Arquivo: Setembro de 2008



Quem quer IPhone?

iphone.jpgQue o IPhone parece bacana, não tenho dúvida, que o design é interessante, também não, que dá vontade de ter, dá, mas…

O que estão fazendo é meio ridículo. Várias empresas, diria que sem estratégia, tentam pegar carona no sucesso do produto. As telefônicas depositarem suas fichas, vá lá, mas bancos e outros, acho demais. Pior que isso, só as “celebridades” pagando o mico de irem nas festas de lançamentos e ficar pedindo. Cada um tem seu preço… Êta mundinho vazio.

Santiago: Sentido da vida e obra intransferível

santiago.jpg Assisti ontem um debate com o documentarista João Moreira Salles sobre o filme Santiago e as questões do tempo. Foi no Campo Lacaniano, portanto, para psicanalistas e interessados. Para quem assistiu o filme, vale a questão, para quem ainda não viu, quando sair em DVD assista pensando nisso.

Uma grande discussão no lançamento fazia referência a relação de subordinação entre o cineasta e o personagem. João explicou porque tinha falhado em fazer o filme 13 anos antes, deixou claro que fazer então era uma saída pessoal, uma resposta para a sua saúde, para resolver questões internas, sem maiores pretensões. Só assim, ao decidir expor a falta de sentido do filme, a pessoalidade do mesmo, conseguiu transformá-lo em algo universal. Descobriu no tempo que amadureceu um novo senso estético, viu como Santiago, o mordomo, deu um sentido para a vida em simplesmente ficar copiando histórias de aristocratas. É bastante, encontrou um sentido, quantos morrem imaginando que cumpriram as determinações de alguém maior?

Outro fato interessante foi a conscientização de que para um próximo projeto, somente a possibilidade de também fazer um filme intransferível, um filme que nenhum outro diretor pudesse fazer. Eis aí o encontro da própria linguagem, que liberta e acorrenta. Não gosto dos juros que o banco dos Moreira Salles cobra, mas gosto bastante do modo como eles utilizaram o dinheiro na formação de pessoas capazes e conscientes de uma contribuição para a discussão do mundo. Se eles não fossem tão exclusiva minoria nessa tão exclusiva elite brasileira, nosso universo estaria um pouco mais amplo. Em tempo, João é o criador da Piauí, uma ilha de bom gosto, ironia e inteligência nesse medíocre universo de consumo e exposição.

Biblioterapeuta: procure o seu

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Você já visitou o site da Escola da Vida do filósofo Alain de Botton? É um novo empreendimento deste jovem autor que fica no limite entre um intelectual e um guru de auto-ajuda. A The School of Life é uma espécie de Casa do Saber em Londres, ainda tem menos curso, a livraria parece ser mais focada e tem espaço para fazer terapia, com terapeutas da escola.

 O mais interessante é a criação de um programa de Biblioterapeutas, pessoas que podem auxiliar você a desenvolver e aproveitar melhor um programa de leitura. Depois de uma entrevista, defini-se um foco e os livros que poderiam auxiliar o aluno a atingir seus objetivos. Os livros podem ser lá comprados, a leitura pode ser acompanhada e depois checada com os biblioterapeutas, isso pode acontecer ao vivo, pelo telefone ou por e-mail. Quem quiser, www.theschooloflife.com.

Para os fãs do Nelson

arquivinho.jpg Fui hoje a Primavera dos Livros lá no Centro Cultural São Paulo. É a feira das chamadas pequenas editoras, vai até amanhã, quem gosta de livros, vale dar uma passada lá. A maioria das editoras vende com desconto. Para variar, o público era pequeno, lá não tinham celebridades…

Comprei o Arquivinho Nelson Rodrigues, é uma pasta com programas de peças, cartazes, dvd com entrevista e algumas opiniões. Barato não é, mas lá, com 40% de desconto fica bem mais acessível. Aliás, o trabalho da Bem-te-vi é dos mais interessantes. O do Nelson é o 4o. antes foram Vinícius de Moraes, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende. Produtos fetiches. Os fãs de Nelson não vão se arrepender.

Rimas confusas

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Não gostei desse primeiro livro que li do Amós Oz, Rimas da vida e da morte. Como ando fazendo cursos de escrita, o livro teria tudo para me parecer fascinante, de fato ele trás questões interessantes e conectadas com todo o mistério e curiosidade que gira em torno do escritor e da criação de seus personagens, mas a leitura foi arrastada, algumas cenas interessantes, a melhor delas foi a da brochada, de resto não consegui sequer me colocar no lugar do escritor de Oz e comparar o processo dele com minhas incipientes tentativas.

Talvez o ritmo e a quantidade de criação dos personagens, a divagação a partir do que se vê na frente, tenha aberto um leque muito grande, difícil de conduzir, perdi a atenção.O que li sobre o autor e os livros anteriores, mesmo sobre este livro, é bastante positivo, isso talvez me obrigue a lhe dar uma segunda chance, mas não foi uma decisão espontânea…

Reflexões verdadeiras

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Eis aí dois livrinhos, sim, livrinhos, um tem 48 páginas, o outro não muito mais do que 70 do escritor português Gonçalo Tavares, ganhador do prêmio Portugal Telecom do ano passado.

Eu já disse aqui, considero Gonçalo um dos mais interessantes escritores contemporâneos. O senhor Walser faz parte da coleção O bairro, uma série de livrinhos que homenageiam escritores, como se todos morassem num mesmo bairro, as histórias pegam alguma característica da obra desses escritores e se transpassam para a obra de Tavares. Aqui, a inspiração é Robert Walser e a discussão gira em torno da casa, construída para receber visitas mas cheia de problemas, como pode atestar quem já construiu, só que na literatura, os problemas são mais profundos, vão além de um mal mestre de obras…

Gostei mais do Histórias falsas, tem 9 histórias inspiradas na filosofia. A de Listo Mercatore é uma reflexão imperdível sobre o que vale a pena na vida, sobre o que é necessário, sobre o trade-off da vida com a profissão, na verdade, puxar o saco dos poderosos ou se contentar em comer lentilhas. Vale muito a leitura. A de Elia de Mirceia é a minha segunda favorita, trata do quanto só se atinge um estágio quando se está liberto da sombra protetora e inspiradora. Ótimas histórias para serem devoradas num dia e digeridas quase ao longo de uma vida.

Mais um conceito fundamental do Silvio Meira

beta.jpg Ah, tinha esquecido, um outro conceito fundamental do palestra do Silvio Meira: o ser humano é impreciso por natureza, por isso, tudo estará sempre na sua versão Beta. Odeio auto-ajuda, mas isso quer dizer que chega de esperar. Aliás, se quiser ler algo a respeito da espera que passe longe das prateleiras de imbecilidades numa livraria de best-sellers, basta ler o conto “Diante da Lei”, do Kafka, encontrado no Um médico rural.

Espelho XLII

Ser humano é precisar da tecnologia para rever velhas formas de entrar em contato com os sentimentos.

Para repensar a educação e a tecnologia nas nossas vidas

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Assisti hoje pela manhã uma palestra com o Silvio Meira, escolhi essa foto do site da revista Época porque acredito que ela reproduz um pouco do espírito dinâmico do Silvio. Era um evento da Talent, agência de propaganda, que se chama Interferências, o sobrenome era: O futuro tá vindo de enxurrada, como sobreviver no mundo em rede.

Silvio começou traçando um paralelo entre o problema de transporte do século XIX, o que fazer com a enorme projeção de geração de cocô de cavalo, o meio de transporte da época, com o de hoje, os engarrafamentos de automóveis, motos, camelôs e daqui a pouco, muito pouco, helicópteros. A solução não está na estrutura das cidades, sim na modelagem dos negócios, ou seja, não se trabalhar mais todos no “escritório da firma” e sim de casa, em rede, encontrando outras formas de saciar nossa sede gregária. A partir daí foi uma leitura bastante rica do impacto da tecnologia nas nossas vidas, de uma maneira muito sedutora.

As escolas, entidades autoconcientemente conservadoras, deveriam se transformar em espaço de possibilidade de aprendizado, incorporando a tecnologia, sim, isto envolve quebrar uma série de paradigmas, mas queira-se ou não, é isso que cada um de nós terá que fazer. Vale adicionar o blog do Silvio na rotina internética, é só clicar abaixo.

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Uma questão difícil

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Fui assistir ao documentário da Carla Gallo, O aborto dos outros, depois de duas semanas, apenas em um cinema em São Paulo, no que insisto em chamar de Belas Artes, apesar da aparente importante contribuição do HSBC. Aliás, para quem gosta de cinema, lá tem a volta do conceito de cine-clube, uma das salas vai funcionar como os velhos e saudosos cine-clubes. Diretores, obras, atores e atrizes importantes e fora dos roteiros desenho-animado de Hollywood ganham mais uma chance.

Em oposição à Hollywood está o filme de Carla Gallo. O cenário é pobre, mas fiel a realidade dessa questão no Brasil. Talvez fosse mais útil se mostrar um caso entre os milhares de abortos ilegais que acontecem no Brasil e estão representados no título do filme. Sempre é assim, o aborto acontece nas famílias dos outros. Foi importante para revigorar o meu post sobre a posição da Igreja Católica.

Quando o espelho entra, o movimento encanta mais

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Cruel é a nova coreografia do grupo da Deborah Colker apresentada nesta semana no Teatro Alfa em São Paulo. Este grupo e o Corpo são duas referências na dança contemporânea brasileira para mim. Curiosamente nas coreografias deste ano eu ainda preferi as anteriores.

Não posso reclamar, durante a apresentação tive, numa das variações entre uma valsa e uma música contemporânea agressiva tive um idéia das mais interessantes, era como se naquele momento o espetáculo ficasse como fundo das minhas idéias, foi um fundo inspirador.

Gostei mais do que aconteceu depois do intervalo, quando há um jogo de espelhos, se não houve um embasbacamento, há competência, se não houve um delírio, há o reconhecimento de um profissionalismo e uma garantia do selo de criadora corporal.

Nem todo livro é grande, mas o escritor sim!

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Em algum momento, toda família passa por acontecimentos extraordinários: crimes horríveis, enchentes e terremotos, acidentes incríveis, lances de sorte miraculosos, e não existe no mundo nenhuma família sem segredos e sem esqueletos no armário, baús fechados cheios de coisas escondidas que nos deixariam de queixo caído se fossem abertos.

Essa é uma frase dita por um ex-namorado da filha do personagem principal do último livro de Paul Auster. Para mim, já vale o livro. Gostei muito mais da parte que discorre sobre o relacionamento do avô com a neta deprimida do que dos momentos em que o crítico August Brill cria as histórias que o fazem encarar o tempo e a solidão. Essas histórias são tentativas de colocar a questão Bush e seus afluentes, num contexto de ficção.

Paul Auster é um grande escritor, este não é um grande livro dele, mas algumas vezes é melhor ler um livro médio de um grande escritor, do que um grande livro de um escritor médio.

O escritor contemporâneo

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O ator César Figueiredo interpreta o escritor contemporâneo em sua autocrítica diante da platéia no Sesc Avenida. Se você tem interesse por literatura e cultura, o próximo final de semana é a última oportunidade para assistir Literatura contemporânea, peça de Fernando Bonassi, sobre as agruras da criação e o papel do escritor e dos artistas em geral.

É um monólogo, gostei do ator, os recursos remetem a literatura, o texto é interessante. Para os iniciados é um ótimo programa. A corda, hora equilíbrio, maior parte do tempo amarra, ou adorno e sugestão de forca, é necessária, cumpre um papel importante. A ante-sala traz o tom, o programa merece ser guardado. Quer criar? Vá ver, nem que seja para sair com a sensação de que a criação está mais próxima do que antes…

O que o Vaticano e a igreja católica não querem enxergar

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O Estadão de hoje trás na página 2 um artigo do cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo P. Scherer. Pelas minhas convicções tendo a não ler esses emissários, mas a chamada do texto me causou uma revolta: Que mal fizeram esses bebês para que se trame contra sua vida?

Diante de tamanha apelação e absurdo, li todo o texto. Não pode ser mais contrário ao que penso. Ainda mais depois de ter assistido ao Ensaio sobre a cegueira, como comentei no post abaixo, o filme é um mergulho na alma humana, uma alma já bastante atormentada de nascença, sem a necessidade de instituições poderosas e ideológicas como a igreja precisarem espalhar o medo e a culpa. Tenho uma posição clara a favor do aborto, acredito que deva ser sempre uma decisão pessoal. Mas o texto não tratava disso, tratava sobre o aborto dos anencéfalos. Para mim, defender a vida (a breve vida) de um anencéfalo é tramar contra a vida de sua mãe, é expor a um sofrimento ainda maior uma mulher e o restante da família, é, numa posição radical, formação de rebanho, garantir culpados e sofredores para suas missas.

Já passou da hora dos religiosos, supostamente sem nenhum contato direto com a questão, enxergarem um pouco além de suas teóricas convicções. Minha resposta a Dom Odilo é uma outra pergunta: “Que mal fizeram essas mães para que se trame contra sua vida?”

Enxergue seu pior lado - Ensaio sobre a cegueira

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Voltei agora do cinema. O filme tem do Fernando Meirelles um ritmo, um nervosismo característico. Cheguei a ler algum crítico temendo que o diretor cedesse a mediocridade americana, não acho que o fez. O filme incomoda. Não pelo que se vê ou se enxerga, mas pelo que nos faz entender sobre nós mesmos. Não é agradável sabermos como tendemos a reagir em situações extremas, ainda mais quando cada extremo é relativo. Nem todos seguram e muitos já se entregam ao primeiro aperto.

Ver nosso lado ratazana não é digestivo, mas é necessário. Incomoda, sim, talvez ainda esteja com uma ligeira dor de cabeça. A música do Uakti contribui (isso é um elogio), o ritmo da câmera também, mas o que incomoda mesmo é ter que olhar para nosso espelho interno, o que ele mostra é o que muitas vezes tentamos fugir.

Sim, o livro é de ficção, sim o filme pode ser encarado como diversão, não importa como chegue lá, mas é importante sair da zona de conforto e exercitar seu aparelho visual, num exercício, diretamente conectado com o seu estômago e todo o aparelho perceptivo. Aliás, vale mencionar que o Fernando Meirelles é um dos entrevistados do Andy Smith no livro da Virgília: Jeito brasileiro.

Além de cor, por que não um pouco de ironia na vida?

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Depois da Estação Pinacoteca aproveitei e estendi minha visita ao Museu da Língua Portuguesa, ali ao lado, sim, numa região capaz de assustar alguns, mas se eu fui de muletas, você consegue ir apenas com seus medos.

A exposição em cartaz é Machado de Assis, mas este capítulo não é sério. Sempre acho as exposições deste museu um tanto tímidas, acho daquelas instituições que se beneficiam da necessidade e importância do tema. É claro que todos devem encontrar sua melhor relação com a Língua Portuguesa, é a única forma de encontrar a melhor relação com você mesmo.

Voltemos a Machado de Assis, antes de tudo uma confissão, não aguento mais as referências ao Bruxo do Cosme Velho, parece recurso para mostrar proximidade… Eu sou fã confesso, para quem não sabe, a editora Virgília e este blog, tem este nome baseado na personagem de Memórias póstumas de Brás Cubas. Assim, é lógico que vale a visita, nem que seja para ao estilo machadiano verificar o atestado de óbito dele. Além de estar claramente colocado cor branca, a profissão está funcionário público. É uma discussão pouco produtiva, se descobrirem posso tomar muita porrada, mas talvez estivesse na hora de algumas correções históricas. O país perderia um funcionário público, falta não faria, e ganharia um escritor, ganharia também um pardo, fundador da Academia Brasileira de Letras, correndo o risco de envergonhar um pouco de sua elite, mas talvez uma correção justa, nem reconhecida pelo próprio Machado de Assis. Não se tem preconceito neste país?

Vá a Estação Pinacoteca colorir seu dia

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Um programa dos mais interessantes é visitar a exposição de Beatriz Milhazes na Estação Pinacoteca. Dos vários quadros, quase uma dezena deles não ficam no Brasil, Milhazes é de longe a mais bem-sucedida artista brasileira no circuito internacional. Encontrou uma linguagem invasiva sem ser agressiva. É fácil gostar do que faz, em várias telas me impus a inglória tarefa de contar os tons, quase impossível, sempre que passava de 20, 20 e tantos já não tinha a certeza se aquele era um novo ou um já contabilizado. A mistura de elementos barrocos pega o expectador pelo histórico, as cores, impedem a classificação de passado.

Única artista brasileira viva a ter sua obra vendida por mais de 1 milhão de dólares, vale conferir, nem que seja para acompanhar a trajetória, se vai continuar ascendente, se vai voltar aos patamares brasileiros. Ir a Estação Pinacoteca é ficar exposto a arquitetura do centro, cuidado se for aos sábados, fiz um caminho para curtir exatamente essa decadência do centro e quando me dei conta não tinha mais como utilizar o estacionamento, fui dar uma volta, aí encontrei pessoas interessadas não nas cores de Milhazes, mas nas cores do José Paulino, lá se foram muitos minutos, também uma experiência fascinante.

Espelho XLI

Ser humano é lembrar do seu país, positivamente, apenas quando algum conterrâneo tem uma conquista importante, ou negativamente, quando se depara com as ineficiências ou absurdos pelos quais se faz pouco, se não, os reforça.