Arquivo: Julho de 2008



Família à irlandesa

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Anne Enright ganhou o importante Man Booker Prize em 2007 por O encontro, bateu um veterano nesse prêmio, Ian McEwan. Só isso já me intrigou a lê-la. O tema do livro, universal, questões de família. Verônica narra o encontro dos Hegarty no velório do irmão mais próximo. Para chegar aí, vai as origens da família, descrevendo as relações, as presenças e as ausências, desde seus avós.

A escrita é madura, amplia os horizontes, narra os acontecimentos que se passaram ou poderiam ter se passado, na sua, na minha, ou em qualquer família. Talvez até tenham acontecido, mas não tenhamos ficado sabendo, afinal, família também não é isso, um perdoar o esconder? Senti falta de um componente romanção, aquela vontade de não parar, a velocidade não é tão rápida, suporta-se um dia longe, porque parece que a autora deixa claro que as revelações não são brotantes, prefere trabalhar as circunstâncias, o mergulho.

Da família de seus ascendentes para a de seus descendentes essa mulher toca de maneira corajosa no afeto que liga uma pessoa a outra, desde seus avós, até suas filhas, discutindo os momentos diferentes que vivem juntos, um homem e uma mulher. Bastante recomendável.

Auto-ajuda descololado

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Esse livro de um publicitário inglês tem a pretensão da velha Inglaterra, mas no máximo, consegue a mesma figura decorativa da Elizabeth, apesar de ter consciência de que na prática, quem manda é o Gordon Brown…

Leia se estiver precisando se achar inteligente, ou quem sabe, que acreditar que aquele curso de leitura dinâmica por correspondência, ou pela internet, era mesmo poderoso. Sem forçar, li em 22 minutos. Isso, é claro, olhando com atenção todas as fotos, aliás, a melhor coisa do livro. O autor é, ou foi, um diretor de criação, não um redator.

De fato, se você o ler a conseguir pensar de forma diferente, está liberado de freqüentar esse blog, pensamos livro de forma diferente. Há a hipótese de lê-lo como humor, mas aí, talvez seja melhor procurar o Woody Allen ou o Sedaris.

Espelho XXXVII

Ser humano é pender entre os desejos profundos, a curiosidade, o medo, e as singelas aspirações de um mundo ideal.

Mulheres e amantes

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Uma garota dividida em dois mais do que vale a ida ao cinema. Poucas coisas que você está fazendo agora valem mais a pena do que se confrontar com um pedaço de nós mesmos depositado em cada um dos personagens. Ironia e hipocrisia estão muito presentes nesse filme do diretor Claude Chabrol, aliás, aos 78 anos, lúcido e muito produtivo, usufruindo de seus VGBL ou PGBL, não tenho muita certeza, e ao lado de vários membros de sua família, trabalhando, em excelente qualidade.

É a história de uma jovem que se apaixona por um importante escritor, muitíssimo “bem-sucedido”, não apenas materialmente, mas com uma relação modelar. Não resiste a garota, como parece resistir a poucas coisas, a medida que o filme apresenta os personagens. Preste atenção na editora dele (confesso que ainda não conheço colegas assim, mas vou começar a imaginar nas editoras, quem pode cumprir papel semelhante…). A garota se envolve e ao se dar, entra em contato com um lado para o qual não estava preparada.

Como tentativa de retomada, cede a um milionário caricato (atenção dândis, depois desse filme, veja bem o que fazer com suas peças Paul Smith…) que não suporta ouvir a verdade. Um quadro muito verdadeiro e bem-humorado da sociedade, dos desejos e das questões que a vida pode colocar aos que não se escondem atrás de “morais e formatos” confortáveis.

Será que só Jacques Vérger é um advogado do terror?

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O documentário sobre o advogado Jacques Vérger é ao mesmo tempo incômodo, instigante e um pouco chato. Recomendo que se veja sem maiores cansaços. Não era o meu estado, dei umas pescadas que atrapalharam um pouco. São tantos conflitos e histórias em que se meteu que exige uma cultura grande sobre os conflitos humanos.

Ainda acho que na maior parte do filme a idéia é colocá-lo como herói, apesar dos críticos dizerem que o diretor foi imparcial, deixando essa decisão ao espectador. Ético? Não sei, poderia ter mostrado outras cenas, acredito que a idéia era incomodar o espectador, mas ao mostrá-lo ferido, ou hoje em dia fumando seu charuto, corre-se o risco da imparcialidade ser infringida. No final, um dos pontos altos do filme, quase um acesso hollywoodiano, ao ser perguntado se defenderia Hitler, Vérges responde que defenderia até Bush, desde que se admitisse culpado.

Não deixa de ser um ótimo exercício se confrontar mais de 2 horas com um homem desses. Está longe de ser o único… O filme está em poucas salas.

Um livro para admirar e ler junto com os filhos

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Eis um livrinho intrigante, singelo, bonito, com um texto, poético é claro, e também capaz de despertar aquela curiosidade tí­pica de uma fase que deixamos há muitos anos. Talvez seus filhos ainda estejam nela, ou pelo menos, mais próximos. Vale o empurrão de Pablo Neruda como guia.

Mas o melhor dele são as ilustrações de Isidro Ferrer, uma verdadeira obra de arte. Algo para despertar ou apurar o senso estético, seu e de seus filhos.

Espelho XXXVI

Ser humano é sucumbir a vaidade e passar a acreditar nos elogios alheios que começam como um agrado e se transformam, se se tem mais posição do que desconfiômetro, no incentivo para ultrapassar os limites do razoável, o que era para ser mantido privado passa a ser público…

Para quem gosta de livros, ah… e de boa música

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A Piauí de julho traz uma matéria belíssima inspirada no conto de Biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges. Lá além de fotos de livros acorrentados na catedral de Hereford, Inglaterra, há reproduções de belíssimas bibliotecas: a do mosteiro da Ordem dos Cônegos Brancos em Praga, a do carioca Real Gabinete Português de Leitura, a do Trinity College em Dublin, a do parlamento sueco, Rksdag, em Estocolmo e a do Reading Room do British Museum em Londres.

Dar uma passada nesses ambientes é sempre inspirador. Se alguns estão longe, a do Real Gabinete de Leitura fica no centro do Rio. Mas nem só de livros e belos textos vive a Piauí, quando pode, dedica-se a boa música, mesmo a americana, mas com título em português: Só entre nós, já foi eleito o CD do ano.

Ler o texto de abertura da revista foi um dos momento mais engraçados dos últimos anos. Ri na primeira vez que li, ri mais ainda ao lê-lo para minha mulher. É sobre o CD e a carreira de Roberto Justus, sim o publicitário topetudo que apresenta programas de tv, dirige sua agência e casa para Caras. É imperdível. Adoraria ser convidado para a próxima festa de final de ano da Y&R, se o for, prometo não desgrudar o olho dos rostinhos dos funcionários, aplaudindo freneticamente o chefe, agora devem estar impossíveis, o CD os liberou para perder a vergonha…

Se eu fosse o Justus, logo após ler a matéria, convocaria todos os clientes da agência e usaria todo o seu poder de sedução, sem puxar muito pela memória, já caíram nele Adriane Galisteu, Eliana, Ticiane Pinheiro e tantas outras, e os convenceria da necessidade de incluir a Piauí em seus planos de mídia, mesmo que a adequação não seja imediata. Ele, Justus, nunca mais vai receber um texto tão brilhante em toda a sua vida, isso não tem preço, é um reconhecimento muito maior do que ele poderia imaginar. Fui checar se estava disponível online, não está, vá até a banca e compre o número 22, nessa busca descobri que o autor do texto é o xará do Justus, o Roberto Kaz, aí entendi tudo, inveja de Robertos…

Flaubert para ver

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Assisti Madame Bovary de Claude Chabrol neste final de semana. Só depois do filme comecei a ler o livro, buraco dos grandes, livro fundamental, depois falarei dele.

Já o filme confesso que esperava mais, esperava atuações mais emocionais, vou checar se foi fiel ao livro. Para mim as atuações não colocam você na posição dos personagens. Charles Bovary no filme foi quase um banana, quase empurrou a mulher para suas aventuras, isso, sem nem controlar o descontrole financeiro dela.

Nos extras, depoimentos de Samuel Titan Jr. sobre o livro e o filme. Instrutivo.

Coetzee e Castello sobre literatura

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Para quem gosta de literatura, o Prosa & Verso do Globo, todo sábado é necessário. Se nada for bom, há o José Castello. No último sábado ele falou sobre o livro do Coetzee, já indicado aqui, utiliza o livro para defender a necessidade da literatura em nossas vidas. C., o escritor de Diário de um ano ruim, lembra as idéias de Hobbes sobre a necessidade do Estado (a impotência voluntária, que precede o desejo de ordem).

Já para Castello a Literatura (como diz, utiliza as maiúsculas por prudência e não por certeza) é uma abstração. Um manto que costuramos para que, enfim, as palavras não nos queimem diretamente os olhos. Um tapete protetor - cheio de rasgões, de furos, de insuficiência - sobre o qual, ainda assim, desenrolamos a vida. No ano passado Castello lançou A literatura na poltrona, não li mas recomendo.

Belo filme, assunto difícil, sem maiores apelações

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Assisti ao Escafandro e a borboleta e fortemente recomendo. O tema é difícil, o protagonista sofre um AVC e lhe resta apenas a total consciência e a movimentação do olho esquerdo. A partir daí ele começa a se expressar com piscadas, uma quer dizer sim, duas não. O filme não é apelativo, a trilha sonora é ótima, as mulheres que cercam o protagonista são lindas, existe um humor e sim, uma emoção muito grande na relação das pessoas com alguém naquelas condições.

De uma vida de playboy editor da Elle para autor de livro em condições extremas, todo o esforço para ditar o livro a partir das piscadelas escolhendo as letras o filme debate um pouco da liberdade, de sentimentos e relacionamentos. Viu o livro pronto  e sentiu sua missão terminada.

Relação com os livros. Qual é a sua?

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A coluna de hoje do Contardo Calligaris na Folha é sobre a relação de cada um com os livros, vários livros, lidos, comprados, admirados, até mesmo os ignorados. Sim, os livros ignorados fazem parte de nossas vidas, quanto mais livros ignorados tivermos, maior a possibilidade de pobreza, não só no sentido de conhecimento, principalmente no sentido de amplitude e clareza de valores, cada estória a menos explorada é a continuidade de vida na estreita faixa em que se vive.

 Livros no fundo servem para isso, para moldar nosso horizonte cultural, causar o primeiro impacto, abrir caminho e a nossa mente e emoções para sentimentos mais abrangentes. Contardo mediou a mesa entre Marcelo Coelho, também da Folha e o francês Pierre Bayard, autor do livro acima, aliás, foi ele quem introduziu a questão dos resumos, não os dois debatedores, como foi erroneamente noticiado no jornal. Mas na verdade, os 3, os 4, me incluo no grupo, defendem que os livros moldam vidas, sugerem a leitura como um modo indispensável de gastar as horas.

Bayard desenvolve um conceito do livro coletivo versus o livro individual, o primeiro sendo resultado de uma sociedade que já quase não existe, coletiva e o outro, fruto da modernidade, individual, que vai se formando a “partir das ficções que inventamos para responder as perguntas da vida”. Eu sempre acreditei que nossas ações compõem uma biografia que na maioria das vezes nunca será escrita, mas muito pior, na verdade, muito melhor que isso, será vivida, esse é o desafio, não esquecer da própria biografia e viver a dos outros… A dos outros se lê, a nossa, se vive…

A dignidade de envelhecer

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Ler o último livro de Philip Roth, Fantasma sai de cena, é tomar contato com o envelhecimento e com as limitações que a idade impõe ao ser humano. Os mais superficiais podem se dispor da literatura de Roth, podem não encarar as transformações corporais e a mudança no desejo. O escritor de Roth sofre de impotência e incontinência, o que o obriga a usar fraldas aos 71 anos. Parece que não há viagra para ele, já vivendo isolado no campo há 11 anos.

Um encontro com uma jovem escritora desperta a vontade de se relacionar de novo com uma mulher e até o faz imaginar a vida numa cidade outra vez. Lá encontra um mito da juventude, abalada por um tumor, alguém que desejou há décadas mas que foi fisgada por seu ídolo, um escritor importante que foi completamente esquecido. Um outro jovem quer contar a biografia desse escritor e revelar um daqueles pontos negros de uma existência, capaz de escandalizar a moral de uma sociedade.

Roth coloca estética, moral e memória numa história madura e cheia de frases todas capazes de inspirar e mostrar o que é a vida de verdade, verdade sim, mas vista por lentes privilegiadas, prontas para serem utilizadas por você.

Espelho XXXV

Ser humano é identificar o que é valorizado, ou se julga valorizado, mesmo que não o seja por nós mesmos, e agregar-se a isso na esperança de se imaginar acima de nossa realidade.

Para ver e ser visto ou para ler e ser visto, um balanço da Flip 2008

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Foi, como já disse, minha primeira Flip. A primeira impressão foi ótima, Paraty é um local dos mais interessantes, história, artesanato, povo, cultura, costumes, tudo junto naquelas ruas de pedra do centro histórico. Centenas, milhares de pessoas juntas para celebrar a literatura, como, também já disse, animador. Dá aquela sensação de “existe esperança de vida inteligente na terra”. Ainda estou assim, mas como balanço, sou menos otimista e um pouco preocupado, receio da transformação de tudo em festa, quase sempre isso acaba por superficializar os temas, vou ser mais claro.

Basta saber um pouco do quem é quem no país que fica claro que não só a elite intelectual-cultural, lá está. Uma parte da elite econômica também vai. Comentários sobre o buxixo ou de quem lá está são ouvidos com freqüência. Ouvi 9 mesas, das quase 20 realizadas. Participei um pouco da Flipinha e de outras atividades. É lógico que é válido, vou estar lá em 2009, e acho que não faz mal para ninguém ver e ouvir autores tão diferentes. O que fico de fato pensando é que seria impossível ouvir o que lá se diz ou se lê (os autores leêm trechos de suas obras), sem mudar de fato drástico a postura da vida como um todo. Ouvir Elisabeth Roudinesco falando sobre a perversidade que nos habita, ouvir Roberto Scharwz explicar o que eram as relações de favor que restava aos brancos pobres na época de Machado de Assis, ou então Fernando Vallejo criticar a hipocrisia e as dificuldades de sua Colômbia natal, ou ainda João Gilberto Knoll reforçar sua obra homoerótica e tantos outros exemplos é um empurrão a um questionamento profundo.

Vi figuras lá que se ouviram com ouvidos próximos dos meus podem em pequenas ações, ter um impacto mais amplo do que agora consigo. Acho que vão fazer? Não, não sou otimista, acho que estavam lá muito mais expressando seu desejo de serem “cools e inteligentes” do que sua disposição de contribuir para o aumento da aceitação da diferenciação e a disposição de estender a literatura e cultura para as várias camadas da população brasileira. Ou seja, uma parte estava mais para ver e ser visto do que para ler e ser visto, expressão que já assume um pouco a necessidade de vaidade humana. Que a Flip cresça, não só lá em Paraty, mas na sua repercussão na imprensa, que motive o alastramento do hábito da leitura, capaz de mostrar ao homem, o quão diversa e pouco convencional pode ser sua vida. Se metade dos livros comprados forem lidos, sementes importantes foram plantadas.

A perversidade em cada um de nós!

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Assisti ontem a palestra da Elisabeth Roudinesco aqui na Flip. Alguns pscinalistas estão contestando seu novo livro. Para quem não é do ramo, parece bem interessante. Mapeia o perverso que está dentro de nós, isso mesmo, de mim, de você e de todo mundo. É melhor saber e ver como lidar do que tentar ficar negando. A conexão aqui da Flip não está das mais fáceis, por isso estou blogando pouco.

A Flip é uma esperança, dá para ficar animado que ainda existe alguns querendo vida inteligente na terra.

5o. livro da Virgília começa a chegar às livrarias!

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Se você tem ou trabalha numa empresa que precisa crescer é bom dar uma olhadinha no novo livro da Virgília.

Fábrica de Idéias, banco de oportunidades, Como desenvolver negócios por meio da captação, seleção e gerenciamento de oportunidades, foi escrito pelo Wanderlei Passarella, ex-presidente da Petroflex e hoje presidente da GPC Química, e conta com a participação de outros colegas da equipe da Petroflex para mostrar ao leitor como planejar e buscar um crescimento sustentado.

Em épocas de dúvida se a economia continua aquecida ou entra em ressaca, é bom cuidar das suas metas. Um bom aliado.

Espelho XXXIV

Ser humano é precisar acreditar em Deus para encarar o que vê no espelho.