Arquivo: Janeiro de 2009



Coelho morre - John Updike

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Morreu ontem John Updike, e eu continuo perdendo para a imensidão da literatura. Não tinha lido nada dele, tinha considerado o Cidadezinhas, lançado no final de 2008, mas pelas críticas achei que seria melhor focar na tetralogia do Coelho: Coelho em crise, Coelho cresce, Coelho corre, Coelho cai. Toda ela esgotada. Acho que a Companhia das Letras deverá reeditá-la.

Além do estilo de Updike meu interesse é descobrir se o campeonato de basquete que perdi é minha garantia para ter um destino “melhor” que o do coelho. Do que li, é um retrato de muito do que temo e vem para cima de mim de forma natural. Resta a dúvida se antes encaro o coelho ou tento reescrever o meu coelho…

Narciso, Vik Muniz e um estilo próprio

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Se você é do Rio de Janeiro ou está de passagem vale a pena visitar o MAM e a exposição do Vik Muniz. É um trabalho sem grandes inovações estéticas mas com um jogo de percepção dos mais interessantes. Narciso? Qual? Lá descobri que Vik chegou a esse estilo meio por acaso. Diz a lenda que ele perdeu o primeiro livro de fotografia que comprou ao imigrar para os Estados Unidos. Era um livro sobre fotos clássicas da revista Life. Depois de um tempo Vik tentou reproduzir de cabeça as fotos do livro, em desenhos para apresentar não lembro onde.

Não gostou de seus desenhos e resolveu então fotografá-los com um foco não exato para encontrar nas deformações a perfeição que não tinha conseguido nos traços. Nascia ali um estilo que o tornou conhecido no mundo todo. Agora passa de material em material relendo obras clássicas ou fazendo jogos de interpretação. Aliás, como diz Vik, ou sei lá eu se alguém também já disse, a cópia de uma cópia é um original, ou então, o que é mais duradouro, a imagem ou sua reprodução?

Vik precisa da cumplicidade de quem olha para completar os seus quadros. Na verdade, todo artista precisa, esse acho que é seu ponto mais fraco, entrega tudo de bandeja. Mesmo assim, vale ver.

Espelho LIV

Ser humano é ter preguiça e medo de encarar questões morais e éticas que quase sempre acabam com a zona de conforto, é preferir o superficial, fingir que não processa, adiar o espelho, sempre com a esperança que o perdão sobreporá. Em termos individuais, funciona, em coletivos, não se anda.

De onde devemos buscar nossas referências?

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O mercado, famosa entidade máxima da sociedade capitalista é soberano, democrático, exibe e reserva lugar ao sol para todos. Numa sociedade de tradição oral, como lembrou Antonio Carlos de Almeida no suplemento Eu&final de semana do último Valor de sexta, para lembrar porque o brasileiro e o seu representante mor, lêem tão pouco, o pouco que se le é muitas vezes de se perguntar, é melhor não ler nada ou ler isso?

Quem precisar aprender algo com a tal da baleia do Sea World (O que a baleia Shamu me ensinou sobre a vida, amor e casamento)  não está olhando em volta, é triste imaginar que existe mercado para esse tipo de livro. Ainda não me conformo com os livros de histórias de cães e gatos, por mais que esses dominem espaços no passado reservados a exemplares humanos. A tentativa de facilitar as coisas é sempre perigosa, sempre corre-se o risco de passar do ponto. Preconceituosamente, porque sequer peguei o livro, apenas o vi na vitrine da livraria do aeroporto ontem, convoco todos a repensarem se precisam mesmo de tudo tão mastigado. Editores, livreiros, leitores, qual é o mínimo que nos garanta uma evolução de uma geração para a outra?

Falando em vida inteligente recomendo fortemente a leitura do artigo do Renato Janine Ribeiro no mesmo suplemento, reproduzo aqui o último parágrafo, mas vale a leitura integral, introduzi um link no parágrafo. Abaixo a burrice, olha a profundidade das questões que o Janine coloca, pobre Shamu…

Quer isso dizer que o capitalismo está condenado à ganância, que pode destruir o mundo, assim como está eliminando riquezas enormes? Não sei. O que deu força ao capitalismo é que apostou em paixões, digamos, fáceis de seguir. As alternativas a ele, feudais ou socialistas, exigem mais de nós. O capitalismo é confortável. Não pede uma alta moralidade. Lida com os homens “como eles são”. Uma sociedade cristã, socialista ou amiga da natureza demandaria muito mais de todos nós. Será que nos dispomos a pagar o preço da moral? Ela não é barata. Por isso, a questão é mais funda: pode ser que, estes séculos, estas décadas, tenhamos vivido na ilusão de que dava para viver bem e para viver segundo o bem. Pode ser que não dê. Pode ser que tenhamos de escolher. A ética é cara. Pode custar riqueza, cargos, a própria vida. Estaremos dispostos a incluir o heroísmo, talvez até o martírio, em nosso rol de experiências possíveis? Se não, a destruição periódica que o capitalismo efetua pode continuar sendo mais conveniente para nós. Mesmo que, um dia, o planeta acabe.  

Literatura para quem não aguenta tanto BBB

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Já declarei que sou fã do Philip Roth, isso pode até imparcializar minha análise, mas acabei agora a leitura do seu último livro lançado no Brasil, Entre nós, Companhia das Letras. Não é o livro do ano do Roth, é um livro de 2001 onde juntou ensaios e entrevistas sobre literatura. Para quem quer escrever, leitura obrigatória, para quem gosta de ler, uma indicação interessante.

As entrevistas com Primo Levi, Ivan Klíma, Edna O’Brien e o retrato de Malamud foram os meus capítulos preferidos. É impressionante observar duas pessoas interessantes, inteligentes e sensíveis conversando, dá raiva lembrar o que se passa na realidade diária da televisão e das ruas, SOCORRO!!!!

Dá uma inveja da República Theca, é impressionante, um país com pouco mais de 12 milhões de pessoas e os bons livros de literatura atingem tiragem de centenas de milhares. Isso ainda depois de toda a tentativa de recriar a história do país dos tempos de ditadura pós-invasão soviética. Não lembro quem falou, mas foi dito que só se consegue escrever verdadeiramente na língua que se falou na infância, estou condenado ao português, nem sei se de antes ou depois dessa e de outras reformas, mas concordo que as minhas lembranças mais profundas no idioma que já foi de Camões, Pessoa, Assis e tantos outros, daqui e de lá, judiado nos tempos atuais.

Titãs - a vida até parece uma festa - e eu me diverti

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Assisti ontem Titãs - a vida até parece uma festa, documentário do titã Branco Mello e de Oscar Rodrigues Alves baseado em filmagens de qualidade amadora e ambição profissional que o músico fez nos mais de 20 anos de história do grupo.

O humor é mais forte do que o som, minha mulher gostou mas sentiu falta de um pouco mais de roteiro, eu curti. Apesar de ter assistido alguns shows na década de 80 e ter cantado bastante Sonífera ilha, eu vim a gostar mais do grupo e de seus dois dissidentes, Arnaldo Antunes e Nando Reis, há pouco anos. Assistir o filme foi acompanhar melhor a trajetória, foi ver os micos que o sucesso exige. Concordo com minha mulher que se mais momentos de brigas tivessem sido apresentados o filme ganharia em consistência. Afinal, não é fácil estar todo mundo aí depois de tantas aventuras e loucuras. Mesmo com os dois que saíram o tratamento foi equânime. Se eles não se dão bem, não parece, saí de lá achando que de um modo ou outro, encontraram uma forma de convivência com seus egos e dos parceiros nas altas e nas baixas, na consciência e na viagem, não parece nada fácil.

Se você tem 35 e 50 vai se divertir em lembrar do Chacrinha, Bolinha, Barros de Alencar. Se você ia ao Lira Paulistana e ao Sesc Pompéia, vai associar com outras imagens da sua juventude.

Se a esperança venceu o medo, agora terá que vencer a prática humana

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De discurso ele já provou que é bom, mas a melhor parte acabou hoje. A partir de agora não existe mais “quando Obama for o presidente”, ele é, todas as limitações humanas estarão acima dos sonhos e dos desejos. É melhor torcer para os Estados Unidos encontrarem um pouco mais de juízo, isso nos ajudará, mas é evidente o quanto ainda se baseiam em ilusões.

Pobres de nós que temos Pedro Álvares Cabral e não “founding fathers”, será que estamos condenados a ser liderados por eles que, para se unirem, precisam acreditar na missão de liderar o mundo? Who will we defeat?

Existem formas alternativas de vida - O africano de Le Clézio

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Nunca tinha ouvido falar do Le Clézio quando ele ganhou o prêmio Nobel de 2008, ignorância minha e pouca divulgação da obra por aqui. Apenas 4 livros tinham sido traduzidos, só dois estavam disponíveis, escolhi o menor. Iniciei a leitura alguns meses depois da compra, já nem lembrava do que se tratava.

A edição é muito bonita, ao prazer da leitura, soma-se um prazer estético. Demorei um tempo para engrenar, não adorei, mas é um livro profundo, capaz de me fazer entender que existem outros modos de vida além da tradicional dedicação dos pais a darem o melhor para os seus filhos.

O pai de Clézio, é claro que já devia ter um espírito independente, ao ir assumir seu posto de médico num hospital inglês, não gostou da atitude de seu futuro chefe, formalista e baseada em valores que achava fúteis, decidiu ter uma experiência na África. Se África hoje é um continente com todos os problemas que se vêem na mídia, imagine como era há 60 anos, com a medicina no estágio que estava.

O que o autor mostra é que apesar de tudo, seu pai estava mais para africano do que para inglês, apesar de ter nascido nas Ilhas Maurício. Durante a guerra o médico ficou isolado, perdeu o contato com a mulher e os dois filhos que depois de alguns anos apenas foram juntar-se a ele. Clézio, menino, estranhou muito aquele homem diferente dos com quem convivia numa França assustada pela guerra. O menino cresceu em condições que a maioria dos pais, (saiu na quinta no caderno Equilíbrio da Folha úma ótima reportagem sobre como os pais estão estragando seus filhos ao tentarem protegê-los de tudo), não ousaria deixar os filhos sequer experimentarem um dia e descobriu que existem outras coisas na vida.

A situação política africana mostrou que a liberdade não era também tão grande quando parecia, mas Clézio viu seu pai acabar a vida, retornaram todos para a Europa, longe de sua essência, por mais estranha e diferente que uma cor de pele e uma formação pudessem sugerir. Uma boa história de pai e filho num pano de fundo pouco usual e capaz de mostrar que a vida consegue se estabelecer nas mais diversas condições e que um bom colégio nem sempre consegue levar alguém a ganhar um prêmio Nobel.

Espelho LIII

Ser humano é ter preguiça de utilizar o cérebro e aceitar os ouvidos, mesmo que adoçados, como contato com o mundo. Ser humano “independente” é utilizar os olhos, também dois, assim como os ouvidos, para buscar a realidade do entorno, mesmo que isso requeira esforço, choque um pouco e roube horas de lazer…

Mais uma do Loredano no Estadão

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Precisa dizer mais alguma coisa?

Leitura: a persona do Lula, a minha e a do Bergman

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Estava decidido a não comentar a entrevista do presidente Lula para a Piauí de janeiro. Mas a cada artigo de jornalista criticando percebia o quanto a posição do político é contrária a tudo o que prego. Decidi me manifestar. Comecei a procurar um foco, me veio a idéia da máscara utilizada pelo presidente. Questionei se era o único? Se eu não fazia o mesmo, se todos nós não fazemos? Estava lendo Jung para um trabalho, lembrei do filme de Bergman, Persona, que aliás, recomendo.

Nele, uma atriz pára de falar e passa a ser cuidada por uma enfermeira, já não lembro os detalhes, mas a atriz “muda” trai a confiança da enfermeira e revela coisas da intimidade dela numa carta para outra pessoa. A associação com Lula foi ainda maior. Por um momento fantasiei que o mesmo “mal” poderia acometer nosso guia, imagina do quanto seríamos poupados. Fico imaginando quem seria a enfermeira que cuidaria de Lula, quem ele iria trair? O que ela o iria fazer saber?

 Mas voltando aos hábitos, ou melhor, não-hábitos do presidente, é lamentável que qualquer adulto em qualquer posição de comando aceite ter contato com o mundo apenas por meio de filtros, ainda mais quando se está isolado no poder, aí é demais, é perder de fato o pé da realidade.

Eu utilizo a persona do editor e corro atrás para fazer jus a ela. Lula usa a persona do “popular falante” e deve morrer de medo das pessoas simples desse país acharem que ele prefere ler um livro, uma revista, um jornal à assistir a novelinha ou comer um churrasquinho. Na visão dele, se fosse para escolher alguém com capacidade crítica, teríam elegido outro. Será que está errado?

Meu irmão não pode reclamar de mim - Irmãos Karamabloch

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Se você não souber muito bem o que ler e estiver disposto a esmiuçar realidade de família, ou então, estiver numa fase meio baixo astral com a sua, leia Os irmãos Karamabloch. Garanto que além de uma leitura muito agradável, de entender um pouco melhor a história do Brasil, de ver como empresas progridem apesar de seus sócios e diretores, você com certeza, olhará para a sua família muito mais relaxado. É uma pena que o Natal já passou, quem leu o livro do Arnaldo Bloch antes do encontro familiar deve ter tido muito mais paciência com os irmãos, tios, cunhados e outros agregados que aparecem nessas horas.

Os irmãos Karamabloch conta a história da família e do extinto “império” Bloch/Manchete. Deveria inspirar as próximas histórias de empresas ou pessoas, não há a máscara de só contar o belo e esconder os podres, de criar santos e ídolos. É claro que quem alcançou sucesso tem seus méritos, mas a maioria insiste em proteger tanto dos possíveis deslizes que criam imagens irreais, ou só aceitas por aqueles com nível de senso crítico até menor do que a taxa de juros no Japão hoje. No livro do Arnaldo o corretor do word deve ter se frustrado bastante, várias marcações em vermelho foram mantidas. Os xingamentos de um irmão para o outro lá continuaram, isso é muito rico.

É também muito rico lembrar o papel que a revista Manchete desempenhou no Brasil e ver como não é fácil mudar de área. Bloch passou a vida toda de desconto de duplicata em desconto de duplicata, no único momento que estava saudável, resolveu seguir a nova geração e apostou na televisão. O sucesso inicial foi inebriante, suficiente para perder a noção da vaidade e achar que era tão poderoso quanto Roberto Marinho, aí, “mexeu com os deus” e para o céu foi quebrado…

Indicação suspeita - E se eu tiver que escolher…

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A vida é feita de escolhas ou é possível compatibilizar tudo? É possível ter sucesso profissional e manter uma boa qualidade de vida? Se fosse, talvez esse livro não existisse. Sou suspeito porque sou um dos autores.

A professora Betania Tanure e o consultor Herbert Steinberg debateram no programa X Idéias, Betania baseada no seu livro Executivos, sucesso e (in) felicidade, defendeu que os altos executivos estão muito infelizes no seu trabalho, defendeu e provou. Steinberg defendeu que quando se faz o que gosta, não existe estresse. Eu, peguei o debate, acrescentei algumas reflexões, um pouco da teoria prática do filósofo André Sponville sobre as ordens, os dilemas e as escolhas e o resultado é um pequeno livro bastante interessante. Ele deixa claro que não é possível resolver-se o dilema de forma tão clara. É uma leitura rápida e gostosa. Quem acompanha esse blog sabe de minhas restrições contra o mercado de auto-ajuda, portanto não o fiz, o produto é dos mais dignos, uma nova forma de abordar temas populares, uma tentativa de equilíbrio entre o light e conteúdo. Como não é da Virgília não tem detalhes aqui no site. A modéstia me recomenda parar por aqui.

Se quiser comprar, abaixo os links da Cultura e da Saraiva.

Boa Leitura. Adoraria comentários posteriores. Se o Acontece nas melhores famílias fui co-organizador, esse é o meu primeiro livro como co-autor, acredito ter feito uma estréia em muito boa companhia.

COMPRAR NA CULTURA                                                   COMPRAR NA SARAIVA

Humor vai na veia. Pena que o Loredano não prevalece…

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Com duas charges, ontem e hoje, Loredano falou no Estadão mais e melhor do que muito especialista em religião, geopolítica ou guerra. Quem não perceber essa ligação, pouco conseguirá contribuir.

Para assistir com os filhos pequenos

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Fui assistir com família completa, mulher e dois filhos, na semana passado o novo filme da Disney, Bolt, o super-cão. Tenho certa dificuldade em curtir essas tentativas de atrair os adultos, de faze-los voltar no tempo, ou mesmo, viver um tempo presente, que se estendeu pelo que não foi vivido, emocionalmente.

Tinha lido uma crítica positiva, cedi facilmente. Não gostei muito, o 3D não lembra aqueles dos parques de diversões, feitos para dar vertigens, algumas sensações reais, mas talvez por ser mais longo, perdem-se as sensações. Há paralelos com a vida ou a fantasia real. Mas respeitei o filme, causou um acesso de choro na minha filha de 4 anos, quando tentei entender o que se passava, ela só conseguia dizer que era muito triste.

Já em casa, é claro que pediu para assistir novamente. Bis em filme infantil não é comigo, mas foi um interessante programa familiar.

O gordo, o magro, o apelão e as enciclopédias de hoje

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Muito tempo se gasta bisbilhotando a vida dos outros, pouco discutindo e entendendo coisas sérias e ficar diante do computador é um risco grave de comprar gato por lebre. Explico

O gordo que quer passar por magro, todo mundo já sabe, Ronaldo. Para escrever este post visitei o site do fenômeno, propositalmente não atualizado, fala mais das glórias, legítimas, de um passado não tão distante, só discordo de tentar esconder a gordura, mas discordo mais ainda de ficarmos nessa discussão inútil. Estou achando ótimo e muito pouco provável que ele renda no Corinthians o que já rendeu, bem feito, quem mandou optar pelo marketing, vou de Washington.

O magro quer passar por gordo. Steve Jobs tenta convencer a todos de que seu problema é simples, os remédios resolverão em breve, mas de concreto, muito pouco sobre profissionalização da “firma”, de liberá-la da sua dependência, até dado como morto já foi. São dois casos de vidas particulares discutidas à publico, típicos de uma vida pós-moderna.

O apelão é o jornalista João Pereira Coutinho. O português é sempre radical em sua coluna, comento algumas aqui, mas dessa vez juntou-se ao Dershowitz de ontem e pisou na bola. Montou um paralelo forçado e acabou sua coluna de hoje na Folha de forma estúpida, com os leitores, e principalmente com a questão Hamas x Israel. Não, não é a mesma coisa que a suposta disputa entre Brasil e Uruguai que criou. Ainda bem, que parafraseando Coutinho, a ignorância tem cura, mais não digo, acabo de beber do mesmo veneno…

A revista Piauí entrou aí do lado como um alerta. Confesso que de vez em quando utilizo da rapidez da internet para saber de alguns assuntos. É muito mais fácil ir ao Google ou a Wikipédia do que ler vários jornais e livros, mas cuidado, a Piauí de janeiro traz uma matéria bem bacana com o Mateus Miranda, um garoto de 14 anos, aluno da 9a. série, que prefere brincar de Wikipédia do que outros jogos eletrônicos, já criou 395 verbetes da versão em português. Nada contra o Mateus, talvez até venha a ser uma fera no futuro. Mas vale ficar atento aos riscos de reproduzir informação criada nos cybercafés de Itaboraí, por mais bem intencionado que o garoto seja, ele pode estar errando na tradução ou escolhendo a Wikipédia errada para se basear…

Acredito que juntei entre assuntos, privados, públicos, superficiais e densos o tanto quanto ainda é, e vai ser, complexo, cada um levar uma vida que saiba se equilibrar entre o pessoal e o coletivo.

Dershowitz provou que não sabe julgar

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O advogado americano Alan Dershowtiz, autor de Cartas a um jovem advogado, na versão americana, inspiradora da brasileira, famoso por defender alguns casos polêmicos e conhecidos, professor de Harvard e outras coisas mais, acabou de jogar toda sua reputação fora ao publicar na mídia hoje um artigo intitulado: Ação militar israelense é legítima (Estadão).

Começa seu artigo desta forma: A ação militar israelense em Gaza é totalmente justificada de acordo com o direito internacional, e Israel deveria ser elogiada por seus atos de defesa contra o terrorismo internacional…. Por aí continua, de positivo somente o fato de ter sido corajoso, mas foi um corajoso parcial, deixou a paixão crescer mais que sua altura, perdeu a visão do todo.

Esse é um conflito dos mais complexos da humanidade, é por isso que demanda que todos, de todos os lados olhem para ele com atenção especial. O maestro argentino, naturalizado israelense, Daniel Barenboim propôs no mesmo jornal, dois dias antes que os dois lados entendam que estão ligados de forma indissociável, resta-lhes decidir se isso será uma maldição ou uma benção.

Falou o advogado acostumado a colocar todo o seu peso para defender o seu lado, perdeu a chance de mostrar-se maior, tentou ainda colocar o presidente eleito, Barack Obama, numa fria, ao invocá-lo. Espero que este não caia na tentação de reforçar uma aliança clara para todos e se preocupe um pouco mais em contribuir com uma solução que salve os civis, e por que não, os militares, a mando de políticos que nem sempre colocam os interesses do todo acima dos seus eleitorais…

Tigre branco: leitura para todos, principalmente, para quem tem motorista em casa…

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O tigre branco foi minha última leitura de 2008, acabei no dia 31. A leitura estava meio amarrada, é a história de um antigo motorista que virou empreendedor, ficou rico, lá na Índia. E ele escreve cartas para um primeiro-ministro chinês que vai visitar o país.

Até a metade há uma interessante narrativa das diferenças sociais, válidas na Índia, aplicáveis em qualquer sociedade pouco justa. Daí para o final a história vai fechando, o leitor percebe a real motivação do funcionário. O livro é bem humorado, sim, confesso que o li apenas porque ganhou o Man Booker de 2008 (também já li O encontro por causa deste prêmio e, se não me engano, mergulhei em McEwan também por isso, tem também reflexos de politicamente correto, mas anda me parecendo premiar livros, e autores interessantes). A sociedade indiana retratada no livro, e facilmente aceitável, é bastante corrupta, a condição de vida dos empregados fica abaixo dos limites (esses imaginariamente também criados aqui em casa, o livro te empurra a rever o quão próximo dos patrões do Tigre Branco você está). Adiga, o autor, teve a coragem de numa frase muito simples estampar uma diferença que na prática, pouco é minimizada: dizia o motorista depois de ter-se rebelado, não vou contar os detalhes para que os patrões não se afugentem, “o maior insulto era quando eles diziam que eu era quase da família”, talvez o quase mais distante do mundo.

Ao refletir sobre as desigualdades, o leitor segue o autor na classificação da posição do Estado, tanto lá na Índia, quanto aqui no Brasil, ou em qualquer outro local. A revista financiada pelo Estado que circula entre os empregados, ou a “Gaiola dos galos” (modo com as diferenças de classe se mantém), são criações das mais interessantes. Como disse no título post, leia para se divertir, refletir e questionar, mas se você tem um staff grande em torno da sua família, leia para se defender… Mas antes de acusar qualquer um de seus empregados, entenda que você precisa é se defender mesmo de seus próprios atos (ativos ou simples reproduções ou não contestações do que se é feito, há décadas, talvez séculos) …