7 de Julho de 2008

Para ver e ser visto ou para ler e ser visto, um balanço da Flip 2008

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Foi, como já disse, minha primeira Flip. A primeira impressão foi ótima, Paraty é um local dos mais interessantes, história, artesanato, povo, cultura, costumes, tudo junto naquelas ruas de pedra do centro histórico. Centenas, milhares de pessoas juntas para celebrar a literatura, como, também já disse, animador. Dá aquela sensação de “existe esperança de vida inteligente na terra”. Ainda estou assim, mas como balanço, sou menos otimista e um pouco preocupado, receio da transformação de tudo em festa, quase sempre isso acaba por superficializar os temas, vou ser mais claro.

Basta saber um pouco do quem é quem no país que fica claro que não só a elite intelectual-cultural, lá está. Uma parte da elite econômica também vai. Comentários sobre o buxixo ou de quem lá está são ouvidos com freqüência. Ouvi 9 mesas, das quase 20 realizadas. Participei um pouco da Flipinha e de outras atividades. É lógico que é válido, vou estar lá em 2009, e acho que não faz mal para ninguém ver e ouvir autores tão diferentes. O que fico de fato pensando é que seria impossível ouvir o que lá se diz ou se lê (os autores leêm trechos de suas obras), sem mudar de fato drástico a postura da vida como um todo. Ouvir Elisabeth Roudinesco falando sobre a perversidade que nos habita, ouvir Roberto Scharwz explicar o que eram as relações de favor que restava aos brancos pobres na época de Machado de Assis, ou então Fernando Vallejo criticar a hipocrisia e as dificuldades de sua Colômbia natal, ou ainda João Gilberto Knoll reforçar sua obra homoerótica e tantos outros exemplos é um empurrão a um questionamento profundo.

Vi figuras lá que se ouviram com ouvidos próximos dos meus podem em pequenas ações, ter um impacto mais amplo do que agora consigo. Acho que vão fazer? Não, não sou otimista, acho que estavam lá muito mais expressando seu desejo de serem “cools e inteligentes” do que sua disposição de contribuir para o aumento da aceitação da diferenciação e a disposição de estender a literatura e cultura para as várias camadas da população brasileira. Ou seja, uma parte estava mais para ver e ser visto do que para ler e ser visto, expressão que já assume um pouco a necessidade de vaidade humana. Que a Flip cresça, não só lá em Paraty, mas na sua repercussão na imprensa, que motive o alastramento do hábito da leitura, capaz de mostrar ao homem, o quão diversa e pouco convencional pode ser sua vida. Se metade dos livros comprados forem lidos, sementes importantes foram plantadas.

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