Arquivo: Março de 2009



Plano B - Plan B - In the bubble - by John Thackara 4

capaplanob4x6.jpgEsse é o quarto post sobre o livro Plano B preparado pelo autor. No final dele estão os links para os detalhes do livro no site, ou então para os sites de venda das livrarias. Aproveite tudo o que o John tem a dizer, qualquer dúvida, cheque no site dele: www.thackara.com:

EXTRACT LOCALITY

Resource Ecologies

For me, the most important potential impact of wireless communication networks—or “mediascapes” as Hewlett-Packard dubs them—will be on the resource ecologies of cities. As I explained in my discussion of logistics in chapter 3, wireless communications connecting people, resources, and places to one another in new combinations on a real-time basis is a phenomenon called demand-responsive services. Combinations of demand-responsive services, location awareness, and dynamic resource allocation, have the potential to reduce drastically the amount of hardware—from gadgets to buildings—that we need to function effectively in a city.

Taxi systems are demand-responsive services, to a degree. The old model was that you would ring a dispatcher, the dispatcher would offer your trip all the drivers via a radio circuit, one driver would accept the job, and the dispatcher would send that driver’s taxi to you. A better way has now been introduced in many cities: You ring the system, the system recognizes who you are and where, it identifies where the nearest available taxi is, and it sends that taxi to you. This is dynamic, real-time, resource allocation in action. Now: Replace the word “taxi” in the preceding description with the word “sandwich.” Or with the words “someone to show me round the backstreets of the old town.” Or the words “nerd to come and fix my laptop.” Or the words “someone to play ping pong with.” Likewise for those who have something to offer or information to provide, as opposed to needing or wanting something. Suppose I feel like helping out in a school and hanging out with kids for a day. I might have some time free, or make good sandwiches, or know the old town like the back of my hand, or know there’s a ping-pong table in Mrs. Baker’ garage that the Bakers never use. What do I do? I can call the system, or the system can call me.

A city full of people can now be seen as a live database, full of knowledge, time, and attention—incarnated in human beings—that any of us might use. Louis Kahn talked about the city as a “place of availabilities” with wireless networks and search technologies, the potential becomes actual.

continue…

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Espelho LVII

Ser humano é cobrar dos outros a incoerência que eles apontam em nós mesmos…

Entre os muros da escola, e na escola do meu filho

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Ontem assisti ao Entre os muros da escola, vencedor da última Palma de Ouro de Cannes, 2008. O filme é bastante comentado e tinha bastante vontade de assistir antes mesmo do incidente que quase aconteceu na escola do meu filho na semana passada, quando um aluno levou um revólver, nesta semana a discussão chegou aos jornais.

Primeiro o filme. O assunto é interessante e necessário para quem tem filhos e participa diretamente da questão, mas é interessante e necessário para qualquer habitante do planeta, se a escola perde sua função e não se encontra nada para substituí-la, a coisa fica feia. O filme é chato, dentro da escola, na verdade basicamente dentro das aulas de francês, talvez se mostrasse o comportamento de outros professores eu me incomodasse menos, mas é preocupante perceber não só o nível cada vez mais baixo nas escolas, como os desafios que os professores encaram. Confesso que eu não toparia isso, ainda tenho vontade de dar aulas, mas só se for numa faculdade de primeira linha, com pessoas minimamente interessadas, se não, continuo gulosamente com tudo o que aprendi apenas para os que comigo convivem…

O escândalo da escola do meu filho, o Gracinha em São Paulo, foi de um aluno que levou a arma do pai e mostrou para os amigos. Avisados pelo pai de um dos espectadores do garoto de 14 anos, o pai, portanto o proprietário da arma, e a mãe do menino foram até a escola “denunciar” o filho e depois entregar a arma à polícia federal. Numa escola que prima pela liberdade e democracia, aberta a discussão. O garoto está suspenso e além das discussões oficiais, várias paralelas. Eu já coloquei para o meu filho que sou contra a expulsão do garoto, ele cometeu um erro, sim, mas não deve receber uma punição extrema, prefiro que a discussão se estenda e todos possam aprender, ainda mais que a tragédia e nenhum acidente aconteceram. Qual seria a chance de acontecer isso com o meu filho? Zero. Não tenho arma em casa e já sugeri a escola que faça uma pesquisa com os pais para saber o percentual de portadores de armas, algo que julgava que tendesse ao traço devido ao perfil do colégio. Ou seja, a insolência já domina as escolas públicas na França e em todo mundo, mas aqui, mesmo os pais mais preocupados com seus filhos não sabem o que fazer e acredito que poucos vão ter a paciência de assistir o Entre os muros, os que forem estimulados pela crítica amplamente positiva, terão que ter um tanto de persistência, o assunto é bom, mas a abordagem é bem chata.

Não perca a entrevista com Ferreira Gullar na Bravo

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Não perca a entrevista com Ferreira Gullar na Bravo de março, muito interessante. Preste atenção no binômio a vocação é acaso, a expressão é necessidade. Outro binômio é o da arte e expressão, criticado por alguns por ser supostamente um crítico conservador, o poeta se defende que tem claro que toda arte é uma forma de expressão, mas nem toda expressão é arte e afirma que os críticos temendo repetir a comida de bolo que os do século XIX deram com os impressionistas, aceitam qualquer novidade.

Por fim, revela que cedeu às evidências e as limitações da poesia. Como não vê que o sistema econômico do mundo vá mudar, também deixou de crer que um poema possa ter alguma função ideológica de alteração da sociedade, no máximo, ilumina um leitor. Clique na capa acima e escute uma parte da entrevista, mas a recomendo inteira.

Radiohead, um amante e um estranho no ninho

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Admiro muito o trabalho do Isay Weinfeld, tanto que passei a ouvir Radiohead depois de ler uma entrevista dele falando sobre a banda. Devo ter uns dois Cds, não baixei o último e portanto não contribuí na definição do preço do download, mas resolvi ir ao show que aconteceu domingo em São Paulo.

Sim, porque é um grupo para iniciados, mais “cabeça”, achei que me sentiria o máximo em casa dentro do possível dos grandes eventos de música pop. Gostei? Nem tanto, queria ter pego o Los Hermanos, mas o local escolhido para o show, depois de várias obras viárias, inviabilizou, escutei as últimas músicas na negociação sobre quanto pagar para parar o carro na rua (me dei bem, “apenas” 10 reais, perto e no final estava lá, intocado), toda essa infra-estrutura, ou melhor, a falta dela, é algo muito chato nos eventos no Brasil, odeio fazer comparações que parecem apenas mostrar o quanto somos atrasados, não é o caso, mas assisti um show do Genesis em Chicago onde a organização era infinitamente superior, mas deixa para lá, se apenas isso precisasse mudar no Brasil, estaríamos todos indo ao cinema, teatro, shows pops e clássicos e principalmente, lendo muitos livros…

É claro que quem escreve nunca tinha ido em nenhum local de música eletrônica, por isso, consegui prestar atenção nas duas primeiras músicas do Kraftwerk. Pode ser uma heresia, mas se eu fosse fazer música eletrônica, seria exatamente aquilo que faria, um jogo de palavras e sons, achava que era por falta de talento, vou rever minha auto-estima. Depois, só olhei novamente para o palco quando percebi que os imóveis “músicos” tinham sido substituídos por bonecos ou robôs, a brincadeira é boa, mas metade nem deve ter percebido.

Começou o show, pontual, o clima melhorou, mas eu saí mais cedo, estava cansado, tinha muito a fazer no dia seguinte e aprendi bastante ao ler os comentários na imprensa ontem e hoje. É incrível notar o que a paixão faz aos olhos e até no racional da gente. Vou guardar o artigo que o Isay escreveu hoje na Ilustrada, acredito que minha memória vai permitir que eu leve comigo as impressões e de tempos em tempos, contraste com o artigo, e passo a procurar quem é o meu Radiohead.

A esperança vencida pelo desespero - Um jogador - Dostoiévski

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Estava fazendo um trabalho sobre risco e resolvi ao invés de livros técnicos, buscar na literatura. Há tempos tinha comprado Um jogador de Fiódor Dostoiévski, li rápido, num dia que o computador quebrou.

Esperava algo mais forte e denso, existe sim poucos momentos que demonstram o que se passa na cabeça de alguém que acredita que vai resolver sua vida numa roleta, mas serve para qualquer jogo. De resto, alguns esteriótipos, aliás, preferia que fossem apenas isso, mas são mesmo constatações, mulheres em busca de homens endinheirados. Quebrados, esperando a morte e a herança e disputas e dúvidas amorosas.

Há a metáfora da vida, é difícil saber a hora de parar, para o bem e para o mal, quando se está ganhando ou quando se está perdendo. Acho que cada um de nós tem um jogador dentro de si, seja o narrador, seja a avó. Dostoiévski o escreveu em 20 dias, nem um escritor do seu porte consegue o milagre de em tão pouco tempo produzir algo maravilhoso, é bom, mas está longe de outros livros dele.

Mas, se não o fizesse, perderia os direitos sobre a obra pelo prazo de nove anos, fez bem em fazer… Se não o fizesse, talvez não existissem O idiota, O eterno marido, Os demônios, O adolescente, Diário de um escritor e Irmãos Karamazóv, viciado em jogo, teve inclusive que fugir um período dos credores.

Grande livro - o pior foi ter lido…

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Acabei hoje a leitura de Foi apenas um sonho de Richard Yates, leitura inspirada após assistir o filme de Sam Mendes, reforço, injustamente tão pouco tempo em cartaz em São Paulo.

Já tinha achado o filme denso, daqueles que fazem pensar, mostram o que pode te acontecer se der aquela bobeada, li o livro com muito interesse, o tema é bem desenvolvido, sai-se dele mas assustado ainda, mais precavido para não acabar a vida tendo como arma apenas o volume do aparelho de surdez, temo isso sim, não quero essa vidinha confortável e medíocre, mas isso tem um preço, para quem não sabe minha participação no livro E se eu tiver que escolher… foi apresentar a questão das ordens que Sponville se inspirou em Pascal e objetiva dar algumas indicações para que se possa fazer escolhas. O pior de ter lido é o aumento da responsabilidade para não ir pelo mesmo caminho, como sempre a ignorância é mais fácil.

Yates constrói dois personagens principais que se permitiram sonhar, fugiram das rédeas curtas da vida padrão, e se deram mal. Se deram mal porque não conseguiriam ou porque não tiveram forças para ir até o final? O livro não é sobre isto. Ele quer mostrar como é difícil um relacionamento manter algo de verdadeiro e o pior, que duas pessoas, carregando suas condições de formação, acabam ao fugir de enfrentar alguns pontos, estragando não apenas o próprio futuro, mas o dos outros também. Não é fácil encarar tudo de frente, o natural é fugir para o aconchego da mediocridade, ou do riso fácil. Faz diferença chegar ao fim da vida preservado pela fuga? Para mim faz, não é isso que quero, estou teoricamente preparado para encarar algumas pedreiras…

O único defeito do livro é a capa. Entendo as dificuldades do mercado editorial e o impulso que a repercussão do cinema pode dar, mas ainda tenho tendência a um purismo. Livro para ler e reler de tempos em tempos e checar se a vida está Wheeleriando… Ou pior, se já está Campbellizada…

A literatura em perigo - Tzevetan Todorov

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Se dependesse de mim a literatura está mesmo em perigo, tal como instiga o autor deste livro, búlgaro, residente na França. O li em fevereiro, gostei bastante mas tinha esquecido de postar.

O perigo real a que se refere o autor é a maneira como aos jovens é oferecida a literatura e como o falar da literatura vem substituindo seus melhores textos, ou seja, uma onda de críticos e estudiosos acaba chegando mais às pessoas do que os próprios autores. Exceção da informação que leu aos 8 anos um livro de 223 páginas de seu avô em uma hora e meia, o restante das informações servem como inspiração para que a literatura pode representar e oferecer na vida de uma pessoa e até mesmo como um guia de leitura e entendimento dos movimentos estéticos.

No final deste pequeno livro, são 94 páginas que devem ter me tomado mais tempo que o livro de 223 ao menino Todorov, além de menções da ótima correspondência entre Flaubert e George Sand, quando esta o acusa de não o ver na literatura que produzia, há, um pouco antes, a definição do papel vital que a literatura tem a cumprir e “mas é por isso que é preciso tomá-la no sentido amplo e intenso que prevaleceu na Europa até fins do século XIX e que hoje é marginalizado, quando triunfa uma concepção absurdamente reduzida do literário. O leitor comum, que continua a procurar nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, tem razão contra professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesmo ou que apenas pode ensinar o desespero. Se esse leitor não tivesse razão, a literatura estaria condenada a desaparecer num curto prazo.

Como a filosofia e as ciências humanas, a literatura é pensamento e conhecimento do mundo psíquico e social em que vivemos. A realidade que a literatura aspira compreender é, simplesmente (mas, ao mesmo tempo, nada é assim tão complexo), a experiência humana. […] a literatura faz viver as experiências singulares; já a filosofia maneja conceitos. Uma preserva a riqueza e a diversidade do mundo, e a outra favorece a abstração, o que lhe permite formular leis gerais. “

Plano B - Plan B - In the bubble by John Thackara 3

capaplanob3x56.jpg Aqui vai o terceiro post sobre o livro Plano B preparado pelo autor. No final de deste post estão os links para os detalhes do livro no site, ou então para os sites de venda das livrarias. Aproveite tudo o que o John tem a dizer, qualquer dúvida, cheque no site dele: www.thackara.com:

EXTRACT: MOBILITY
Modern movement has transformed the ways we experience “here” and “now.” and “there” and “then.” As a system, mobility is locked into a mode of perpetual growth in a world whose carrying capacity is limited. The status quo policy—“predict and provide”—promises more travel (of people and goods), forever, but using new technologies and integrated systems to make mobility more efficient. A second design strategy is mobility substitution—doing things at a distance that we would otherwise move to do. But as we shall see, mobility substitution is an added extra, not a viable alternative to mainstream mobility. The only viable design option, design strategy three, is to design away the need to move and foster new time-space relations: from distance to duration, from faster to closer.

Modern mobility comes with a price, but the price tag is seldom visible, and we seldom pay it—or not directly. The planet does. Not only is transport expensive in time and money to the user, but it involves such external costs as accidents, traffic congestion, air pollution, climate change, noise, and hidden infrastructure costs. In Europe, these add up to more than 6 percent of gross domestic product (GDP). As global systems, air, rail, and road travel are greedy in their use of space, matter, and energy.

We Europeans are proud of our high-speed trains and believe them to be environmentally far more friendly than aircraft. But we’re wrong. High-speed trains are not a light alternative. A total of forty-eight kilograms (about a hundred pounds) of solid primary resources is needed for one passenger to travel one hundred kilometers by Germany’s high-speed train. Researchers at Germany’s Martin Luther University used material flow analysis and life cycle analysis to study the construction, use, and disposal of the system’s rail infrastructure. They measured everything from the running costs of train retrofitting factories to the petrol used by passengers getting to the station—even the provision of drinking water. They added these to numbers for the carbon dioxide emissions, cumulative energy demand, and so on to derive a “material input per service unit,” or MIPS, for train service. The energy demands of the traction process—actually moving the train—dominate the system’s life cycle, but the construction of tunnels and heating rail track points during winter also impose a significant cost.
Making mobility more efficient will not resolve our core dilemma: that although mobility will not stop growing of its own accord, the perpetual expansion of mobility is unsustainable. This is not just the opinion of green activists; a recent report by twelve global automotive and energy companies concluded that if today’s mobility trends continue, the social, economic, and environmental costs worldwide will be unacceptably high.

continue…

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Faltam bibliotecas no Brasil, país de telespectadores

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Deu na Folha de S. Paulo de ontem: Brasil tem uma biblioteca pública para cada 33 mil habitantes, 5.796 no total. Na Argentina, país com os quais rivalizamos, a média é de uma biblioteca para cada 17 mil pessoas, já na França, é de 1 para cada 2.500 pessoas. Além das públicas, temos 52.634 bibliotecas escolares, 2.165 universitárias e cerca de 10 mil comunitárias.

A qualidade desta bibliotecas é bastante discutível, poucas tem perto dos 25 milhões que estão sendo investidos no restauro da Mário de Andrade, a municipal do centro de São Paulo que foi dominada pelos insetos, em matéria na página anterior do mesmo caderno Cotidiano da mesma Folha, investimento necessário e tardio, diga-se de passagem.

Num país sem bibliotecas e sem hábito de compra ou leitura de livros, resta mesmo é celebrar os 80 anos da Hebe Camargo e tantas outras festas ligadas a televisão, muitas inclusive, pagando cachês para ex-participantes de BBB. Adoraria poder dizer que cada país tem o povo que merece, mas é neste que vivo, e onde crio os meus filhos, ou seja, preciso contribuir para mudar alguma coisa. Em casa, já se tem o exemplo, minha biblioteca, além de bastante boa de qualidade, já tem mais livros que muitas dessas citadas acima, mas ainda bem distante da do Mindlin, citado abaixo… E a sua? Já é maior que a TV de plasma pelo menos?

De quem, para quem gosta de livros - No mundo dos livros do Mindlin

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O José Mindlin é um dos maiores defensores da leitura e dos livros no Brasil. Dos mais representativos bibliófilos, doou uma grande parte da sua biblioteca, a que chama de Brasiliana, para um instituto dedicado aos estudos brasileiros, prédio que está sendo construído na USP.

Quando eu tinha a Negócio Editora, a biblioteca dos funcionários chamava-se José Mindlin, e tivemos a honra de tê-lo lá na inauguração, fez uma palestra para a equipe e alguns clientes e colocamos na parede a frase: Num mundo onde os livros não existissem eu preferia não viver, ou algo parecido que tenha esse sentido.

Meu projeto de móveis, infelizmente não bem-sucedido, iniciava-se com uma poltrona de leitura que levava o nome dele. Apanhei da ergonomia, ele virou imortal, perdeu sua companheira de vida e de livros, descobri agora na leitura de No mundo dos livros, que ela além de cursos de encadernação e preservação de livros, montou até uma associação.

O livro é simples, despretensioso, muito bonito e serve como indicação de algumas leituras. Se não aprofunda, passa rápido, vale para aumentar a relação do leitor com os livros e é um estímulo para aumentar ou iniciar uma biblioteca. Talvez você consiga ainda criar um esquema parecido com o do Mindlin: como sebos praticavam preços diferentes, comprava em um, o mais barato, e deixava em consignação em outro, mais caro, a diferença pegava em créditos. Esse “pequeno golpe” não durou muito e foi fundamental para um jovem sem dinheiro iniciar a montagem da sua biblioteca, foi o que chamo “destinação do bem”. Carlo Ponzi, inspirador de Maddoff, também descobriu que alguns títulos, jã não lembro muito bem do que, tinham preços diferentes na Europa e nos Estados Unidos, comprava em um lugar e vendia no outro, mas acabou tendo a “destinação do mal” e você já deve ter visto muita pirâmide por aí, bem mais do que biblioteca…

Dom José Cardoso Sobrinho - O bobo da corte - revolta

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Achava que o assunto apesar de gravíssimo já estava se estendendo demais e, de tão absurdo, não queria mais falar . Mas agora estava com meus dois filhos embaixo do prédio enquanto eles andavam de patinete e o porteiro me perguntou se queria ler a Veja, quis, e ao ler a chamada “estou com minha consciência tranquila,  Não podia prever essa reação em nível nacional e internacional, mas remorso sentiria se tivesse ficado em silêncio”, imediatamente comecei a ler a entrevista e a ter certeza que mais remorso sentiria eu se não tivesse falado nada, mesmo, que poucos me escutem. Se apenas uma pessoa ao ler este blog refletir, enfrentar as ameaças da instituição e rever sua posição, será uma enorme vitória. 

Ao longo da entrevista sentia um misto de arrependimento por ter por vários anos frequentado a igreja católica, e alívio, por ter há mais anos abandonado essa prática e assumido minha visão atual de mundo. Tive vontade de ligar para minha mãe, católica praticante e crítica do meu ateismo e conclamá-la a ler, não apenas as palavras do arcebispo, aí justiça seja feita, ele não fala por si, fala pela instituição, e me dizer como é que consegue defender tamanho arcaismo, egoismo e insensibilidade.

Há tempos não lia tanta besteira, se discordar, confira no link : entrevista não reclamem ao bispo.

Foi útil saber que agredir ao papa, profanar hóstias consagradas, negar um dogma da igreja, consagrar um bispo sem a licença do papa,  absolver um sacerdote cúmplice de um pecado de carne, violar o segredo da confissão, abandonar a religião, (deve ser a católica é claro) e praticar o aborto (o Sobrinho declarou 9 mas a reportagem apresentou 8, não vou perder o meu tempo investigando o nono, espero que não tenha sido a consciência de Sobrinho quem falhou, apenas a memória), são todos atos mais graves do que estuprar uma menina de 9 anos ou matar alguém, os únicos atos passíveis de excomungão.

Confesso que não tenho palavras, se escrevesse amanhã talvez conseguisse ser mais contumaz, mas perderia um tanto da espontaneidade. Vou ligar agora mesmo para o meu amigo frei e pedir que pense mesmo se faz sentido acreditar numa instituição que mais se preocupa com o poder de seu regente do que com as questões que atormentam seus seguidores. É incrível ver na entrevista o tempo e energia que Sobrinho despendeu em relação a questão e imaginar que felizmente a menina que ele e eu não sabemos o nome, não teve que ouvir a pregação de que tudo já passou, que agora, a igreja daria a ela o conforto. Mas  o pior é ficar triste e lamentar não ter conseguido realizar a festa de batismo que menciona ter planejado. Se você é católico, aliás, de qualquer religião, pense nisto amanhã antes de entrar na igreja ou no templo. Entre em contato com a sua consciência de forma autônoma, só isso que sugiro.

Espelho LVI

Ser humano é ter vaidade suficiente para acreditar que todos acreditarão que uma grande história só contém bons exemplos…

O lado oficial deixou o livro morno - Desvirando a página, a vida de Olavo Setubal

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Olavo Setubal teve uma vida de grandes realizações, é verdade que a origem foi privilegiada, a formação também, mas quantos não conseguem sequer utilizar da primeira para alcançar a segunda? Olavo conseguiu e andou com pernas próprias, teve familiares e amigos que lhe abriram portas mas foi lá e fez, antes, racionalizando tudo. O grupo Itaú é incontestavelmente um dos grandes cases de sucesso no mundo empresarial brasileiro.

Mas com todo o poder que foi alinhavando em torno de si não conseguiu tudo, não virou governador de São Paulo, nem presidente da república. Apostou suas fichas no cavalo errado e preferiu não mergulhar mais fundo num mundo complexo como a política. Apesar de me considerar muitas vezes explorado pelo Banco Itaú, e de certa forma até um contribuinte modesto na formação daquele império, já paguei religiosamente (é verdade que sou ateu, mas paguei mesmo) todos os ALTOS juros cobrados pela instituição, acredito que seu estilo de gestão teria contribuído para uma verdadeira modernização do estado brasileiro. Mas os autores, Ignácio de Loyola Brandão e Jorge Okubaro, não souberam explorar essa frustração, aceitaram que foi mais uma página virada na vida dele, duvido que tenha sido assim lá no íntimo.

E esse defeito se estende ao longo do texto, eles deveriam chamá-lo de Dr. Olavo, se curvaram diante da imponência e tradicionalismo do personagem, é claro que é uma biografia oficial. Já fui ghost-writer de biografia, não é fácil tentar abrir o olho do biografado para mostrar uma obra verdadeira, não apenas com as conquistas bonitas, mas Loyola tem uma trajetória como escritor, por isso acho que em alguns momentos os “comentários sobre papai” ou as considerações sobre o “doutor Olavo” deveriam dar lugar a uma investigação mais forte, mas isso é o material que restou para quem for escrever a outra biografia, a não oficial, segmento que deveria ganhar muito mais força no Brasil.

Talvez a de Olavo demore um tanto, mas será delicioso, talvez para os meus filhos e netos saberem também um pouco do lado menos nobre do Itaú, do que os que ficaram do outro lado na política achavam do Olavo, e também, seria muito bom se os Villela tivessem tido uma voz mais forte, por mais que o time esteja ganhando, os homens são vaidosos…

Desvirando a página, a vida de Olavo Setúbal, Global Editora, serve para conhecer a formação desse grande grupo empresarial, é um estímulo ao investimento em gestão, vale a leitura para quem é do meio empresarial, para o público geral, peca por não conter elementos mais humanos de uma grande família. Ou será que os sete filhos, só dois não envolvidos na dinâmica do grupo, nunca tiveram que presenciar o tão característico gesto de bater com as palmas da mão na mesa e ouvir um “está resolvido” de um pai formal e concentrado no trabalho, não sabendo como administrar uma crise familiar?

Faz pouco tempo que o mundo começou a mudar!

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Assisti Milk, o novo filme de Gus van Sant, no mesmo dia que O leitor, costumo fazer sessões duplas, ainda mais quando a logística de compatibilizar as saídas com minha mulher e os filhos em casa com alguém permite.

A atuação de Sean Penn é muito boa, não conheci Milk, mas papéis homossexuais podem sempre cair mais para uma caricatura, um exagero. Faz muito pouco tempo que o mundo mudou, eu moro nos Jardins em São Paulo, região tida como “liberal” (vejo mais homem com homem e mulher com mulher aos beijos e abraços do que alguém que mora em outros bairros ou cidades mais fechadas. Na minha infância em Itapeva, acreditava que tinha somente um bicha na cidade, o Zuza, uma figura caricata, depois se falava de mais alguns, mas a estatística me mostra que existiam muitos outros), tenho amigos e amigas homossexuais, é verdade que com poucos discuti o assunto abertamente, também não teria porque ter esse tipo de discussão, mas confesso que ao ver o político que matou Milk se suicidar depois, tive a certeza que entendi muitos desses atos extremos, ou seja, algumas mortes que já classifiquei como depressão, classificaria hoje como uma incapacidade de assumir para si ou para o mundo uma opção sexual que vai contra os valores, superficiais ou profundos que os cercavam.

Apesar das resistências o mundo caminha a passos firmes para ser um lugar mais agradável e tolerante. Hoje é possível ler nos jornais que Obama liberou estudos de células tronco e é quase um consenso que o arcebispo é um tremendo ignorante. Continuo pessimista em relação a espécie, mas reconheço que ela evolui, assistir Milk e ver alguém encontrar, na maturidade um sentido para a própria vida, uma causa.

Humor de primeira qualidade - Agamenon: Collor e Justus

A coluna do Agamenon de hoje em O Globo tem uma “coluna” imperdível. Falando em protestos, já o fiz contra o tal arcebispo e agora o faço contra o novo presidente de comissão do PAC no Senado, Fernando Collor de Mello, ou como diz o Agamenon, Cheirando Collon de Melo, ou então Ferrando Cólon ou ainda Fernando Technicollor de Mello, mas o melhor foi a foto, não é nenhuma dos tempos de exposição máximo do ex-presidente, é de um cover de estilo arrumadinho, o publicitário, mega-star, cantor e topetudo, Roberto Justus.

Abaixo só tem o texto, mas imagine a figura do Justus sobre ele, não é uma combinação perfeita?

Figuraça da semana
Fernando Technicollor de Mello

Atleta desde jovem em Alagoas, Cheirando Collón de Mello praticava o karatê boliviano e mais tarde foi campeão de supositório à distância (ou seria profundidade?). Durante a longa noite da ditadura, o ex-presidente exerceu grande atividade noturna em Brasília: foi precursor dos pitboys e seu passatempo era dilapidar a fortuna de sua família e várias boates, não necessariamente nesta ordem. Foi eleito presidente mas, devido às falcatruas de seu personal careca PC Farias, acabou indo pro paredão e foi eliminado no Big Brother Brasília. Curtiu um sofrido exílio em Miami, onde aprendeu a falar a língua local, o portunhol, com fluência. Depois de se separar de Rosane Collor, a Primeira Loura da República, a vida de Fernando Dollar mudou radicalmente: jura que parou de beber uísque Logan’s e usar substâncias “tóchicas”. Só não conseguiu parar de mentir. Agora que está de volta ao poder (poder com PH), Ferrando Cólon pretende mobilizar o país com mais uma campanha demagógica e populista: prometeu acabar com os marajás na novela “Comi o das Índias”.

Luto - acho que os católicos devem protestar

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Estava pensando em não me manifestar contra a asneira do cidadão José Cardoso Sobrinho, autor de uma das mais absurdas manifestações dos últimos tempos. Tão grave, difícil colocar escala nesses destemperos, quanto o que disse Richard Williamson, mas este já foi expulso da Argentina, sinceramente acredito que Sobrinho deve ser punido.

Digo mais, acredito que ao julgar o aborto mais grave que o estupro, inconscientemente legislou em causa própria. É a defesa mais baixa do ser humano.

Se eu fosse você 3, para muitos a vida é apenas um sonho

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É fácil encontrar os dualismos na vida, em vários segmentos. No cinema um deles é entre a comédia e o drama. Ainda não assisti a Se eu fosse você 2 do diretor Daniel Filho, não iria assistir, mas os milhões de espectadores me farão ir, para entender melhor um pouco da minha brasilidade, depois comentarei.

Mas assisti Foi apenas um sonho. Ao invés de Tony Ramos, Leonardo de Capprio, Kate Winslet e não Glória Pires, as risadas não invadiram o meu rosto, se não cheguei às lágrimas, pude olhar com o maior interesse o que Sam Mendes enxergou do livro Revolutionary road de Richard Yates, livro que já tinha comprado e comecei a ler imediatamente após o filme.

Em São Paulo ficou apenas em 1 sala, na Reserva Cultural, lamentável, estreou no final de janeiro, ou seja, não deu muito mais de um mês. Minha especulação, devido a qualidade do filme é que os paulistanos e brasileiros em geral preferem se divertir por duas horas do que olhar para o que talvez vivam, ou fujam na sua vida fora das salas. O filme é um belo exemplo de como os sonhos podem ser sobrepassados pela realidade, como sonhar é muito mais fácil do que fazer e como os sonhadores e, principalmente os vizinhos e amigos, reagem diante dos que iniciam um processo de ruptura com a mediocridade gulosa.

As cenas do trem e do escritório deveriam ser vistas por todos os que trabalham em empresas. Se diante delas essas pessoas não pararem e mergulharem numa reflexão profunda, são caso perdido, restará curtir a situação confortável mas estéril que facilmente toma conta das vidas dos que sonham e não agem. Quando acabar o livro, comento aqui.