Leitura: a persona do Lula, a minha e a do Bergman
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Estava decidido a não comentar a entrevista do presidente Lula para a Piauí de janeiro. Mas a cada artigo de jornalista criticando percebia o quanto a posição do político é contrária a tudo o que prego. Decidi me manifestar. Comecei a procurar um foco, me veio a idéia da máscara utilizada pelo presidente. Questionei se era o único? Se eu não fazia o mesmo, se todos nós não fazemos? Estava lendo Jung para um trabalho, lembrei do filme de Bergman, Persona, que aliás, recomendo.
Nele, uma atriz pára de falar e passa a ser cuidada por uma enfermeira, já não lembro os detalhes, mas a atriz “muda” trai a confiança da enfermeira e revela coisas da intimidade dela numa carta para outra pessoa. A associação com Lula foi ainda maior. Por um momento fantasiei que o mesmo “mal” poderia acometer nosso guia, imagina do quanto seríamos poupados. Fico imaginando quem seria a enfermeira que cuidaria de Lula, quem ele iria trair? O que ela o iria fazer saber?
Mas voltando aos hábitos, ou melhor, não-hábitos do presidente, é lamentável que qualquer adulto em qualquer posição de comando aceite ter contato com o mundo apenas por meio de filtros, ainda mais quando se está isolado no poder, aí é demais, é perder de fato o pé da realidade.
Eu utilizo a persona do editor e corro atrás para fazer jus a ela. Lula usa a persona do “popular falante” e deve morrer de medo das pessoas simples desse país acharem que ele prefere ler um livro, uma revista, um jornal à assistir a novelinha ou comer um churrasquinho. Na visão dele, se fosse para escolher alguém com capacidade crítica, teríam elegido outro. Será que está errado?

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