Paixão, aposentadoria e vida, Mario Benedetti
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Acabei minha “homenagem” ao Mario Benedetti, mas não tenho dúvida que o maior beneficiado fui eu. Recomendo fortemente a leitura de A trégua, seu principal romance, relançado o ano passado pela Alfaguara. Benedetti é “dos meus”, grupo de escritores que escrevem do jeito que eu gosto. Críticos, densos, profundos, mas elegantes, entendem de gente.
O livro conta a história de um “velho” a beira da aposentadoria, sim, os homens já se aposentaram aos 50 anos. Viúvo, ganha uma novo gás ao se apaixonar por uma funcionária, com metade da sua idade. A vida ganha um outro colorido, outra perspectiva, a ex-mulher um novo papel, os filhos reagem de maneira diferente, alguns percebem a melhora, outro não, tarde demais para retomar diálogos que sequer se iniciaram.
O formato é de diário, eis alguns exemplos da prosa de Benedetti, como a resposta a um amigo para quem pediu dinheiro emprestado e este lhe questionou: ”Sim, no mesmo, porque, se tenho de pagar esse preço invasivo de lhe abrir minha vida íntima, meu coração, meus intestinos etc., prefiro conseguir o dinheiro em qualquer outro lugar, onde só me cobrem juros” (passei por situação parecida, sei do que ele fala…). Ou então, para definir os diretores de uma empresa: “Para esta pobre gente, em contraposição, o máximo é conseguir sentar-se nas poltronas de dirigentes, experimentar a sensação (que para outros seria tão incômoda) de que alguns destinos estão em suas mãos, alimentar a ilusão de que resolvem, de que dispõem, de que são alguém. Hoje, no entanto, ao observá-los, eu não conseguia encontrar neles um cara de Alguém, mas sim de Algo. Parecem-se Coisas, e não Pessoas. […] E padecem a mais horrível variante da solidão: a solidão daquele que nem sequer tem a si mesmo.” (este cara já esteve numa empresa…).
Insisto que vale a leitura.
