Arquivo: Fevereiro de 2009



Espelho LV

Ser humano é testar seus limites e sua própria capacidade de aceitação diante dos modelos de outros. Alguns se encaixam e ficam menores, outros se encaixam e acham que ficam maiores, pouquíssimos criam os seus próprios modelos, eles costumam doer muito antes de mostrar qualquer sentido …

Porrada, quem dá?

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Durante o carnaval levei meu filho de 11 anos e um amigo para assistir ao O lutador, com Mickey Rourke. Tinha lido uma entrevista com o ator que me definira a assistir, um tema que geralmente deixaria passar. Toda a onda pré-Oscar para que ele ganhasse só reforçaram.

Fui antes da entrega e saí de lá convencido que as pessoas estavam querendo premiar alguém que tinha saído do buraco, alguém que tivera a coragem de testar e extrapolar todos os seus limites, um bom ator, mas nada tão fenomenal quanto lera. Confesso que até agora não sei se era maquiagem de cinema ou da vida o rosto de Rourke.

Eu já fui enganado por luta livre, lá em Itapeva deveria ter uns 10, 11 anos, eram Fantomas, Tigre Paraguaio e outros que agora no cinema vi como se relacionavam nos vestiários. O filme é forte, um pouco demais  para a idade do meu filho, e meio disciplinador no sentido de que a vida é cruel e cobra o seu preço dos “desajustados”. Vale pela reflexão se de fato se quer ser regenerado de acordo com os padrões dos outros…

 Já adianto que assiste ontem o Milk e para mim, Sean Penn esteve muito melhor, mas isso é para outro post. 

Bastidores do mundo editorial

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Se você tem o desejo de publicar um livro, eis uma leitura que pode ser interessante, o que também o é para quem trabalha na indústria editorial.

O escritor canadense Camilien Roy acaba de ter seu A arte de recusar um original publicado no Brasil pela Rocco. É uma pena que o livro tenha sido lançado apenas agora, se o tivesse sido há alguns anos, na época em que tinha a Negócio, das duas uma, ou usaria umas das respostas padrão, ou guardaria as que enviava e dependendo do sucesso desse livro, lançaria a minha versão.

Já queimei muita pestana tentando dar resposta personalizada a candidato a autor. É impressionante a quantidade de material ruim que é enviada para as editoras, pagam com isso os autores bons, só quem já esteve numa editora para poder avaliar de fato o chega e a quantidade que chega. Isso tudo faz parte de um mercado, que como eu costumo dizer, “tem mais gente querendo publicar do que ler um livro…”

O livro de Roy é uma piada que em muitos momentos parece um tanto quanto longa demais, poderia ter sido mais curta, mas dá para ser utilizado como antídoto do que um candidato a autor deveria evitar na sua obra, acho que no mínimo os candidatos a autores deveriam ler para poder tirar um certo sarro do editor da onde sonham ter o seu livro publicado, se é que sonham, parece que 98% das pessoas são franco atiradores. Fica a sugestão, para que depois você não reclame do silêncio ou da falta de educação do seu ex-futuro editor…

Livros demais, tiro no pé! - Inimigos da esperança

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Eis um daqueles livros que caíram na minha mão de um jeito pouco usual e que adorei que aconteceu. Foi durante uma entrevista com o Jézio, editor da Unesp, sobre o mercado editorial. Um dos exemplos dados foi este pequeno livro editado por eles em 2008.

O autor, Lindsay Waters, editor da Harvard University Press, fez esse ensaio baseado na realidade do mercado de livros universitários, na verdade, acadêmicos, americano, mas além de prazeroso, ele também representa o que acontece com a cultura em geral. Muitos livros sem critérios acabam mais atrapalhando do que ajudando.

As denúncias sobre a realidade da produção intelectual são graves, as pessoas não lêem e não criticam seus colegas, respeitam aqueles que foram publicados e avaliam quem os editou e não o que se produziu, a preguiça e a conveniência também amarram a academia de humanidades. As universidades que deveriam lutar pela produção do novo, acabam incentivando seus membros a se tornarem burocráticos, falando sobre obviedades que não serão lidas.

Há números impressionantes, se há duas décadas um livro de uma editora acadêmica vendia aproximadamente 1200 cópias, esse número caiu para aproximadamente 300 cópias, ou seja, está faltando filtro. Não é uma postura elitista, é uma realidade, pessoas que sequer valorizam o livro e o conhecimento estão se utilizando deles para ter um upgrade e daí, da igualdade teórica, utilizar da preguiça e do comodismo para ao invés de combater a necessidade de não acomodação, pensar pouco e produzir minimamente. Acontece em vários mercados, mina-se critérios, até passíveis de crítica, encontra-se as fragilidades e de dentro não melhoram nada, apenas fazem os mais persistentes olharem para o sistema e também acreditarem que não vão vencer. Quem está preocupado com a qualidade e a mediocrização dos livros e das pessoas deve ler.

Sucesso x qualidade de vida - entrevista no Canal RH

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O canal RH disponibiliza uma entrevista minha sobre o livro E se eu tiver que escolher… Apesar de todas as suspeitas, gostei do resultado final, e também da edição do título: Equilíbrio é escolher entre sucesso e qualidade.

Dá uma lidinha se você ainda se acha o super-herói que vai juntar gregos e troianos, é só clicar no link abaixo, talvez tenha que fazer um cadastro gratuito. Aberto à feedbaks:

link para a entrevista

Leia entrevista com John Thackara no Planeta Sustentável

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O site planeta sustentável mantido pela Editora Abril trás uma ótima entrevista com o autor John Thackara, o mesmo que está fazendo os posts aqui no blog, e autor do Plano B. Vale conferir no link abaixo, la também tem a confirmação que Thackara estará no Brasil em novembro e a uma outra resenha sobre o livro.

http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/cultura/conteudo_421527.shtml

Visão do Brasil e do mundo fica menos serena - Gilberto Dupas

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Fiquei sabendo ontem do falecimento do Gilberto Dupas, daqueles que merecem esse registro, cruel, de sua morte. Morreu com 66 anos, deixando diante de si muitos anos passíveis de uma intensa produção intelectual.

Se analisar o que se passava diante do país e das interações entre países nesse globalizado mundo era sempre algo esperado dele, a identificação de um câncer colou a serenidade e profundidade do pensamento em analisar a morte e todos os sentimentos que vem com o final. Ontem o Estadão antecipou o artigo, acabou sendo o último, escrito e programado para ser impresso na edição de sábado. Falava das tentativas “humanas”, as aspas são minhas, de prolongar a vida, da recusa em se aceitar algo inevitável, que não é remediado e não deve ser, por nenhum esforço artificial. Vale a pena ler e elucubrar sobre os caminhos que a “ciência” oferece à alguns, para mim, uma ilusão cara, penosa e passageira, numa tentativa de afastar o final. Dupas soube não apenas refletir, vi que seu último livro era uma ficção que incorporava em linguagem metafórica várias dessas questões, mas também, talvez pego de surpresa, exercer seu fim de forma serena. Foi cedo e as dezenas de livros e centenas de artigos foram pouco diante do que viria, mas formam um bloco coerente, o respeito e a admiração de muitos, esculpido.

Plano B - Plan B - In the bubble by John Thackara 1

capaplanob3x56.jpg A partir de hoje esse blog fica “internacional”. O autor John Thackara fará posts sobre o seu livro Plano B, lançado pela Virgília no final de 2008, acreditando que o mundo está globalizado, se bem que segundo Gordon Brown, primeiro ministro britânico, a dona crise vai trazer uma desglobalização, mas não cultural. Peço desculpas aos que não entendem inglês, aliás, a esses e a todos, recomendo a compra do livro. No final de todos os posts, haverá um link para os detalhes do livro no site, ou então para os sites de venda das livrarias. Aproveite tudo o que o John tem a dizer, qualquer dúvida, cheque no site dele: www.thackara.com:

THE SCHLOCK OF THE NEW

How might we design a world in which we rely less on “tech” - and more on people?

“In the bubble” is a phrase used by air traffic controllers to describe their state of mind, among their glowing screens and flows of information, when they are in the flow and in control. Lucky them. Most of us feel far from in control. We’re filling up the world with amazing devices and systems—on top of the natural and human ones that were already here—only to discover that these complex systems seem to be out of control: too complex to understand, let alone to shape, or redirect.

Things may seem out of control—but they are not out of our hands. Many of the troubling situations in our world are the result of design decisions. Too many of them were bad design decisions, it is true—but we are not the victims of blind chance. The parlous condition of the planet, our only home, is a good example. Eighty percent of the environmental impact of the products, services, and infrastructures around us is determined at the design stage. Design decisions shape the processes behind the products we use, the materials and energy required to make them, the ways we operate them on a daily basis, and what happens to them when we no longer need them. We may not have meant to do so, and we may regret the way things have turned out, but we designed our way into the situations that face us today.

My premise is simply stated: If we can design our way into difficulty, we can design our way out. “Everyone designs,” wrote scientist Herb Simon, “who devises courses of action aimed at changing existing situations, into preferred ones.” For Victor Papanek, too, “design is basic to all human activities—the placing and patterning of any act towards a desired goal constitutes a design process.” Designing is what human beings do.

Two questions follow this understanding of design. First, where do we want to be? What exactly are the “preferred situations” or “desired goals” that Simon and Papanek talk about? Second, how do we get there? What courses of action will take us from here, to there?

continue…

Informações sobre o livro:

Comprar Plano B na Livraria Cultura

Comprar Plano B na Livraria Saraiva

Buy In the Bubble at Amazon

200 anos de Darwin

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Um amigo, enquanto escrevo esse post, deve estar curtindo um jantar na casa de seu pai, a família toda foi convidada para a comemoração dos 200 anos do nascimento do inglês Charles Darwin. Nunca tinha visto nada parecido, mas o pai, com quem já tive interessantes conversas, reconheceu e achou importante para os netos a celebração da possibilidade do abandono das trevas. Sim, Darwin e sua seleção natural e a teoria da evolução, apesar de alguns buracos, deixou como legado conceitos para mim muitos mais críveis do que o tal design inteligente. A teoria por ele composta ainda se sustenta, na mídia, várias matérias mostraram o que Darwin fez e também o quanto ele sofreu, exatamente por ter noção da dimensão da repercussão das suas idéias.

Vale lembrar que o jovem da foto da esquerda iniciou estudos para ser pastor, já o senhor da direita, ainda que atormentado pelos receios religiosos, sua mulher então desesperou-se por ter certeza que o marido iria para o inferno após a divulgação das teorias, e nunca mais o veria, já que ela tinha um comportamento de acordo com os desejos e prescrições divinas, viu-se obrigado a declarar que diante das evidências de toda a teoria que construiu, uma outra solução para a criação do mundo era inviável. Até hoje é difícil as pessoas aceitarem ser descendentes de um mesmo ancestral que as ditas outras formas menos desenvolvidas que habitam o planeta. É o homem tem dessas coisas…

Não custa lembrar que nos diários de sua passagem pelo Brasil há fortes menções aos gritos dos escravos, muitas décadas depois, mais de século e meio, se passasse por aqui Darwin ainda iria se assustar com os não mais escravos, mas agora “apenas” excluídos. A teoria da evolução tá precisando dar mais as caras por aqui, a tal da seleção natural está deixando que muitos homens públicos com aptidões apenas pessoais prevaleçam, os públicos são facilmente descartados.

Valeu Darwin!

Leitura para esposas e maridos, mesmo que não sejam eternos…

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Como já disse aqui, ando cercando a obra de Dostoiévski, a idéia é lê-la por completo, ainda estou longe, na verdade perto, uns 3 livros assombram meu criado mudo…

O eterno marido é um teste a frieza de sentimentos. Durante vários trechos fiquei a imaginar quem estava sendo efetivo, se era a vingança o sentimento buscado, a quem de fato o marido era ligado, a filha serve para que, e a ex-mulher de ambos? Conclui, se é que conclui, que é um livro masculino, sim, as mulheres cedem as “tentações” mas essas são analisadas do ponto de vista masculino. Por que alguém admite ser corno? Como o amante se porta diante do marido? Se aquele marido queria vingar-se, que táticas dispunha? Como quase voltou para a situação original?

Se você tem nesse momento alguma relação extra-conjugal coloque um pouco das ameaças russas no menu da sua vida, elas não vão melhorar o relacionamento, mas darão a ele uma dimensão e uma trajetória possível, pelo menos na literatura.

São muitas perguntas num texto que finge levar para um caminho e não chega. Mas nessa trajetória, mostra bastante do humano. Ah, descubra lá o que é ser um eterno marido, e veja se você leva jeito para a coisa, eu, tô fora.

Relação autor-editor

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Na semana passada estive numa festa de aniversário da filha de um autor que ficou amiga. No final, na despedida, ganhei um beijo carinhoso do mesmo, já um senhor. Não pude refletir sobre minhas visões dessa relação que eu mesmo já disse que é “fadada a dar errado”.

Por que condenei a relação? Por algumas razões práticas. De um lado, o autor vai sempre encontrar pontos importantes a serem cobrados, principalmente em relação a falhas de distribuição (se você está para publicar um livro e a editora promete excelência nessa área, desconfie, ou está sendo mal intencionada ou tem padrões muito baixos de atuação, qualquer editora, por mais bem-sucedida que seja, tem consciência das dificuldades de distribuição de livros no Brasil). Do lado do editor, ele vai entrar em contato profundo com os pensamentos daquele autor e aí, conviver intimamente com ele durante um período, e aí, em alguns casos, são duas pessoas diferentes, ou seja, nem sempre todo mundo faz o que diz, ou melhor, o que escreve…

No período de lançamento do livro os dois estão ansiosos e focando na mesma direção, as expectativas ainda não foram encaradas pela realidade, tudo é possível, esse mercado é um dos mais próximos a loteria que eu conheço. Passado isso, tem o próximo lançamento do editor, a nova fase da vida do autor e a proximidade já não é tão grande, se o processo foi bem conduzido, resta um respeito e uma admiração mútua, que muitas vezes não é maior do que as cobranças.

Mas no final daquele aniversário pude sair com uma sensação de missão cumprida. Mesmo que as vendas tenham ficado aquém do esperado pelos dois lados, houve um consenso não dito que os dois lados deram o melhor de si.

Ensayos - Michel de Montaigne e Dalí

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Ainda não mergulhei tão fundo na obra de Montaigne quanto deveria, já a tenho aqui, tanto na versão Os pensadores, como na edição da Martins Fontes, usa-o ainda como obra de referência, em consultas esporádicas, mas planejo nela mergulhar. Gosto do estilo, aliás, invejo-o.

Hoje comprei na livraria Cultura, por 42 reais, uma belíssima edição dos ensaios. Selecionados por Salvador Dalí que também fez ilustrações ao longo do grande volume. É uma co-edição da Planeta espanhola e da Fundação Gala-Salvador Dalí. Já estudei espanhol, há tempos, devo ter esquecido muito, mas ainda me sobrou a universal mania de brasileiro que o entendo, pero que si, pero que no, recomendo a compra. É possível entender os conceitos de Montaigne e se deliciar com alguns desenhos de Dali. Sugiro também como presente, muito melhor do que pagar o mico de ser taxado de, sei lá eu o quê, ao dar um desses livros da moda…

Ah, um bom indício da beleza da edição é que minha mulher falou que se nos separarmos, o livro passa um tempo com cada um…

Mergulho mais profundo nas idéias e palavras

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Quando fuço um assunto tendo a dar uma geral e ver quais livros interessantes merecem fazer parte da minha biblioteca. Tenho vários livros de frases e citações. Comprei na última semana o Dicionário filosófico de citações do Grateloup da Martins Fontes e o Dicionário universal Nova Fronteira de citações do Paulo Rónai, esse esgotado, mas facilmente encontrável pela Estante Virtual. Aliás, apesar de não ter conseguido comprar do primeiro sebo escolhido, identifiquei um outro onde estava disponível e fui pessoalmente retirar. Gosto muito da Estante Virtual, e é sempre um barato ver a empolgação dos “velhinhos” donos de sebo com o impulso que a internet está dando nos negócios deles.

Os dois já me foram úteis na produção de alguns textos. É claro que são obras de fôlego que não vou ler inteiras como o Livro dos provérbios, mas ganharam um espaço de destaque na minha biblioteca de primeiros socorros.

A voz do povo é a voz de Deus?

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Achei esse livro, comprei e resolvi ler de uma vez, depois vou usar apenas para consultas. Livro dos provérbios, ditados, ditos populares e anexins de Ciça Alves Pinto é uma grande coletânea daquilo que está um pouco impregnado dentro de você. Ao lê-lo, você constatará que o seu avô ou avó não eram tão sábios assim, eram canais de passagens desses conceitos que acompanham o homem provavelmente desde que a linguagem foi desenvolvida.

Parece que dá para fazer uma leitura bem rápida, mas não é tão simples quanto parece, há um jogo de palavras e idéias que requer atenção. Outro aspecto interessante é ver como o coletivo é conservador e mais ainda, consolador, prepara todos para arriscar pouco e conformar-se com o obtido.

Sou um fã de citações, provérbios, ditos e ditados, não sabia o que eram os anexins, que é quase a mesma coisa mas pede uma rima. Elas servem para clarear muitas vezes uma idéia, uma muleta quando se precisa provar algum pensamento, ou simplesmente, um jeito de entender a diversidade do mundo em que se vive. Se você gosta de palavras ou faz uso delas, sua biblioteca pede este livro.