
No caderno Equilíbrio de hoje, a psicanalista Anna Veronica Mautner levanta a discussão: Existe ainda função para as bibliotecas?
Lembra que estas já foram um local de convivência e cidadania, as pessoas iam até elas para ler jornais, revistas, livros, conversar, escrever, trocar idéias. Eu, lá em Itapeva, ia ao nada tão democrático, Gabinete de Leitura Itapevense, tinha 10, 11 anos, respeitava a bibliotecaria, era alguém importante, retirava e lia. Não tinha acesso facilitado aos livros do meu avô, erro que espero não cometer com a minha família, mas o que mais me lembro e do livro Meninos do Brasil, Ira Levin, uma ficção que envolvia o nazismo, uma marca não completa, mas uma marca boa, um dia, se sobrar tempo, releio para fazer a junção com meu passado.
Depois o Gabinete de Leitura Itapevense virou Itapeva Clube, a biblioteca deu lugar a uma sala de jogos e um salão para bailes e com certeza, morreu um pouco da leitura da cidade. Talvez meus irmãos, poucos anos mais novos já não tenham dela, nenhuma lembrança.
A autora coloca que as livrarias assumiram um pouco o posto das bibliotecas como lugar de convivência e contato com livros, lembra da geração dos professores da USP que se reconhece como integrante do “geração biblioteca”. Faço mea culpa, as últimas bibliotecas que visitei não ficam em São Paulo, foram no Rio de Janeiro, Amsterdam e Weimar, mas turismo do que utilização. É verdade, tenho a minha, nela faço o que quero, ainda não a organizei, curto me perder, procurar pela lombada (o pior é que está dividida, uma parte numa casa de campo que está alugada, meus livros longe, e eu torcendo para que estejam seguindo minhas recomendações e deles, cuidando bem) mas é meu capricho mais caro e egoísta, vou repartir com alguém além da família e dos amigos?
Ainda não sei, mas por mais que fique navegando na internet em busca de livros e informações, ainda penso no Gabinete de Leitura como algo saudável, meus filhos já olham a biblioteca da escola mais como obrigação, mas ambos tem em seus quartos uma quantidade razoável de livros e me vêem constantemente manipulando os meus. Acredito que este microuniverso esteja preservado, mas é pouco, nós não nos bastamos, precisamos e convivemos com outros, e aí, seria muito melhor ainda, se todos eles também tivessem contato com os livros.
Fica a idéia para os administradores públicos, que tal dar um gás nas bibliotecas? Que tal potencializar programas de leitura, troca e convivência? Dar õutra vida a essas instituições que, em grande parte, vivem de pedir doações às editoras…