20 de Abril de 2009

Multimídia? O homem da tarja preta

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Fui assistir a O homem da tarja preta, peça de estréia do psicanalista Contardo Calligaris no teatro. Admirador assumido das reflexões de Contardo as quintas na Folha de S. Paulo, incluí-o na lista daqueles que viram alvo de meu escrutínio, para ver se param em pé, nas várias áreas que se metem. Já li seu romance e continuei preferindo o articulista, agora vi sua estréia no teatro e ainda fico com o articulista.

Não gostei da peça, o ator competente mas não me causou simpatia, asseguro que não foi pelo traje, nem pelas fantasias, é claro que quando se tem altas expectativas tudo é mais complicado, mas desde o diálogo inicial em off fiquei cismado. Sendo até mesmo um pouco cruel, o diálogo me lembrou mais o resquício do que assisti de O analista de Bagé, que parece finalmente o Luís Fernando Veríssimo conseguiu que o Claudio Cunha mudasse o título. Sim, fui assistir a esta peça há uns 20, 25 anos, quando achava que o texto era de um intelectual, o ator e diretor era alguém de teatro, confesso que só tinha clara certeza, aos 17, 18 anos, de saber que a atriz não era ninguém muito além de uma gostosa que pousava para a Playboy. Mas foi essa a associação causada.

Durante a peça ouvi risos para mim indevidos e confesso que a música final me deixou muito frustrado, mas é melhor não contar. Num esforço de avaliar se era identificação com o personagem, imbui-me de uma reflexão, acho que não, a não certeza é apenas precaução para não ser radical, estamos falando do trabalho de um analista, minhas fantasias não passam pelas mesmas do protagonista e que o novo homem não quer ser a “puta da internet”, por mais que tenha acesso a uma pornografia virtual facilitadíssima. Acho que os clichês foram exagerados, pareceu esforço de intelectual para se popularizar.

2 comentários em “Multimídia? O homem da tarja preta”

  1. luciana

    Olá,

    Acabei de voltar do teatro e discordo completamente de você, exceto pelo que disse dos “risos indevidos”.

    O que achei mais interessante no espetáculo é como Contardo colocou a questão de não nascermos o que somos, mas nos tornamos nossa “identidade paralela”.

    A idéia de masculinidade é bombardeada por dúvidas, incertezas, inseguranças que atigem o personagem. Acredito que todos nós, em maior ou menor grau, passamos por indagações que podem nos trazer o pensamento de crise existencial, confronto com a sexualidade, e a idéia de não poder ser o que se é. Identificações sempre existem, por mais que não gostemos.

    A utilização de um personagem crossdresser é apenas uma forma de abordar esses assuntos, mas a questões levantadas durante o espetáculo podem se encaixar em nós de diferentes formas.

    Precisamos aprender a ter uma visão mais ampla certas coisas, por exemplo, não ficar apenas restrito a situação exposta no palco. Eu vejo o teatro como uma lupa da vida, mas não como a própria. Talvez você tenha achado certas partes exageradas, mas o teatro não é a vida real, porém nos coloca diante de questões observadas e pensadas com uma lente de aumento.

    Um abraço
    Luciana

    PS: Achei genial o final, inclusive a música!

    Na minha opinião o ator foi fantástico e, para mim, sua atuação forte ressaltou o que eu disse acima.


  2. Luciana

    Respeito tudo o que você falou, acredito também na identidade paralela e todas as questões que “assombram” o personagem, inclusive por vivência própria. Também gostei do trabalho do ator, mas achei a música e a roupa um pouco clichê demais. Bom que nós dois vimos e tivemos opiniões diferentes, mas vimos e cada um coloca um pouco de sua sensação para os outros, nas conversas particulares. Tem Fernanda Montenegro agora, com Simone de Beauvoir.Está na minha agenda.

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