27 de Junho de 2009

Cultura é para ter ou mostrar?

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Você vai para a Flip (Festa Literária de Paraty)? Eu vou, mas concordo com uma reflexão colocada por José Godoy no Valor de ontem: a literatura está se tornando a nova vedete do verniz da maquiagem social.

O que isto quer dizer? Talvez que seja mais produtivo demonstrar ter cultura do que vivenciar a cultura, internalizá-la e modificar a ação. Confesso que fico um pouco receoso de não conseguir ver nos números de venda de livros, todo o entusiasmo observado na Flip, nas aulas da Casa do Saber, da Escola São Paulo e tantas outras iniciativas.

Dá para entender, lógico. Pegue António Lobo Antunes, li apenas um livro seu, não é um escritor fácil, bem mais fácil é assistir sua palestra, conhecer duas ou três histórias suas e utilizar isso como cartão de apresentação, como adicional de inteligência diante de um interlocutor com tantos ou mais buracos do que você. Ou então uma aula, não é melhor um professor herdeiro dos cursinhos, mastigar todo o pensamento filosófico daquele grego ou francês e ainda por cima, correr o risco de conhecer um carão bonitão, uma mulher interessante. Muito mais fácil do que mergulhar sozinho na obra desses caras todos, que é claro, pouco se preocuparam em criar um caminho de acesso universal.

Fico me perguntando qual é a média de leitura de todas as pessoas que rapidamente já fizeram esgotar os ingressos para a tenda dos autores e até para a tenda do telão. Imagino que Lobo Antunes nunca se imaginou tão lido no Brasil. Se sim, não teria ficado 25 anos sem vir para um lugar que fala a sua língua e guarda um pouco de sua história…

Quem me encontrar pode tirar a prova, estarei sem maquiagem, cosmética ou cultural…

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