Novembro de 2008

Eu já gostava de aforismos muito antes de gostar de Nietzsche. Uma boa frase, bem pensada, bem sacada serve como inspiração para reflexões e até ações. Gosto também bastante do Daniel Piza, não perco suas críticas aos domingos, assim, não me restou chance a não ser comprar o novo livro dele, uma compilação da última parte de sua coluna nos jornais por onde passou: Aforismos sem juízo, nome também do livro. O único risco que se corre, é ficar na superfície das sentenças, perder o muito do que não foi dito… As revisitas servem para que? Inclusive já usei uma frase numa orelha de um livro.
Novembro de 2008
Ser humano é desafiar o que já está entendido, forçar os limites. Mas ser humano é também esperar que um outro faça isso, esperar brigando apenas pelo conforto.
Novembro de 2008

Fui com o meu filho de 11 anos visitar a exposição sobre Albert Einstein no Parque Ibirapuera. É uma exposição que demanda leitura de legendas e painéis, ele estava meio desanimado de início, eu também, não estou acostumado a ler sobre ciências, entendo pouco. Algumas coisas mais práticas vão aparecendo e convidando o visitante a interagir, fica bem melhor. Mas num questionamento interno fiquei divagando se para um cientista, os meandros da literatura, da cultura, também não podem parecer tão distantes quanto alguns pontos da física ou química chegam a me parecer.
Do meio para o final, aquela reação típica dos homens, gostam quando entendem, sentem-se muito melhor. Dá para sair de lá com conceitos interessantes da E=mxc2 e de outras contribuições de Einstein. Também detalhes da vida pessoal permitem criar o personagem como um duto dentro do visitante. Achei o filme 3D muito pobre, imagino que uma narração não encarecia quase nada e faria uma total diferença para o público leigo. Cometi o erro de deixar a outra parte da família apenas no parque, nos demandaram e não tivemos tempo para explorar os laboratórios. É um bom programa e se estende fácil para 2 ou 3 horas.
O negativo fica para o material entulhado que se tem visão antes de chegar a portaria e a falta de limpeza e conservação de alguns pôsteres, nada grave, mas como dizem por aí, sem a concordância de Einstein, deus está nos detalhes… Também achei o pequeno complemento artístico bem fraco, exceção a Guto Lacaz e mais um outro que não me lembro, não é preciso dizer muito para comprovar no campo artístico a relatividade de Einstein, um trabalho de Gustavo Rosa, dá a cara da exposição, bota a língua para ele Einstein…
Novembro de 2008
Acabo de abrir um novo negócio… Um curso de extensão cultural às assessoras fashion do Shopping Cidade Jardim. Atenção diretoria do Shopping, cobro mais barato que uma dessas bolsas que dizem, geram filas, ou pelo menos geravam, quando o dinheiro fictício do mercado era utilizado para saciar, também ficticiamente, as necessidades desses endinheirados.
Que vantagens teriam? De repente, poderiam também incluir uma visita à Livraria da Vila, hoje a livraria mais bonita do Brasil, e teriam mais assuntos, talvez possamos escolher alguma obra especializada em substantivos de elogios, é sempre útil para parecer autêntica. Hoje, tenho certeza que não devem ter lido nada além de O segredo e A cabana (se você leu e gostou desses livros, não está visitando o lugar errado?) ou outros títulos concorrentes. Se você não está entendo nada, sugiro a leitura da matéria de hoje da Revista da Folha. O Shopping oferece agora esse novo serviço, assessoras para estimular a venda das lojas e a segurança da compradora, a pessoa preenche uma ficha e torna seu perfil conhecido pelas especialistas que fzem uma busca prévia. A escolhida para a matéria queria dicas de roupas para passar o final de semana com o marido e os filhos… Daqui a pouco o ser humano vai estar precisando de dicas para que? Talvez eu também peça ajuda, minha mãe virá para São Paulo na próxima semana, que roupa preciso comprar para encontrá-la?
Ridículo tudo isso. Mas ao invés de ficar apenas criticando, coloco-me à disposição do Shopping para dar dicas básicas de cultura e literatura, para que no mínimo, as tais Assessoras Fashion, possam fazer um tipo. Tem uma enorme parte das pessoas que prefere um subproduto do livro, o pouco de credibilidade e “inteligência” que ele transfere. Já imaginou, se além de a blusinha ideal para uma mãe sair com os filhos e o maridão, elas souberem falar de um livro fantástico, é muito mais valor agregado…
Novembro de 2008

Acabei a leitura de Dom Casmurro, talvez o livro mais discutido de Machado de Assis, Bentinho e, principalmente, Capitu já são personagens de discussões, inspiração para novelas, vivem no imaginário dos brasileiros. O tanto que se fala da história, me impede de lembrar se já o lera na adolescência. Gostei, insisto, Machado de Assis tem o dom de me fazer ler com movimentos imaginários na boca, um riso que não chega a se formar, mas sempre se insinua.
Ainda prefiro Memórias póstumas de Brás Cubas, mas Dom Casmurro é interessante. Aos religiosos recomendo a leitura para uma revisão da estratégia das promessas. José Dias, o agregado da família Santiago não deixa dúvidas sobre esse papel ainda presente na cultura brasileira, atira para todos os lados, sempre sem saber de onde virá a migalha mais consistente. Machado de Assis deixa claro o risco da evolução de quadrados amorosos, sem julgamento moral, apenas da facilidade de confusão entre fatos, sentimentos e situações. Não quero aqui concluir se houve ou não a traição, mas o livro pode fazer o leitor refletir sobre as dores e as conseqüências do adultério e o quanto elas são transferidas para as proles. A psicanálise e todas as outras psis têm sobrevida garantida…
Novembro de 2008
X 
Um visitante amigo deste blog me “acusou” de incoerência por ter anulado o meu voto na eleição para prefeito em São Paulo e ter declarado apoio a Barack Obama. Achei que valiam alguns esclarecimentos.
Primeiro, os anos já me mostraram que anular o voto não é uma postura anti-democrática, meu amigo, ainda na faixa dos 30, tenho certeza, vai também achar isso. Eu não justifiquei, democraticamente fui até a PUC e optei, sem nenhuma conotação partidária, por não votar em nenhum dos dois candidatos. Fiz isso democraticamente, aliás, por não concordar com o jogo democrático por trás dessa e de várias outras campanhas brasileiras. Sim, como já disse aqui, torci por apenas dois candidatos nessas eleições, Fernando Gabeira para prefeito do Rio de Janeiro e Barack Obama para presidente dos Estados Unidos. No fundo, só leva minha torcida quem apresenta um mínimo de proposta de mudança, não me esquecendo que as necessidades de mudança são completamente diferentes nas duas situações.
O mais importante é deixar claro, que não é porque anulei o meu voto que não tenho o direito de participar, reclamar ou até contribuir. Isso sim é democracia, ainda o melhor sistema disponível, mas um sistema injusto para as minorias, até mesmo para as minorias esclarecidas, desiludidas e conscientes da condição humana, e nem assim, dispostas a se aproximar do poder do estado, porque sabem que para isso teriam que mentir, inclusive sobre sua própria condição pessoal (como fizeram os dois cidadãos nas fotos acima). Lembrei agora de um saudoso professor, Maurício Tragtenberg, um grande intelectual autodidata. Cada vez mais entendo o que não entendia nele, a opção pelo anarquismo…
Novembro de 2008

Quem estiver procurando um bom programa para este final de semana em São Paulo deve seriamente considerar a apresentação da São Paulo Companhia de Dança no teatro Alfa. Não acompanhei e não me considero conhecedor para entrar nas polêmicas que envolvem a Companhia, seja de sua criação, seja da arquitetura do teatro que a abrigará. O que sei é ser impactado pelo seu trabalho, isso fui.
Incluir uma peça contemporânea entre duas obras clássicas da dança no século XX é um artíficio dos mais ilustrativos para quem quer entender um pouco a evolução da dança. Gostei muito da Les Noces, a música de Stravinksy não dá uma folga, fica lá o tempo todo causando um estranhamento bem vindo. Já em Serenade as mulheres recuperam todos os seus sonhos de ser bailarinas e voam nas transparências das saias.
Novembro de 2008
Ser humano é também apostar na possibilidade de mudança, por mais que história insista em mostrar o contrário, ou, no mínimo, a lentidão. Mas é também iludir-se, imaginando que o desejado coletivo comporte todos os individuais.
(dedicado a vitória de Barack Obama, em 1965, quando eu nasci, os negros ainda lutavam apenas para poder votar)
Novembro de 2008

Faço uma oficina de contos com o autor, Marne Lúcio Guedes, eis a minha oportunidade de vingança a todos os comentários que não gostei nos meus textos…
Eu busco outros elementos na literatura, mas é inegável que a obra reflete o autor, ler é o mesmo que ouvir o Marne falando, defendendo os seus pontos de vista, isso é um enorme elogio, o livro existe também para quem não conhece o autor. Marne não foge, em alguns momentos até exagera no teatral, mas Cio deixa claro que há um período favorável ao gestacional da voz de um autor que voltará, que já tem o que dizer. Ao fugir do morno, Marne talvez afugente leitores mais conservadores, leitores que insistem em não enxergar o que vêem dentro de si. Mas a literatura não serve apenas para distrair e acomodar. Se você está em busca de uma leitura para testar alguns limites, eis algo novo.
Novembro de 2008

Sou fã confesso do escritor Philip Roth, isso me fez desconsiderar as críticas negativas e ir assistir ao filme Fatal, da diretora espanhola Isabel Coixet com Ben Kingsley e Penélope Cruz, baseado no livro Animal agonizante. Li há uns três anos, o suficiente para não lembrar detalhes.
Mas gostei e identifiquei o livro lá, a crítica achou mais meloso do que a temática de Roth. Não é óbvio, seria impossível criar um final feliz, sim, apela para o emocional, mas acho que num tom razoável. Mostra um pai descobrindo um sentimento estranho no final da vida, mostra um filho assumindo um desejo estranho para quem foi “abandonado”, mostra que gerações diferentes têm dificuldades de encontrar pontos de intersecção, mostra que a vida não é previsível, por mais que muitos se esforcem, e até consigam, sempre na mediocridade, um certo horizonte de planejamento. Dá para repensar vários pontos.
Não é um puta filme, mas para mim, mereceria 3 estrelas na média, e não as 2 dadas pelos críticos da Folha de S. Paulo.
Novembro de 2008

Nessas eleições, aqui e nos Estados Unidos, só me empolguei com dois candidatos, Gabeira e Barack Obama. Mas voto em São Paulo, onde no segundo turno, preferi anular meu voto. Torci por Gabeira, é verdade que muito mais para checar se seria viável o que imaginei como um governo Gabeira na prática, a derrota me preservou a esperança, ufa!
Já lá nos Estados Unidos acho importante a vitória de Obama, não o imagino fazer todo o necessário, mas é simbólico, e na faixa dos 40, aprendi a importância disso. Aquela economia (não acho justo classificar os Estados Unidos com outra palavra) precisa ser confrontada com alguns desses desafios, além de se livrar de todo o absurdo conservador que Bush e seus coleguinhas colocaram na pauta, se continuarem, até a cultura norte-americana vai ficar mais estreita, bem mais estreita e desanimar os poucos artistas independentes que existem, reminiscentes…
Muda pouco, mas é um pouco que é muito diante do tamanho e do conservadorismo americano. Tomara que surpresas inconfessáveis não apareçam de última hora.
Novembro de 2008

O Ignácio de Loyola Brandão que me desculpe, mas o Jabuti de livro do ano é simbolicamente do Cristovão Tezza. Coisas de premiação, não li o livro do Loyola e não vou ler, já li o livro do Tezza, e talvez releia. Achei até que tinha feito algum post, por alguma razão não fiz, deve ser porque acabei no dia 30/12 e a conexão lá da praia estava ruim.
Peguei-o e fui rever algumas anotações. Gostei bastante do livro, escrevi mais sobre a dificuldade do tema, talvez isso tenha sensibilizado os vários juris, mas não tira o mérito do autor, tema difícil é sempre mais trabalhoso, só quem já tentou criar algo tendo que se colocar, o que é desejável e o que não é, sabe, ou pode imaginar.
O livro de Tezza é libertador, enterra o politicamente correto e deixa os pais assumirem que tem momentos que seria melhor não ter tido filhos. Quem não consegue assumir isso deve ter dificuldades em ter uma vida sincera, porque quem mente para filho, mente para qualquer um. Tezza mostra também o quanto um filho é capaz de fazer crescer e também recompensar, nada mais diretamente ligado a vida do que filho, nada mais próximo a essa dubiedade. Se fosse aderir a moda dos consultórios dos tempos atuais, todo pai seria “bipolar”…
Novembro de 2008

Assisti hoje a última apresentação desta temporada de O Natimorto, peça dirigida por Mário Bortolotto e baseada no livro de Lourenço Mutarelli. A peça foi uma iniciativa da atriz Maria Manoella, que divide o palco com Nilton Bicudo, há mais uma atriz, mas ela hoje foi substituída por outra que não me lembro o nome. A interpretação dos dois é bastante profunda, boa, acentua a estranheza do texto.
Depois de um tempo você esquece o estranhamento e entra nos questionamentos e consegue entender que quando você encontra alguém com quem lhe pareça viável dividir a vida, não é tão absurdo assim a tentativa de viver isolado de um mundo capaz de te agredir. Como diz o candidato a escritor e a assexuado, “a vida é uma doença fatal, transmissível sexualmente”… Ou então, “uma vida pura só terá um natimorto, protegido no útero de uma mãe”. A partir da semana que vem estarão no Rio de Janeiro, cariocas que votaram no Paes e no Gabeira devem ir, principalmente os que votaram no Paes, esses sim, precisam repensar a vida…
Novembro de 2008

Já devo ter manifestado aqui o quanto acompanho a produção jornalística do Daniel Piza, alguém bastante lúcido e positivamente crítico de uma sociedade que tende ao medíocre. Mas sou obrigado a discordar de sua posição em relação ao que resolveu chamar de Síndrome da Overdose Cultural.
Sim, concordo que há muita coisa diferente do que eu gostaria, mas é necessário sim ter uma diversidade, não concordo com o “quantidade gera… quantidade” do Piza, é lógico que só quantidade não é suficiente. Mas não é porque apenas alguns poucos filmes da Mostra são ótimos que se deve diminuí-la, o ser humano nunca vai acertar nessa equação entre a quantidade e a qualidade, acho temeroso iniciarmos restrições qualitativas. Eu optei por não ir a nenhum filme da Mostra, corro o risco de algo que gostaria de ter assistido não entrar em circuito “comercial”, mas é assim.
Infelizmente muita coisa nem tão boa será feita, contribuirá para essa sensação de síndrome, mas aí é que entram a imprensa e os formadores de opinião. Cada vez mais será necessário separar o joio do trigo, taí, uma das mais gostosas tarefas que restará ao ser humano. Que a Virada Cultural e outras iniciativas continuem a prosperar em São Paulo, nem elas parecem suficientes para tirar o tédio das vidas das Emmas e Amys que circulam em São Paulo e em todas as outras cidades brasileiras, como muitíssimo bem apontado na parte principal da coluna do Estadão de hoje.
Novembro de 2008
Ser humano é avaliar o passado e projetar o futuro, toda vez que se faz aniversário. É ser condescendente com o ritmo, quase sempre aquém dos desejos.
Novembro de 2008

No caderno de final de semana do Valor de ontem tinha uma interessante entrevista com Carlos Guilherme Mota e Adriana Lopez, autores do História do Brasil - uma interpretação, fiquei mais curioso com o livro que chegou pelo portador alguns minutos depois. Dei uma folhada e tomei a decisão de iniciar sim a leitura, vai ser um desafio, encarar as mais de 1.000 páginas no meio de tantos outros livros, mas algo que colabore assim para entender e palpitar sobre nossa história é sempre um esforço válido. Vamos ver quanto tempo vai demorar, mesmo porque, não é um livro que aceite ser levado para a cama, é pesado demais, vai ser leitura diurna…
Chegou também o livro acima, Ideologia da cultura brasileira, também do Carlos Guilherme Mota, esse da editora 34. É uma nova edição do livro lançado em 1977. Há no final um “álbum de fotos” e frases de brasileiros que se propuseram a pensar nossa cultura. Me impactou bastante a de Paulo Emílio Salles Gomes, ex-marido de Lygia Fagundes Telles, intelectual importante, diante de um cartaz de um filme do Zé do Caixão, declara: “A gente encontra tanto de nós num mau filme (brasileiro) - que pode ser revelador em tanta coisa da nossa problemática, da nossa cultura, do nosso subdesenvolvimento, da nossa boçalidade, inseparável da nossa humanidade - que, em última análise, é muito mais estimulante para o espírito e para a cultura cuidar dessas coisas ruins do que ficar consumindo no maior conforto intelectual e na maior satisfação estética o produto estrangeiro”
Novembro de 2008

Não sei exatamente em que dia, apenas que foi em novembro de 2007 que esse siteblog começou. Foram 239 posts, próximo ao que imaginava ser capaz de entregar, quase 5 posts por semana, longe das dezenas diárias dos blogs mais ativos.
Mas este é um canal de divulgação dos livros da Virgília, foram 7 nesse período, um pouco abaixo dos 10 planejados, saem mais dois ainda este ano. É um canal de expressão da voz do editor, opiniões sobre livros, filmes, peças, shows e outros fatos que impactem a cultura brasileira.
A foto acima é da fotógrafa portuguesa, Ana Luísa Moreira, acredito que ela expressa um pouco da visão e da estética deste blog, assim é o bolo de aniversário da Virgília. Se você me entendeu, devo continuar passando por aqui, nem que seja de maneira esporádica, se não, ainda é bem vindo nesta discreta luta para que o conteúdo e a profundidade prevaleçam num mundo cada vez mais superficial e vazio, fácil de se aderir.