Existem formas alternativas de vida - O africano de Le Clézio
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Nunca tinha ouvido falar do Le Clézio quando ele ganhou o prêmio Nobel de 2008, ignorância minha e pouca divulgação da obra por aqui. Apenas 4 livros tinham sido traduzidos, só dois estavam disponíveis, escolhi o menor. Iniciei a leitura alguns meses depois da compra, já nem lembrava do que se tratava.
A edição é muito bonita, ao prazer da leitura, soma-se um prazer estético. Demorei um tempo para engrenar, não adorei, mas é um livro profundo, capaz de me fazer entender que existem outros modos de vida além da tradicional dedicação dos pais a darem o melhor para os seus filhos.
O pai de Clézio, é claro que já devia ter um espírito independente, ao ir assumir seu posto de médico num hospital inglês, não gostou da atitude de seu futuro chefe, formalista e baseada em valores que achava fúteis, decidiu ter uma experiência na África. Se África hoje é um continente com todos os problemas que se vêem na mídia, imagine como era há 60 anos, com a medicina no estágio que estava.
O que o autor mostra é que apesar de tudo, seu pai estava mais para africano do que para inglês, apesar de ter nascido nas Ilhas Maurício. Durante a guerra o médico ficou isolado, perdeu o contato com a mulher e os dois filhos que depois de alguns anos apenas foram juntar-se a ele. Clézio, menino, estranhou muito aquele homem diferente dos com quem convivia numa França assustada pela guerra. O menino cresceu em condições que a maioria dos pais, (saiu na quinta no caderno Equilíbrio da Folha úma ótima reportagem sobre como os pais estão estragando seus filhos ao tentarem protegê-los de tudo), não ousaria deixar os filhos sequer experimentarem um dia e descobriu que existem outras coisas na vida.
A situação política africana mostrou que a liberdade não era também tão grande quando parecia, mas Clézio viu seu pai acabar a vida, retornaram todos para a Europa, longe de sua essência, por mais estranha e diferente que uma cor de pele e uma formação pudessem sugerir. Uma boa história de pai e filho num pano de fundo pouco usual e capaz de mostrar que a vida consegue se estabelecer nas mais diversas condições e que um bom colégio nem sempre consegue levar alguém a ganhar um prêmio Nobel.
