Arquivo: Novembro de 2008



28a. Bienal de São Paulo - se não foi, não vá!

28bienal.jpg

Se a Bienal do Livro precisa se reinventar, não sei o que dizer da Bienal de Arte. Fui ao Ibirapuera no sábado e várias vezes me perguntei se a sensação de raiva que sentia podia ter algum lado positivo, conclui que não. Preferi mil vezes a exposição da Oca dos 60 anos do MAM. Aliás, ao admirar algumas obras do acervo do MAM percebe-se que várias são prêmios de aquisição de bienais anteriores. Se depender da 28a. o futuro do MAM não existirá.

Sempre desconfiei que os artistas plásticos queriam mesmo é virar escritores, as artes plásticas se renderam a literatura. Nós vencemos. Pendurem seus livros nas paredes de suas casas. Pelo menos essa foi a leitura que tive da Bienal. Não sou profundo conhecedor de arte, mas quase nada na Bienal prescindi da palavra, aquela velha regrinha de que obra fala outra linguagem não vale, lá tudo parece que foi feito para ser lido. Meus filhos adoraram as máquinas de escrever, mas é pouco para um evento que já foi importante. É triste ver o Ibirapuera tão vazio, achei que era só o segundo andar, mas é quase tudo, me desculpem os artistas presentes, é quase tudo, tudo mesmo. Foram fazer graça e confundiram obra de arte com obra, de construção, pelo menos essa é a sensação que os cenários com materiais de obras dão… Os escorregadores também servem para sair mais rápido de lá…

Barroco além da conta

concerto-barroco.jpg

Nunca tinha lido nada do cubano Alejo Carpentier, apenas elogios de outros escritores importantes. Quando saiu Concerto Barroco pela Companhia das Letras fiquei animado. A orelha falava de musicalidade, um conceito que busco identificar se tenho na escrita, comprei.

Li até o final, mas apenas porque o livro é curto. Não gostei, posso até estar cometendo alguma heresia, mas vou precisar de muitas justificativas para voltar a este autor. Parágrafos longos ao final dos quais percebia que ia para outro lugar. Talvez até esteja em fase de vida errada, mas acho que não. Me perdi nas descrições eruditas e carregadas, li a orelha algumas vezes, tentando entender a história toda. O autor considerava este, sua “suma teológica”. Suma cumprida, parto em busca de outros autores que fazem mais parte do meu time.

100 anos de Lévi-Strauss

claude1.jpgclaude2.jpg

Ontem Claude Lévi-Strauss fez 100 anos. Muito material foi produzido nos cadernos de cultura do final de semana anterior, vale resgatar. Um dos principais intelectuais vivos, o antropólogo francês veio viver no Brasil antes de fazer 30 trinta anos. Dos que com ele viveram parece que houve uma cobrança de envolvimento maior, quem veio depois (ele veio participar da formação da FFLCH da USP), participou mais. Ele preferiu os índios.

Já na década de 90 lançou os livros Saudades do Brasil e Saudades de São Paulo, meio que para compensar uma visão do Tristes trópicos e  de uma relação não tão próxima. Parece também que o Brasil lhe negou asilo na década de 40 e ele acabou nos Estados Unidos. De lá, aprofundou contato com os ameríndios. Não li nada dele, falo sobre o que li nos jornais.

Acho que merece o maior respeito por ter levantado há bastante tempo o perigo de um aspecto cruel da globalização, a pasteurização, a perda das identidades e riquezas culturais. Esse é um dos riscos mais sérios que corremos, está mais fácil sair desta imensa crise econômico-financeira do que sedimentar espaço para as particularidades de cada cultura.

A dignidade no grande tema

morte.jpg

Fiquei dois dias sem uma conexão estável para blogar. Ia fazer um comentário sobre o artigo de terça do João Pereira Coutinho na Ilustrada, vou manter a idéia, a seriedade do assunto merece, aliás, nada atormenta mais o ser humano.

A revista científica Lancet trouxe um estudo que diz que após 73 anos (para os homens) e 74 (para as mulheres) chega-se ao final de uma vida digna. É claro que a revista reconhece os avanços da medicina nas pequenas batalhas, mesmo em batalhas importantes como maleitas, diabetes, hipertensão e as várias cirurgias em áreas do corpo que ameaçam entrar em greve, mas ela aponta para a conclusão que medicina vence batalhas mas não vence a guerra. O autor interpreta a ânsia humana de prolongamento como doloroso e inútil.

Talvez seja útil assistir novamente ao Sétimo selo de Ingmar Bergman, lá um cavaleiro não aceita a morte sem entender o sentido da vida e mesmo tendo vencido-a numa partida de xadrez, segue por ela sendo perseguido. Assim como eu, assim como você. Eu já desisti de buscar o sentido, talvez o João Pereira Coutinho ainda mude de opinião sobre o tema, tem apenas 32 anos…

Compareça à noite de autógrafos da Virgília!

 Dia 25/11 das 19 às 22 hs no Escritório de Arte James Lisboa, Rua Melo Alves, 397. Jardins, São Paulo.

convite-acontece-nas-melhores-familias-marcelo.jpg

Receita para ser cultural

marcelorubenspaiva.jpg

No Caderno 2 de ontem Marcelo Rubens Paiva além de divulgar o lançamento do seu novo livro, A segunda vez que te conheci (25/11 livraria Argumento no RJ e 1/12, livraria da Vila, da Vila Madalena/SP) faz de um modo irônico um roteiro para quem quer ser cultural, oposição a playba, hippie, paty, nerd, entre outros. Ser cultural é ir ao cinema toda semana, ir ao teatro, ler livros, ou seja, é aproveitar o que São Paulo oferece (se você não mora em São Paulo, terá menos opções, ou então, apelar para o turismo cultural de final de semana). Morar em São Paulo e não ser cultural é como ir a Roma e não ver o papa, para ficar numa brincadeira raza. Se você quer começar, eis a listagem do Marcelo:

filmes dos diretores:
Cláudio Assis, Heitor Dhalia, Beto Brant, Walter Salles, Fernando Meirelles, Arnaldo Jabor (anda meio em outras mídias), Laís Bodanzky, José Padilha.
filmes com roteiros de:
Bráulio Mantovani, Marçal Aquino.
peças dos diretores ou grupos:
Aderbal Freire, Antunes Filho, Gerald Thomas, Felipe Hirsch, Mário Bortolotto, Parlapatões, Grupo Tapa, Latão
livros de:
Fernanda Young, Lourenço Mutarelli, Dalton Trevisan, João Paulo Cuenca, Dapieve, Contardo Caligaris
outros:
blog do Xico Sá, coleção Amores Expressos (livros da Companhia das Letras), Bienal, Sescs, Sesi, Centro Cultural…

É claro que também está falando da patota dele, mas o mundo é assim, concordo em 80% das indicações, mas se você utilizar a lista do Marcelo como guia, vai no mínimo estar bem consciente do que se produz no seu tempo. Se achar que deveria ser melhor, que tal partir da platéia para a autoria?

Espelho XLIX

Ser humano é abrir mão de uma variedade que demanda movimento e inquietação em troca de um movimento que não abre novos caminhos, mas fecha feridas oriundas da culpa.

Biblioteca, livros, Babel e pedidos de doação…

bibliotecadebabel.jpg

Na Folha de hoje Elio Gaspari trata de um assunto fundamental para a cultura brasileira: bibliotecas. Fazendo menção ao conto de Borges sobre a Biblioteca de Babel, aquela com todo o conhecimento do mundo, bastando ao homem apenas encontrar um jeito de decifrá-lo, e as bibliotecas de Brasília e Goiânia, ambas projetos de Niemeyer, ambas tendo custado milhões, com certeza acima do orçado, e ambas fechadas. Uma sem livros, outra sem funcionários e sem ainda ter pago a empreiteira. Falando em empreiteiras, elas deveriam doar bibliotecas para as cidades e governos para os quais fazem obras, seria uma forma de devolução, não o fazem porque temem que os livros contribuam para um crescimento moral e a conseqüente secura de sua fonte.

Mas infelizmente não são apenas essas duas bibliotecas que não tem a mínima condição de existência. É comum para as editoras receberem pedidos de doação de bibliotecas. A Virgília, apenas tendo publicado menos de 10 livros, recebe vários pedidos. Pode parecer choro de editor, mas lá fora, as bibliotecas viabilizam as editoras, algumas, geralmente as menores, vendem até 30% de seu volume para essas instituições. Isso garante que livros menos prováveis de se tornarem best-sellers, a maioria tem o grande defeito de ser inteligentes, consigam chegar a seus leitores, editores dispostos a interagir com seus autores não apenas para combinar como será a “manipulação” de personagens rasteiros e facilmente aceitos pela média burra, consigam fuçar fora do mainstream e garantir a riqueza cultural.
Estamos distantes disso, além da corrupção, convivemos mesmo é com os pedidos de doação, isso deixa claro que cultura nesse país ainda é facilmente confundível com voluntariado…

Este não pode faltar na sua estante!

poesiacompleta.jpg

Poucas vezes acabei um livro com a sensação de que se tratava de algo especial, bem especial. Poesia completa de José Paulo Paes foi um deles. Se você gosta de poesia, uma ótima oportunidade para ler algo dos mais inteligentes, carregado de opiniões sociais. Se não gosta, vai ser difícil resistir as sacadas de José Paulo Paes. O prefácio escrito por Rodrigo Naves me fez lamentar muito não ter convivido com o poeta e ensaísta. Ainda lembro do Folhetim sobre Frankenstein…

Além de poeta, era ensaísta e crítico (comprei também Armazem literário, com seus ensaiso, mas esse ainda não li), trabalhou na indústria farmacêutica e em editora, mas contribui bastante com a cultura brasileira. Visto como homem de cultura sem ligação com a universidade, mas respeitado por ela, escreveu poesias capazes de me deixar com aquela sensação de porrada. O que escreveu para digerir a amputação de sua perna esquerda é muito forte. Deixo aqui um pequeno poema sobre a beleza:

 Borboleta

Mal saíra do casulo
para mostrar ao sol
o esplendor de suas asas
um pé distraído a pisou.

(a visão da beleza
dura um só instante
inesquecível).

Aprenda sobre as mulheres com os irmãos Dardenne

silencio-de-lorna.jpgsilencio-de-lorna1.jpgsilencio-de-lorna2.jpg

Esse é para quem gosta de filme “europeu” (quem disse que essa categoria existe…). Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, duas vezes ganhadores da Palma de Ouro em Cannes e adorados pelo pessoal desse festival voltam com um filme sombrio, lento que vai soltando sua trama aos poucos: O silêncio de Lorna.

Uma imigrante casa para obter visto de cidadania belga e transformar isso num modo de ganhar dinheiro para viabilizar o sonho da lanchonete com o namorado. O marido é um viciado tentando abandonar o vício, demanda que requer mais do que o simples contrato monetário daquele casamento. Lorna se envolve com ele e nos diz muito sobre as mulheres. Sobre sentimentos nos “negócios” e na maternidade. Se você assistir, pode ter certeza que sairá do cinema sabendo muito mais como as mulheres sentem e podem se comportar e também ainda disposto a discutir o que aconteceu. Se fosse alguma questão masculina, não haveria espaço para essa dúvida, e isso é um elogio às mulheres.

Eu tenho inveja do Eric Lax…

conversas.jpg

Comprei e só li a apresentação, não sei quando vou conseguir encaixar nas minhas leituras, da bela edição das entrevistas do jornalista Eric Lax com o diretor Woody Allen. Conversas com Woody Allen, CosacNaify, apresenta essa relação do jornalista com o artista, eu adoraria estar no lugar de Lax. Ele viu um comediante metido a escrever para a New Yorker se transformar num artista complexo, interessante e menos engraçado que o original, mas mais denso e representativo de qualquer outro que tentou ou tenta arrancar risos.

Além de fotos e detalhes dos filmes, interpretações sobre características da obra e do pensamento de Allen.

Espelho XLVIII

Ser humano é desejar e odiar uma mesma coisa, muitas vezes a um mesmo tempo, muitas vezes numa intensidade similar…

Freud, ou os fins justificam os meios…

freud.jpg

Nunca tinha lido nada mais profundo sobre Freud. Comprei a biografia escrita pelo Peter Gay, Uma vida para nosso tempo e também o livro do Renato Mezan, O pensador da cultura. Dois livros parrudos que de um jeito ou outro não me clamaram à leitura. Quando me deparei com esse da série Breves Biografias, - Freud - Criador da mente moderna - decidi diminuir minha ignorância.

Valeu a pena, muitas vezes senti falta de um texto mais fluido, mas deu para conhecer melhor o modo de pensar de Freud. Pessoa difícil, assumidamente carente de amigos e inimigos, e nem tão assumidamente capaz de revelar o quanto transformou suas interpretações em fatos. Também fica claro que não praticava o que pregava, mas isso não é tão grave quando se percebe que praticava e criava a teoria ao mesmo tempo. Muitas de suas interpretações foram questionadas, algumas destruídas, mas ele sistematizou algo novo. O seu incosciente, você deve a ele.

Interpretação dos sonhos, um de seus principais livros, e depois um grande best-seller, vendeu durante os primeiros 10 anos uma média de 75 cópias. Ele tinha um pouco da consciência da dificuldade de sua tarefa, mas dela não desistiu. Durante a Guerra temeu por sua sobrevivência e aceitou pagamento em batatas. No final da vida, quando cobrava 20 dólares por consulta, esnobou 100.000 dólares para contar ao senhor Goldwyn, da MGM, como as mentes funcionavam (desde o início a indústria de Hollywood foi profissional na tentativa não só de conquista de seu público…). Mas sem ele, as famílias continuariam a ser estruturas tão complexas quanto são, só que sem a capacidade de olhar um para o outro com toda a ambigüidade que ajudou a ver.

Visite a Paralela, lá tem a inspiração da Bienal 2008

paralela.jpg

Vale a pena visitar a Paralela 08, de perto e de longe, fica lá no galpão do Liceu de Artes e Ofícios, aliás, um lugar que mereceria ser mais utilizado, apesar do calor. Quando se chega, a portinha acima não promete, mas o teto do galpão é dos mais bonitos.

Tem um panorama interessante da arte contemporânea brasileira, uma nova geração que cria e mostra o seu estilo. Minha filha de 4 anos pôde interagir com várias obras. Se você não gostar, vá daí para a igreja de Santo Expedito, ali do lado, o padroeiro das causas urgentes, talvez ele dê um jeito no seu senso estético.

Uma provocação à Bienal, lá tem uma foto do Rubens Mano de 2001 ou 2002. O que é a foto? Um andar do Pavilhão da Bienal vazio. Ainda vou visitar a Bienal, vou verificar no andar vazio tem o crédito do Rubens Mano…

Ela não se queixa, mas eu me queixo - Marília Gabriela

mariliagabriela.jpg

Assisti hoje a última apresentação desta temporada de Aquela mulher, texto do José Eduardo Angalusa, direção de Antonio Fagundes e presença única de Marília Gabriela no palco. A peça volta no ano que vem, mas eu não recomendo, não gostei.

Não gostei de nada. Achei a atriz, forçada no início, desencontrada no final, num figurino de deusa mulher, com asas e salto altos que impediam deslocamentos naturais, mesmo teatrais. O texto também não me agradou. Acho difícil fazer arte sobre algo tão forte e tão recente. As piadas com a Marisa Letícia me parecem fáceis e de mal gosto, Hillary e Bill poderiam inspirar discussões mais ricas sobre poder, traição e relacionamentos…

Quem sabe o que quer? Woody Allen e as mulheres

vicky1.jpgvicky2.jpgvicky3.jpgvicky5.jpgallen1.jpg

Falar de Woody Allen para mim é arriscar-se a misturar razão e emoção. Já disse aqui que ele e Bergman são meus dois cineastas favoritos (juro que não é por inspiração de Allen que, segundo dizem, queria ser Bergman, mas, segundo eu, tem muito humor para isso…). Acabo de assistir Vicky, Cristina, Barcelona. Além de boas gargalhadas (humor inteligente, se você for assistir não se sinta obrigado a rir), dá-se para discutir bastante a vida e os sentimentos.

Um protesto, quase não há fotos de divulgação de Rebecca Hall, a Vicky (a foto acima não está relacionada ao filme), atriz que mexeu com meus instintos masculinos bem mais do que Scarlett Johansson e até mesmo Penélope Cruz.

O filme narra a história de duas amigas americanas de férias em Barcelona. Uma saber o que quer, outra, apenas o que não quer. Uma pragmática, outra romântica, as duas se envolvem com um pintor quase canastrão, ainda muito ligado a ex-explosiva mulher. A partir daí Allen constrói uma teia de relacionamentos humanos para provar que o difícil mesmo é a gente saber o que quer o tempo todo. Seguindo a linha do post sobre Madame Bovary e a traição virtual, só não vale mesmo é ficar como a July (tia da Vicky), tentando resolver a vida dos outros já que a sua, bem a sua, está amarrada demais para tentar, amarrada em conforto e segurança.

A crítica diz que é uma volta de Allen a bons tempos. Mas não se pode considerar Woody Allen sem pensar no conjunto da obra. Um filme por ano, todos, no mínimo, com textos inteligentes e fora do mainstream do cinema americano (tanto é que nos últimos 3 ou 4 filmes foi para a Europa). Não perca Vicky, Cristina, Barcelona e veja com que personagem seus instintos mais combinam…

Ação, reflexão, o romance e as praias

cony.jpg

Admito que tenho algumas resistências ao Carlos Heitor Cony, lembro que li e gostei bastante do Quase memória, mas lá se vai mais de década e naquela época eu não fazia anotações algumas nos livros. Sei que sua obra está sendo relançada, até comprei O ventre, seu romance de estréia que ainda não li. Dos colunistas da Folha é um dos que menos leio, associo a Manchete, seminário e um conservadorismo exagerado. Mas patrulheiro em relação ao preconceito, sempre inicio a leitura.

O da Ilustrada de ontem foi dos mais úteis, trata da divisão do romance em duas vertentes básicas: ação e reflexão. Admite que alguns tem um pouco dos dois, mas conclui que à literatura caberia mais a reflexão e ao cinema e até teatro, a matéria-prima adequada seria a ação. Lembra Glauber Rocha que disse “José de Alencar foi um rio, Machado de Assis, um bica d’água”. Justifica que talvez por isso Machado de Assis nunca tenha alcançado o público que merece no exterior, ao contrário de Jorge Amado, vendeu milhões. Jorge Amado seguiria a linha de José de Alencar e permitiria aos gringos matar sua curiosidade de tipos tropicais. Para as reflexões, esses mesmos gringos, leriam os locais. Faz sentido.

Colocou também que prefere não ter seus romances adaptados para mídia de ação, algumas vezes, preferiu criar obras específicas já com esta necessidade embutida. Para quem escreve fica a questão: como Cony, “com as minhas limitações, procuro refletir sobre a condição humana em vez de narrá-la”, ou como Alencar, Amado e tantos outros, “colocar muita ação em personagens dramáticos”. Talvez esteja aí uma diferença entre o livro sucesso de crítica e o livro sucesso de público. Poucos conseguem ser os dois ao mesmo tempo. Se e quando Paulo Coelho ganhar o prêmio Nobel, não tenho dúvida que o próprio Albert Nobel encontraria um jeito de voltar e declarar extinto o prêmio, aí, em todas as áreas, o abuso teria sido excessivo…

Madame Bovary também é você - nem que virtualmente…

madamebovary1.jpg

Há poucos dias fiz um post sobre Madame Bovary, mas clássico é isso, inspira em outras áreas. Para quem não leu a coluna do Contardo Calligaris ontem na Folha de S. Paulo, recomendo fortemente. Uma continuidade da semana anterior, discutindo pornografia na internet e traição. Emma Bovary, parafraseando Flaubert, pode ser eu, você ou qualquer pessoa, mas desta vez, sem a necessidade da carruagem à proteger as aventuras. Agora utiliza-se a rapidez da conexão que aproxima as idéias e as palavras mas afasta os corpos.

Mas discutir os Bovarys é discutir o tédio na existência. Como ele anda na sua? Como anda o seu relacionamento? Não dá para ter descanso. Se o ímpeto da resposta sugeriu “estável” eis algo que não se sustenta. Leia o Contardo, com um pouco mais de fôlego leia Madame Bovary mas faça algo de prático, sem fazer nada, lhe restará escolher um dos lados do livro, quem será Charles? Quem será Emma? O pior é se os dois forem Charles, aí, haja monotonia. Mas ainda pior é ser salvo apenas por um movimento dos dedos no teclado…