Arquivo: Agosto de 2008



Novo livro da Virgília, quem quer saber sobre criatividade não pode perder

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O inglês Andrew Smith se apaixonou pelo Brasil, viveu em vários países, 9 para ser exato e resolveu ficar por aqui, ter um filho brasileiro. Seu filho Kauê nasceu praticamente junto com seu novo livro: Jeito brasileiro. Neste livro, 39 das mentes mais interessantes do Brasil falam sobre criatividade. É ator, cientista, jogador de futebol, carnavalesco, publicitário, músico, pintor, esportista, escritor, decorador, chef, desenhista, diretor de cinema, designer, falando  o quê pensam sobre criatividade e como se relacionam com ela. Para quem é curioso, leitura fundamental, modéstia à parte!

A megera e dois países que não se falam

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Acabei de assistir A megera domada. Fui para levar meu filho de 11 anos e também para relembrar meus tempos de fã cativo do Ornitorrinco, não perdia uma e sabia que a reação agora (êta maturidade) seria diferente. Mas contrário algumas coisas mais simples que hoje já não me atraem, apesar de rir pouco, fica clara a sensação de teatro. Os figurinos e recursos são interessantes. Senti aquele orgulho de estar cumprindo meu papel de pai, tirei meu filho da Fox Kids e o coloquei diante de Shakespeare e Ornitorrinco. Vai até domingo se não tiver nenhuma extensão.

Os preços são populares e há claramente uma campanha de acesso a um novo público. O triste é ver como os dois brasis não se falam. Discurso é uma coisa, prática outra. Na teoria todo mundo quer que a cultura se difunda, que todos tenham acesso, mas garanto que uma classe média “você sabe com quem está falando” prefere que isso aconteça em seções distintas dá que estão. Foi essa a sensação. O teatro Sérgio Cardoso precisa facilitar a visualização dos lugares, mas quem está mais acostumado a laterais pares e ímpares, a indicação nas costas da poltrona, e outros rituais, bem que podia ajudar aqueles que lá pisam pela primeira vez. Não foi isso que vi.

Filme para quem quer escrever ou sair da zona de conforto

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Mesmo gripado fui assistir a Nome próprio ontem à noite. Tão sonolento estava que o som irritante do início não me venceu, dormi por alguns poucos minutos e acordei melhor. Parecia um pesadelo, parecia que era onírica a visão de uma jovem mergulhando fundo a procura dela mesma, mais nos outros do que dentro de si. O filme é pesado, de imediato gostei apenas da fórmula encontrada para mostrar as palavras dos posts. As letras invadindo as paredes é muito poético, nem sempre fácil de ler, mas nunca tinha visto antes.

É claro que dá para perceber a força da Leandra Leal, papel difícil, segurou muito bem. Sai decidido que não tinha gostado. Mas Nome próprio tem um mérito, cutuca você lá dentro, lá no fundo. Comecei uma séria e interessante discussão estética e de sentido com minha mulher. O papo flui bastante, o incômodo de ver alguém se procurando nos fez mergulhar, do nosso jeito, nas próprias questões. Não é também para isso que os filmes servem? Só vá se estiver conformado que terá que buscar um pouco de vida própria dentro de seu corpo num mundo tão pasteurizado…

Gabinete Real de Leitura

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As imagens são do meu celular, mas quem for ao vivo lá na rua Luís de Camões, centro do Rio vai poder se deliciar um pouco com o Real Gabinete Português de Leitura , um prédio interessante com a maior coleção de livros de autores portugueses fora de Portugal. Mesmo que não seja sócio e não possa retirar os livros, vale para sentir o “pó da sapiência”.

Para os menos acostumados a andar pelo centro do Rio, arrisco que vale vencer o medo. A Rua Luís de Camões assusta um pouco. Vale também uma reflexão. Muito próximo dali fica o Saara, o mercado popular do centro. É impressionante a proximidade tão distante. Se o Gabinete foi fundado em 1837 por comerciantes ricos para tentar manter um certo contato com a cultura da antiga Coroa, vale lembrar que durante muitos anos Portugal esforçou-se por manter a colônia nas trevas, inclusive proibindo a impressão de livros. Eis o que deu, poucos livros, poucas bibliotecas, públicas ou privadas e muito comércio popular, um sobrevivente desesperado tentando tirar o dinheiro de outro sobrevivente desesperado… E ainda não se levou a formação de bibliotecas a sério nesse país. Vide a Biblioteca de Brasília, mas obra para ser superfaturada do que projeto cultural para estar a disposição da população.

Espelho XL

Ser humano é acreditar na aceitação dos outros quando convém. É se encaixar em rótulos criados pelo marketing, conveniência e carência dos menos ativos. É também se exceder e começar a destruir sua imagem…

Injustiça intelectual

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Na Playboy de agosto a entrevista é com o Paulo Coelho, como estou atrasado na leitura de O mago, li a matéria e sou obrigado a protestar. Não quero fazer parte do que chamam “imprensa ingrata brasileira”. Sim, reconheço Paulo Coelho como o maior escritor brasileiro (maior x melhor), adoraria vender 100 milhões de livros, como autor ou mesmo como editor, mas também adoraria fazer isso utilizando outra linguagem.

Mas o objetivo deste post é simplesmente refazer uma injustiça que o ego do Paulo Coelho o fez esquecer. Ele se classificou como o maior intelectual brasileiro. Sou obrigado a apontar que todos esses livros fizeram Paulo Coelho esquecer o também colega escritor, de 45 livros aos 39 anos, Gabriel Chalita, este sim, um intelectual do mesmo nível do mago…

Contos do crime

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Li o último livro do Dalton Trevisan, O maníaco do olho verde. Vale lembrar que Trevisan é conhecido pela precisão, pelo uso enxuto das palavras. Para quem escreve, mesmo que as burocráticas mensagens de trabalho, não é difícil perceber como dá muito mais trabalho ser objetivo, escrever pouco. Trevisan faz isso sem limitar o horizonte do texto.

Não sou especialista em sua obra. Alguns críticos afirmaram que essa não agrega nada novo, mas como ouvi do escritor Marcelino Freire, vou abordar isto depois, um autor muitas vezes quer tirar tudo de seus cacoetes, escaramuçar seu estilo. Vários contos deste livro abordam a realidade de criminosos, a motivação ou a “precisão” para fazer o que fazem. Quando se dá conta, já acabou a leitura e garanto que olhou com uma certa simpatia a necessidade de quem pode ser, tomará que não, seu adversário…

Espelho XXXIX

Ser humano é não perdoar seu pai ou sua mãe por terem preferido o irmão ou irmã, mesmo que alguns tentem esconder essa ira. Alguma hora aparece…

Se não leu, vá. Se já leu, vá. Ou então vá e leia!

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Sou um fã declarado desse livro do Milton Hatoum, aliás, gosto muito da obra dele. Tanto é que no meu capítulo do livro que sairá em breve, Acontece nas melhores famílias, escrevo sobre Machado de Assis e Miltom Hatoum.

Para quem tem ou pretende formar uma família sempre recomendo Dois irmãos. Acabei-o de fazer para um amigo que acabou de ter o segundo filho. Ele disse que estava lendo tudo sobre auto-ajuda. Eu ia responder que não era auto-ajuda, mas daí pensei melhor e conclui que qualquer pai que ler este livro vai estar não apenas se auto-ajudando, mas livrando de muitos traumas os seus dois filhos.

A peça está no CCBB, centro de São Paulo, até outubro. Ainda prefiro o livro, mas vale ir. Esperava um Nael mais forte, por mais que seja apenas o narrador. Também me decepcionei um pouco com o Yaqub, engolido por seu gêmeo. Ir ao CCBB requer, para quem não trabalha no centro, sair da zona de conforto. Melhor sair do conforto e expandir as questões familiares, fui de motoneta e parei na Rua Boa Vista, não existe mais o serviço de van saindo da rua Consolação.

De quem é este livro?

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Taí um livro para apaixonados por livros. É o sexto da coleção Artes do Livro da Ateliê Editorial. Ex-Libris, organizado pelo editor Plínio Martins Filho traz alguns dos primeiros ou mais importantes ex-libris brasileiros. Sabe o que é um ex-libris? São aquelas “etiquetas” que apontavam o dono daquela coleção de livros. Geralmente criada por artistas com elementos da vida do colecionador.

Além da beleza estética, do estímulo à arte, os ex-libris aumentavam o valor dos livros. Sumiram lá pela metade do século XX, tomara que esta belíssima edição estimule alguns dos amantes atuais do livro a retomar esse hábito. Eu que já estava determinado a criar um, agora vou mesmo, até já desisti do acabamento previamente pensado. Não vou mais fazer em etiqueta autocolante, vou querer mesmo é imprimir como gravuras. Meus livros terão os meus rabiscos e anotações e também um ex-libris com meu nome, é assumidamente o meu lado mais hedonista. Que tal pensar em fazer um ex-libris você também? 

Bienal do Livro. Lugar para que?

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Acabo de voltar de minha segunda ida a Bienal. Desta vez a pedidos do meu filho de 11 anos. Tinha ido no primeiro dia, hoje cheguei às 20 hs e saí às 21:50, 10 minutos antes do horário oficial, mas já com vários estandes “lacrados”.

Vale a pena ir até lá? Estou me questionando. Da primeira vez parei o carro longe, hoje bem mais perto, 20 reais de estacionamento, não pago para entrar, e lá muitos estandes que não demonstram nem um pouco gostar de livros. Exemplos? No estande de um sebo perguntei por livros do Philip Roth, o atendente percebeu que era literatura estrangeira, desconfiava que não tinha mas me pediu para checar na letra F. No de uma grande editora, perguntei qual daqueles era o último livro do Dalton Trevisan e duas atendentes não sabiam, pior, sequer sabiam consultar a página de créditos e concluir que o de 2008 era o mais novo. Poderia citar vários outros exemplos. Ok, as pessoas são temporárias, mas não demonstram interesse em se envolver com os livros ali expostos.

E o pior, se estiver bem humorado pode até ser engraçado, é que se você for condescendente e cruzar o olhar com os vendedores de revista ou de barça, vai ter que ouvir um malho. Até admito que é admirável nos dias de hoje se tentar vender a enciclopédia Barsa por alguns milhares de reais, o esforçado vendedor tentou umas cinco abordagens, dei corda. Daí me lembrei que gosto mesmo é de livros, numa boa livraria estaria melhor atendido, pelo menos lá ninguém tenta me empurrar a Barsa, mas infelizmente também as pessoas sabem pouco, já reclamei aqui. Para que serve a Bienal então? Talvez formação cultural, não é pouco…

Honra ainda é necessária?

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Nunca tinha lido nada de Lourenço Mutarelli. Assisti a O cheiro do ralo, filme de Heitor Dhalia baseado em livro dele e não gostei muito. Li agora seu novo livro, edição caprichada da Companhia das Letras, duas cores, ilustrações interessantes.

O que mais gostei são as referências de alguém da minha idade, morando no mesmo lugar que eu. Conta a história de um homem que sofre uma traição da mulher, traição difícil de ser encarada: pelo chefe e também pelo filho deste, amigo de seu filho de 13 anos… Perde o rumo, volta a morar com o pai e encara uma depressão. No período olha para as mulheres na rua de um jeito que considero tipicamente masculino: comia ou casava. Você já saiu assim por aí?

Não gostei tanto da última parte. Os dois terços iniciais são melhores, boa indicação para quem procura algo contemporâneo brasileiro. 

No esporte a garra é diferente da cultura

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Para mim essa é a imagem da Olimpíada. É praticamente impossível numa sociedade midiática como a de hoje não se falar de Michael Phelps. Vou tentar aqui dar uma outra abordagem. O espasmo corporal provocado pela vitória no revezamento, algo que não dependia apenas dele, é marcante e passível de reflexão. O esporte traz implícita uma dedicação corporal, uma busca de quebra de limites, a cultura não. Mas qual será a reação corporal de um artista, pintos, escultor, fotógrafo, escritor diante de algo comparável? Ou será que a espécie humana não consegue estabelecer comparações entre coisas tão concretas quanto uma Olimpíada e um recorde à criação de uma obra de arte? Quem contribuiu mais para a espécie? Um Phelps ou um Anish Kipoor por exemplo?

21 x Breu, fiquei no preto e branco

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As coreografias dessa temporada do Grupo Corpo são 21 e Breu. Há uns 6 anos marco presença, é quase uma educação visual. Acho que todos que pudessem deveriam ver.

Essas duas últimas partem de músicas mais ousadas, difíceis. A do Breu, que tinha assistido o ano passado é do Lenine, algo bem forte, tenso, uma releitura da música pernambucana, num cenário preto e branco, coreografia agressiva, retrato dos dias nas grandes cidades.

A do 21 começou amarelo e foi se colorindo. A música do Uakti classificaria mais como experimental do que corporal, mas foi bem dançada, para mim os corpos se transformavam em relógios. Me empolguei mais na segunda parte, vendo o que já tinha visto. No próximo ano descubro se as coreografias menos harmônicas pedem uma segunda vez. Vá ver!

Novo livro da Virgília vai trazer imagem de jovem artista brasileiro

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O livro da Virgília que está saindo em breve do forno traz na capa a imagem de uma aquarela do jovem artista Pedro Varela, uma das apostas da irreverente galeria A Gentil Carioca, vale a pena checar o site (clique na gravura da capa) e essa nova geração de artistas plásticos brasileiros.

O livro vai se chamar Jeito brasileiro - Criatividade, o que é, como eles desenvolveram e o que você pode aprender. São 39 pessoas de várias áreas dando depoimentos. Aguardem o post do livro.

Espelho XXXVIII

Ser humano é também se inconformar e desafiar o status vigente, é buscar impor ou impactar o externo com as crenças que vêm de dentro. Só assim a espécie e o ambiente evoluem.

Duchamp e os livros

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Marcel Duchamp foi um artista que se relacionou intimamente com a palavra. Dava importância ao nome de suas obras e teve uma atitude capaz de revolucionar a arte do século XX. Ousou, questionou sempre o que é uma obra de arte, o que é uma cópia?

Saí da exposição convencido que ele é o fundador do mercado de luxo ao fazer suas caixas em duas versões: normal e luxo. Outro ponto interessante é a ligação dele com os livros. Fez alguns projetos e capas, mas já se existiu um tempo onde as livrarias faziam suas vitrines com artistas do calibre de um Duchamp, é claro que hoje um Duchamp é alguém bem mais importante do que aquele já não tão jovem artista em 1945. Mas a livraria Brentano em Nova York não resistiu a pressão da Womans League e mandou retirar a vitrine que Duchamp preparara para homenagear o livro Arcane 17 de André Breton, aí apareceu a Gotham Book Mart que aceitou a ousadia do artista e exibiu o complemento aos livros: um manequim parcialmente despido com uma torneira fixada à perna. Quem anda fazendo as vitrines das livrarias brasileiras? Acho que está mais para os atendentes fãs de auto-ajuda do que pessoas com mais senso estético…

Brecht, alma e o que fazer nos dias de hoje

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Ontem assisti a A alma boa de Setsuan, peça de Bertold Brecht dirigida por Marco Antônio Braz, com Denise Fraga, Ary França e um bom elenco. Fui pelo texto, discute se é possível ser bom para os outros e você mesmo. A personagem vivida por Fraga, uma ex-prostituta só consegue se livrar da sacanagem e abusos dos que a ajudam ao incorporar uma outra personalidade, um primo durão.

O final é interessante, cobra do expectador o pensar para a solução da situação em que nossa espécie se encontra. Mas não saí convencido de que é eficiente. O humor do texto e das interpretações não me conquistou. Acredito que a peça corra o perigo de não agradar aos mais exigentes, pelo seu humor caricato (pretendo assistir A megera domada e daí faço uma comparação mais consistentes. Na casa dos 20 anos, assisti a Ubu, peça do mesmo Ornitorrinco, adorei, recomendei, desconfio que terei outra reação agora, mas aguardemos…), nem aos que foram atraídos pela exposição global de Denise Fraga (aliás, ela estará no próximo livro da Virgília, juntamente com 38 outros respondentes sobre criatividade), lá encontrei uma tia que acredito ter escolhido essa peça por esta razão. Ou seja, para democratizar, opta-se por uma tentativa global e não se agrada profundamente nenhum dos dois extremos.

Fiquei na última fila do teatro (Reinassance), é verdade que o vendedor alertou, mas a posição lá é péssima e demonstra descuido com o teatro, o ar estava desligado e no final estava muito quente. No site do teatro até ontem era possível supostamente assistir Visitando o senhor Green, com Paulo Autran e Dan Stulback, em tempos de blogs e internet, não ter um site minimamente atualizado é grave. A menos que seja uma homenagem ao Paulo Autran…

Vale assistir A boa alma de Setsuan? Vale, mas não vá com enormes expectativas, pode sair com aquela sensação de queria um pouco mais.