klein?

Na Cult tem também um ótimo dossiê sobre Lacan. Talvez se consigamos nos entender melhor, não que entender Lacan seja simples, possa ser um ponto de partida para engrossar o combate do capitalismo de desastre.

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Leitura Hermana

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Li mais um livrinho da coleção Por que ler, desta vez foi Borges. A Companhia das Letras está relançando a obra do argentino no Brasil, minha idéia foi utilizar o livro como guia, de compra e de leitura.

Como é característico da série, dá para ter uma cultura de orelha interessante, superficial, é claro, mas insisto que é um excelente estímulo.  Dá para conhecer as figuras principais da obra de Borges, ter uma noção da profundidade e do fantasioso. Muitos dizem, mas ouvir de Borges sobre as vantagens de ter sido alfabetizado em duas línguas e não ter ficado restrito a paixões nacionais e ter expandido a visão do mundo é óbvio, mas não é afetado como tantos alunos de colégio bilingue que, apesar de fluentes em algumas línguas, parecem que tem por objetivo, fugir da materna.

Espelho XXXII

Ser humano é estar muito mais próximo da inveja do que da energia, disciplina e dedicação de trilhar o seu próprio caminho, ou então, de se jogar para superar quem fez o que gostaria de ter feito…

Escritores que me “irritam”

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Comecei a ler Diário de um ano ruim. É impressionante como o J.M. Coetzee consegue me “irritar”, consegue dizer coisas que eu adoraria poder ter dito. Encontra formas invejáveis, delicadas mas duras de expressar a vida. Espero não só estar sendo estimulado, mas também estar aprendendo… Comento ao final, mas fazer um velho descrever a visão da vizinha na lavanderia dessa forma não é muito fácil: “… porque o vestido soltinho vermelho-tomate que ela usava era de uma surpreendente brevidade”.

Mergulho profundo!

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A revista Brasileiros deste mês traz uma matéria sobre o novo livro do Fernando Morais, a biografia de Paulo Coelho. Gostar de Paulo Coelho, não gosto, tem lógico um componente de preconceito, mas as poucas vezes que tentei me decepcionei rápido, ainda mais com todos os detalhes místicos de sua vida.

Mas isso não quer dizer que o personagem não seja interessante. O cara já vendeu mais de 100 milhões de livros, já foi traduzido para 66 idiomas em 166 países. Só a biografia, projeto de gente grande, foi vendida para mais de 47 países. Eu que já escrevi uma biografia e participei como editor de algumas, posso entender as questões do Fernando quando teve acesso aos arquivos do biografado. O biógrafo quer e gostaria de saber de toda a verdade, nem que seja para não publicar, mas é uma relação de intimidade, não pode sentir-se traido, Fernando também não queria sentir-se traindo. Escreveu e vai com certeza ter seu livro repercutindo por muito tempo.

Paulo Coelho ganhou meu respeito pela coragem de abrir seus diários. Marketing? Mesmo que seja, é um dos marketings mais corajosos que já vi. Como disse em carta assinada ao biógrafo ateu e marxista, e mesmo assim desejando a proteção do menino jesus barbudo, permitiu para que pudesse descobrir outra face dele mesmo, para sentir-se mais livre. Disse também que mesmo que não se reconheça no livro, só o leu depois de pronto, sabe que ali está uma parte dele mesmo. Não é todo mundo que pensa assim e deixa os fãs saberem de práticas sexuais, satânicas e químicas pouco enaltecedoras, pelo menos para os que se seduzem por sua literatura. Comecei a ler…

Humor, algo cada vez mais difícil!

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Há muito tempo ouvia falar do Terça Insana, tinha curiosidade de conhecer. Ontem fui. Achei que era um esquema mais alternativo, tipo Espaço Satyros, mas não, já está mais para superprodução. Éramos quatro já com preocupações de que se o humor conseguiria nos arrancar risos genuínos, ou se conformaria com os chavões de sempre, suficientes para risos de muitos. Assumo que a leitura vai te deixando meio bobo, você começa a ficar mais exigente.

Saímos frustrados, ok, pessoas com talento, uns mais do que outros, aceito que stand-up comedy não é algo simples, mas nada que segurasse alguns minutos. Estávamos nitidamente preocupados em encontrar os restaurantes na saída abertos. É por isso que prefiro o humor de Woody Allen, já sei que não vou gargalhar, mas tem um inusitado, um non sense, uma ridicularização que se não mexe com o corpo, não deixa a expressão facial parada. Quase conclui uma coisa: para as artes em geral, drama, deixo a comédia para os fatos do dia-a-dia… Devem existir pessoas que são meu oposto.

Espelho XXXI

Ser humano é deixar-se seduzir pelo que está longe e maquiável, em detrimento do que está perto e não consegue mais esconder seus defeitos.

O local e o comportamento de compra

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Mais uma vez a New Yorker traz uma capa sobre o mundo dos livros. Por que o livreiro não “seduz” a vizinha? Onde você compra os seus livros? O que é uma livraria para você?

O futuro do livro, o livro tem futuro?

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Tinha comprado há alguns meses esse livro, estava na pilha de leitura e esse final de semana resolvi encará-lo. Como previsto, é uma discussão de malucos, não que os respondentes, pessoas de destaque na área cultural, o sejam, mas tentar discutir o futuro do livro de maneira isolada me parece impossível.

É um livro parcial, para admiradores, para quem quer reforçar que ele continua, para quem ama o papel, os riscos, o peso, o olhar para suas estantes, o cheiro, até mesmo os furos dos cupins. Se você não tem nenhuma ligação com esses atributos, talvez nem precise desse volume, na verdade um catálogo com conteúdo de uma gráfica, e aqui não vai crítica, isso é um elogio. Mas sempre dá para aprender coisas. Fiquei estarrecido com um dos respondentes, são sessenta, é verdade que este teve o mérito de ser verdadeiro. Mas como alguém que já escreveu sete livros, vive contribuindo na imprensa, declara que há anos não lê um livro inteiro, com a enorme quantidade de coisas boas sendo lançadas, no mínimo preocupante. Os órgãos de imprensa e editoras do país deveriam ter um delator de mentiras, se você não lê, não deve escrever, poupemos os leitores menos pretensiosos e marketeiros. Atenção editores de livros, jornais e revistas, quem não lê e mesmo assim desenvolve trabalhos interessantes deve no máximo dar entrevistas, se escrever, crédito aos ghosts.

Você virará a página ou dará enter?

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O Valor de hoje reproduz matéria do Wall Street Journal com o fundador da Amazon, Jeffrey Bezos. A discussão é sobre o Kindle, o leitor eletrônico que eles lançaram.

Há uns 8 anos comprei um e-book, naquele momento tinha a Negócio Editora e estava muito preocupado com as alterações tecnológicas, temia ser alijado do mercado. Nunca li o livro que veio no pacote, Alice no país das maravilhas, nem me lembro se comprei outras versões. Produzimos durante um tempo uma versão do informativo da editora naquele formato, valeu muito mais como preocupação e ação tecnológico do que como resultado.

Isso vai ser sempre assim? Claro que não, mas enquanto for a Amazon e não a Apple atormentando a vida dos editores, fico um pouco mais tranquilo. Por que digo assim? A versão 2.0 do iphone tem que vender 10 milhões de aparelhos em 2008. Perguntando sobre números de vendas, Bezos desconversou, disse que eram números fechados. Ninguém esconde número grande, mas concordo com Bezos quando diz que o livro desaparece quando se pega o fio da meada da narração, ou seja, a história importa mais do que a mídia. Só não acho que os livros em papel sejam os cavalos do meio de transporte atual, como ele diz. Será que estou míope?

Páginas x telas: guerra perdida!

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Esse cara aí em cima eu respeito. Respeito e admiro. Dele copiei a mania de não rir para fotos, mesmo que tenha apenas um milésimo de sua exposição, ele justifica e eu concordo, você nunca sabe para onde vai a sua foto (nada que um photoshop não transforme nos dias de hoje). Mas isso é um detalhe diante da profundidade com que encara a vida. Numa entrevista para o Mais! do último domingo, com o título Habemus Obama, Philip Roth fala de sua visão sobre os EUA, o que cada livro seu representou dos últimos governos e discorre sua visão sobre a leitura.

Ele atesta e somos obrigados a concordar que as páginas perderam a guerra para as telas, de cinema, dvd, computador ou outras ainda menores que dominam o tempo e a atenção das pessoas, roubando um convívio maior com a literatura. De sua forma de se expressar, sinaliza que no futuro a leitura será algo restrito como uma seita. Parei, refleti e pela primeira vez na vida comecei a imaginar como defender uma seita. Aceito idéias…

Aparecer até quando?

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Só tem uma brasileira no livro do sociólogo Chis Rojek (Celebridade, ed. Rocco), a acima, para alguns, freqüentadora das fantasias, para outros, deboche, como para o Macaco Simão, Lucianta Gimenez.

Matéria do Valor de ontem mostra que o inglês mergulhou na vida das pessoas que aparecem, das que mostram e das que estudam os dois grupos para entender o fenômeno. Acredita que a perda da representatividade da religião reforça o culto a deuses menores e mais passageiros. Celetóides são para eles as celebridades são as celebridades sem causa, apenas porque a mídia precisa vender. E aí é que entra o tiro no pé. Ao invés de vender porque produz conteúdo, vende porque produz notícia vazia. A longo prazo, só resta ficar refém de celebridades de categoria cada vez pior.

Aqui no Brasil existem em número suficiente para cobrir os sites, revistas, rádios e tvs, às vezes, invadem até mesmo as livrarias. Para que entender esse universo? Bom, se você vai ler este livro, já está deixando claro que celebridade não vai se tornar, só resta entender um pouco melhor a espécie.