Santiago: Sentido da vida e obra intransferível
Assisti ontem um debate com o documentarista João Moreira Salles sobre o filme Santiago e as questões do tempo. Foi no Campo Lacaniano, portanto, para psicanalistas e interessados. Para quem assistiu o filme, vale a questão, para quem ainda não viu, quando sair em DVD assista pensando nisso.
Uma grande discussão no lançamento fazia referência a relação de subordinação entre o cineasta e o personagem. João explicou porque tinha falhado em fazer o filme 13 anos antes, deixou claro que fazer então era uma saída pessoal, uma resposta para a sua saúde, para resolver questões internas, sem maiores pretensões. Só assim, ao decidir expor a falta de sentido do filme, a pessoalidade do mesmo, conseguiu transformá-lo em algo universal. Descobriu no tempo que amadureceu um novo senso estético, viu como Santiago, o mordomo, deu um sentido para a vida em simplesmente ficar copiando histórias de aristocratas. É bastante, encontrou um sentido, quantos morrem imaginando que cumpriram as determinações de alguém maior?
Outro fato interessante foi a conscientização de que para um próximo projeto, somente a possibilidade de também fazer um filme intransferível, um filme que nenhum outro diretor pudesse fazer. Eis aí o encontro da própria linguagem, que liberta e acorrenta. Não gosto dos juros que o banco dos Moreira Salles cobra, mas gosto bastante do modo como eles utilizaram o dinheiro na formação de pessoas capazes e conscientes de uma contribuição para a discussão do mundo. Se eles não fossem tão exclusiva minoria nessa tão exclusiva elite brasileira, nosso universo estaria um pouco mais amplo. Em tempo, João é o criador da Piauí, uma ilha de bom gosto, ironia e inteligência nesse medíocre universo de consumo e exposição.
