Espelho LXV
Ser humano é utilizar a energia final dos seus músculos para o último esforço da comemoração. Mas é também desperdiçar a mesma energia, em besteira, em culpa, no dia-a-dia…
Ser humano é utilizar a energia final dos seus músculos para o último esforço da comemoração. Mas é também desperdiçar a mesma energia, em besteira, em culpa, no dia-a-dia…
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Poder dizer que é o homem mais rápido do mundo no que faz, é para poucos, menos ainda para brasileiros. Há 48 anos não tínhamos um recordista mundial nesta distância, aliás, somos raros em todas as distâncias, em vários esportes.
Fiquei receoso com toda a exposição que o Cesar teve, deu algumas entrevistas dizendo que queria, de forma muito justa, aproveitar a vida, achei que poderia atrapalhar na performance esportiva. Não atrapalhou, o cara tá melhor ainda, campeão mundial e recordista, não bate pino, mas bate muito perna e braço. Parabéns!
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Assisti Coração vagabundo, o filme de Fernando Grostein Andrade, sobre Caetano Veloso. Gostei bastante. Depois dos 40, com fama de durão, passei a respeitar tudo o que me tira lágrimas. Ontem no cinema foi assim, apesar da baixa companhia, apenas mais umas 15 pessoas, mesmo com o filme em poucas salas e o diretor sendo estreante. Achei que o burburinho sobre o Caetano, sobre a nudez do Caetano iria atrair mais gente. Espero que o faça.
O filme é muito mais do que a suposta cena de nudez inicial, tá bom, dá o que falar, não o que ver, não que eu quisesse ver. Também é possível imaginar que Caetano precisou gravar em inglês para viabilizar algo assim, um pouco do provincianismo que Caetano tanto fala, no filme também.
Acredito que chorei porque as músicas de Caetano estão impregnadas dentro de mim, mas mais impregnada ainda está a sua tentativa de conquista de amplitude cultural. De Santo Antonio da Purificação para o mundo, missão cumprida. Eu ainda estou longe de fazer minha trajetória de Itapeva para o mundo, mas não desisto…
Caetano é polêmico, ainda acho que um privilegiado da Lei Rouanet, mas um artista grande, alguém que soube envelhecer e se manter interessante por um longo período. Na minha opinião, ou melhor, na minha memória, ninguém conseguiu tanto quanto ele nos tempos atuais, e aí dá para extrapolar as fronteiras descobertas por Cabral.
O filme tem uma sensibilidade de imagens, uma estética adequada, para mim o Fernando mostrou talento em pegar imagens de acompanhamento de shows e juntar com as músicas, as grandes responsáveis pela emoção, não diminuiu a força de um trabalho, reconhecido por Almodóvar. Aliás, outra parte emocionante do filme é ver Antonioni olhar para o seu trabalho da perspectiva da condição final e se conformar com o pouco que a vida ainda lhe permite.
Se não levantei pelo hino nacional no último jogo de futebol, ontem senti um orgulho de ser daqui, a arte é maior do que muitos outros campos de ação humana. Em momentos como o que vivemos, vale a posição de Caetano de não se maquiar para não correr o risco de ficar com cara de político babaca… Vale sim assistir.
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Li o livro do Joseph Roth mesmo sem ter lido sobre o Jó bíblico, confesso que a única experiência com o personagem da bíblia foi narrada pela empregada de casa, uma presbiteriana ferrenha, ao se defender de algumas críticas minhas à religião.
O livro é sobre um homem modesto, não ambicioso que ensinava religião na Rússia e teve sua fé abalada pelo nascimento de um filho problemático, a chamada dos outros dois para a guerra, um desertou e foi para a América, e as aventuras amorosas da filha adolescente com um estrangeiro. Sem dote para arranjar casamento melhor para a filha, aceitam o convite do filho desertor e partem para a América. Deixam o filho com problemas que nunca os deixa.
O casal vive burocraticamente e esta relação é bem explorada pelo autor. As coisas é claro melhoram, depois pioram até uma redenção final. Não sei se gosto da recuperação total do filho problemático, mas no mínimo, guardo deste livro uma reflexão interessante dos mandamentos: em determinado momento um dos personagens questiona o que sente pelos pais. Uma certa culpa por não amá-los, mas aí é salvo pelas 10 mandamentos, a quem o amor é devido apenas a deus, aos pais, resta preencher-se com a honra.
Uma visão um tanto egoísta, do ponto de vista de um ateu, o mundo seria diferente se os mandamentos 1 e 4 fossem levemente trocados?
1) Honrar a deus sobre todas as coisas
4) Amar pai e mãe
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Os editoriais da Folha de S. Paulo e do O Estado de S. Paulo fizeram em dias diferentes importantes considerações sobre o novo “aditivo” do governo federal. A Folha foi feliz ao compor a dupla pão (vale-refeição) e circo (vale-cultura), sim, a cultura precisa de um fomento, mas sem a educação, nada vai adiantar.
A não ser alguns empresários e produtores culturais que vão crescer seu faturamento. Os Sjazman, espero estar errado, já se ouriçaram, mesmo tendo vendido a carteira do vale-refeição, já se preparam para montar a carteira do vale-cultura, mesmo morando em Nova York, o Sjazman Filho, de onde possivelmente pode ter acesso mais fácil às peças da Broadway, já declarou que esse vai ser o grande crescimento da empresa nos próximos anos.
O Zé Celso aparece feliz ao lado do Lula que reclama da dificuldade de algumas produções. Sinceramente não consigo vislumbrar nem intenção, nem desejo no presidente de se aproximar da cultura, é um bicho político, em todas as possibilidades do termo. A classe artística corre o risco de se meter ainda mais na política, já não bastassem os desvios da lei Rouanet.
Eu já tive uma experiência muito parecida. Foi na Negócio Editora, e meio frustrante, há 7 anos as pessoas também poderiam gastar 50 reais por mês em cultura, era subsídio integral da empresa, a contrapartida era que elas precisavam escrever sobre o que fizeram, um exercício de escrita. Das 20 pessoas da época, apenas uma era usuária fiel do sistema, as outras não tinham tempo, isso, trabalhando numa editora que entendia como importante uma consciência cultural. Ou seja, já identificava uma falta de valorização daquela oportunidade, não a extingui por vergonha, e para não ser injusto com uma pessoa.
Tomará que as coisas tenham mudado, mas sem um investimento sério na educação, como pregado pelos jornais, será mais um programa que corre o risco de deixar os donos dos canis ricos…
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O cadernos Prosa&verso de O Globo de ontem traz uma matéria interessante sobre o que eu classifico de “a relação fadada a dar errado”, a relação autor-editor.
Já fiz bons amigos autores, minha experiência como autor foi comigo mesmo de editor, facilitou bastante. Mas insisto que é uma relação difícil, mais intensa que muitos amores por alguns dias, não sobrevivendo ao esfriamento e as dificuldades e incoerências dos dois lados. Talvez um autor fantasie o editor mais do que ao próprio conjuge, e vice-versa. Mas como digo, a editora vai falhar na distribuição, divulgação, suporte ao autor, e isso, vai frustrá-lo.
Do lado do autor, nem sempre o que escreve e cria, é o que faz, daí, tantas arestas. No Globo, não consegui acesso aberto, apenas ao blog (clique aqui se quiser dar uma olhada restrita), há um autor e um editor escrevendo, os dois anônimos, expondo um pouco dessas diferenças. Há também a história de Raymond Carver, que teve livro reeditado agora pela Companhia das Letras, numa versão bem diferente da muito bem-sucedida, lançada e consagrada em 1981, com o detalhe de ter sido editada (e bastante cortada) por Gordon Lish e aberto ao autor o céu do minimalismo, posição em que morreu e inspirou muitos seguidores, mesmo sem ser.
Talvez este seja um exemplo dos bastidores do mundo editorial. Não revelo em público, mas já me arrependi de ter ajudado a criar alguns monstrinhos…
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Ontem tive um encontro de amigos. Um de 30 anos, outro de 36 anos, ou seja, amigos de longa data, rejuntados pela vida, chegando até aqui por caminhos dos mais diferentes.
Ganhei do que é frade, sim, um ateu com um amigo frade, um exemplar do novo livro do Frei Betto, Diário de Fernando. Exemplar com a dedicatória direta: muita fome de justiça.
Encontro poucos interlocutores nos representantes divinos, tenho um especial respeito pelos dominicanos, passado recente e presente. Admiro Frei Betto, escreve artigos no limite, passou pelo poder e foi dos poucos que de lá se afastou, me parece que por descordar do rumo dado, pelos que supostamente lutaram mais ao extremos, ao sentarem-se nas cadeiras do poder (não li A mosca azul, mas lá isso deve ser mais abordado, aliás, fica a provocação a Betto, escrever um perfil de Lula, antes, durante e depois do poder, será ilustrativo e legitimo).
Pretendo ler Diário de Fernando, ainda sinto uma culpa de outro por não ter nascido alguns anos antes e ter combatido de forma mais efetiva a ditadura, mas agora tenho um “programa” de leitura montado. As condições em que foi escrito e viabilizado, pelo frei Fernando de Brito, em letras minúsculas de papel de seda, posteriormente enroladas dentro de uma caneta bic trocada pelo visitante da semana, já justificam. Antes de colocá-lo nesta seção da biblioteca, li a introdução e também acho que as memórias de alguns, de várias matizes, precisam sim tornar-se perenes e subversivas (quando o autor cita o filósofo Walter Benjamin).
Mas fazendo uma auto-análise, talvez os três amigos de ontem, 20 anos atrás aderissem a luta contra a ditadura de corpo e alma. Nos dias de hoje, talvez colocássemos apenas a alma. Será que o mesmo se passaria com os frades dominicanos presos? Com os outros jovens que perderam suas vidas ou ganharam marcas em seus corpos e mentes? Ou seja, mudei eu, mudou o entorno, mudamos todos?
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Fiz um curso sobre biografias com o Ruy Castro lá no O barco que acabou nesta quinta, 4 aulas, muita gente, pouca troca, estava mais para palestra, fiquei um pouco frustrado. Mas para maximizar, comecei algumas lições de casa. A primeira foi iniciar a leitura de O anjo pornográfico, quando acabar, comento aqui, daí, envolvido no universo rodriguiano, fui hoje assistir a Vestido de noiva.
Estava com um certo preconceito em relação aos atores, Globo demais, teatro de menos. O ingresso é precinho Globo, 60 reais, caro, apesar da montagem ser bem feita e interessante, a direção é do Gabriel Vilela, o teatro, dentro da firma de celulares Vivo, pede apenas para colocar os aparelhos, dela e da concorrência, no modo vibratório.
O clima de Nelson Rodrigues é trazido, vou tentar acompanhar as montagens de sua obra para poder avaliar os detalhes, mas a atuação das atrizes principais, deixou a desejar. É uma peça de mulheres, duas irmãs disputando o mesmo homem, e os pais, como sempre, sem perceber nada… Para mim Leandra Leal deixou a desejar, mas Vera Zimmermann muito mais. Balanço final: numa noite fria e chuvosa de São Paulo, Nelson Rodrigues viu sua obra ser aplaudida de pé, pelos exagerados de plantão na cidade, aplaudido mornamente por mim, mas feitas essas considerações, não me arrependo de ter ido.
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O Estado de S. Paulo de hoje traz uma boa entrevista com o professor de ética da Unicamp, Roberto Romano. Para mim ética é da maneira mais fácil definida como capacidade de olhar no espelho sem sentir a consciência pesada.
Romano lembra que tem muita gente muda com todos esses descalabros porque existe uma quantidade muito grande de ONGs dirigidas por pessoas físicas e que dependem de verbas governamentais, ou seja, trocam seu silêncio e ideais por verba do governo. Por isso sou a princípio contra ONGs, muitas fazem trabalho importante? Sim, fazem, mas é preciso encontrar outra solução.
Sempre acreditei que a vaidade e a ambição (que também as tenho) ficam melhor na iniciativa privada, é mais honesto, fica tudo no privado, não é utilização do público, ou como vejo em muitas ONGs, não fica a necessidade de construir uma imagem de preocupação com o todo, com a generosidade excessiva, quando na verdade, muitas vezes, só se quer mesmo é ter o ego amaciado, ou uma culpa, “perdoada”. Ongueiros, reflitam…
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É claro que cargo político tem suas demandas. Mas a presidente do Sindicato dos Editores de Livros, Sônia Machado Jardim, exagerou na sua defesa da isenção de PIS e Cofins no setor. Para mim apesar de defendermos a mesma causa, sim o livro depende de alguns incentivos, o discurso é choroso, catastrofista, mal focado.
Parece ameaça de fraco. Está na hora de uma autocrítica. O setor editorial tem sido incompetente em apresentar soluções para o baixo nível de leitura do país. Isso precisa ser repensado, é difícil, sim, mas talvez esteja na hora de uma renovação, a relação com o grande comprador não tem trazido novos ares, nem novos leitores. Alguém tem alguma idéa?
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Os três irmãos aí acima herdam não só uma bela casa como uma importante coleção de arte. No filme do diretor Olivier Assayas, apenas dois deles ainda vivem em Paris, uma foi para a China e a personagem de Juliete Binoche vive nos Estados Unidos.
Essas diferenças fazem que a decisão seja pela venda da casa e da coleção. Precisam fugir dos impostos, mas como as peças interessam ao Museu D’Orsay, isso se resolve, eles conseguem não brigar tanto e descobrem um pouco mis da relação da mãe.
Achei o filme despretensioso, mas é desta forma que empurra o espectador a pensar na sua própria vida. Na minha casa também somo em três irmãos, imaginei os diálogos e iniciativas, encarei por antecipação uma hora desagradável, e isso ele faz de maneira muito interessante. Há também um boa oposição, talvez um pouco clichê, dos valores do final, do meio da vida e da juventude. Acho que valeu, para mim ficou muito claro a vantagem de estar no meio, já entendo a mãe, mas ainda não condenei totalmente os netos, me aproximo da metade, este filme ajuda a preparar para a segunda metade.
Hoje perdi uma parte do meu dia assistindo a São Paulo x Santos, meu time tá numa maré dura, mas era um programa familiar, é sempre mais fácil ter os filhos torcendo para o mesmo time… Já que o futebol tava fraco, tive antes de ter a certeza de que o jogo seria modorrento, a oportunidade de pensar sobre o hino nacional. Já fui um brasileiro “exemplar”, não anulava votos e respeitava o hino nacional.
Hoje confesso, não consegui levantar, é tanta sacanagem nesse país que não dá, seria hipocrisia, pensei nos inúmeros deputados, senadores, ministros, governadores e prefeitos (o presidente incluso) e todos os próximos, alinhada e respeitosamente ouvindo o hino em cerimônias públicas e depois continuando suas práticas vergonhosas. Não levantei para o hino mas me sinto um brasileiro bem acima dessa média que se vê na política, e no futebol também.
Um exemplo de que símbolos e rituais também requerem um mínimo de respeito, se não, descamba tudo. Mas se quiser ouvir o hino, clique nas primeiras estofes abaixo:
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O caderno Aliás de hoje está mal editado, pelo menos na matéria Literatura em 140 caracteres. Tomei um susto ao primeiro olhar, achei que o Sérgio Augusto tinha aderido, as chamadas e legendas não indicavam a posição do jornalista.
Twitteratura é bobagem. Nem vou tentar ser tão conciso, torço apenas para que as máximas não se prejudiquem e saiam dessa onda chamuscadas.
É normal que se faça barulho diante de todas essas novidades, mas não precisa ser nenhum futurólogo para entender, não dá espaço para nada, é só mesmo perda de tempo, alguns podem utilizar para demonstrar estar conectados e serem modernos, mas é inegavelmente uma perda de tempo, depois não adianta reclamar que não se sabe muito. O pior, é que talvez quem fique aí, proteja-se da profundidade da vida. Sigo contra! Para minha felicidade, o Sérgio Augusto também…
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© by Bob Wolfenson (Simão) e J. R. Duran (Juliana Paes)
Quando eu era criança ou adolescente, uma mulher feia de cara e boa de bunda era Raimunda. Juliana para mim nunca foi mais do que isso, por mais que alguns exagerados a tenham “eleito” a mulher mais bonita do mundo, é o poder da bunda, sempre podendo alterar uma avaliação masculina. Sim, nosso ponto fraco, de brucutus a intelectuais, se não tomar cuidado, um homem se perde por uma bunda. Juliana sabe disso, ofende-se com o “casta” do Simão, não importa-se em posar para a capa da Vogue RG em pose nem um pouco moral como a da foto acima, a expressão facial não dá para ser notada, mas é de desejo, queria que os homens imaginassem o quê?
Pensou que os homens do Brasil fariam o quê com suas imagens nuas na Playboy? Não sou contra isso, sou totalmente contra essa reversão e agora censura ao Simão. Só uma pessoa poderia processar o Simão na minha opinião, o Rubinho Barrichello… Mas se ele o fizesse agora, chegaria mais uma vez em segundo…
Juliana, libera o Simão, depois que tudo cair, ninguém mais vai querer falar de você, a menos que comece a mudar de postura e atitude, agora!
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Foi anunciado hoje a criação do Vale Cultura. Trabalhadores de empresas que optam pelo regime de Lucro Real poderão ter acesso a esse benefício, consumir 50 reais de cultura por mês, subsidiados em grande parte pela empresa e por impostos que deixam de ser recolhidos.
Já existem vale alimentação, combustível e outros, a Cultura é sabidamente dependente do Estado, numa relação contraditória, pois se quisesse mesmo dar aos seus habitantes uma independência cultural, a manipulação disponível aos ocupantes do poder estatal praticamente cessaria, no mínimo, diminuiria bastante.
O país vai ser melhor com mais pessoas tendo acesso a teatro, música, literatura, ballet, no longo prazo os benefícios serão enormes, não resta dúvida. Meu receio é das máfias que serão criadas para a exploração disso, os intermediários que assolam nossa cultura, se metem em tudo, as comissões, as regras de utilização prática disto.
Há hoje também nos jornais matérias falando que os mecanismos de aprovação dos projetos em Lei Rouanet passarão a contar com avaliação de pareceristas externos. A princípio a intenção parece boa, mas é ridículo imaginar que o ministério não consiga ter regras claras e ser auditado, para que criar um custo adicional e uma objetividade (completamente subjetiva, parece mais subterfúgio para jogar para o sistema externo a responsabilidade) falsa para aplicar procedimentos que deveriam ser abertos e fiscalizados, mais nada? Insisto aqui: o povo brasileiro deve iniciar uma discussão se o dinheiro dos impostos deve ir para Cirque de Soleil, Caetano Veloso, Maria Betânia ou Fernanda Montenegro (pelo meu critério pessoal estou misturando aqui, injustamente, importâncias diferentes) ou então viabilizar ações mais espontâneas e menos midiáticas de comunidades carentes ou que resgatem coisas não capazes de atrair também a atenção de grandes patrocinadores, seja por falta de amigos, seja por falta de condições de construção de camarotes VIPs.
Pelo menos a Cultura está sendo discutida, alguns vão se beneficiar, injustamente e desonestamente (esses precisam ser punidos), mas haverá um ganho geral. Como lembra a matéria do Jotabê Medeiros, Titãs já cantavam: a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte!
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Essas duas fotos aí da agência Estado dizem mais do que muitas palavras, apesar de eu ser um defensor da palavra.
Não sou contra o “amadurecimento” das pessoas, é claro que as coisas podem adquirir uma conotação diferente de acordo com o vivido e a quantidade de cabelos brancos, quem os tem, sabe muito melhor do que quem não os tem.
Mas me parece que os dois aí acima exageraram. Os eleitores de Lula de 20 anos atrás, isso mesmo, 20 anos, sentiram-se muito mais traídos por Collor do que o próprio Lulla, sim, é possível dizer que ele alterou mais uma vez o seu nome. Se a conveniência política o fez acrescentar o apelido para disputar eleições, mais uma vez a conveniência política o fez mudar de nome, para mim, ele inclui mais um ele em seu nome, exatamente em homenagem a quem hoje é sua base de sustentação.
Quero crer que existiam outros caminhos possíveis. Lulla e Collor eram muitos mais próximos do que pareciam em 89, tanto na ação, quanto nas idéias, isso é triste. Mas o triste é imaginar que fui eu quem menos mudou desde então…
Eu não abraçaria o outro assim. Ainda não acredito que devem haver interesses que são tão maiores que os sentimentos que um já teve diante do outro. Ainda mais do que demorou um pouco mais de tempo para chegar lá. Aprendeu do modo mais permissivo possível. Não fiz inimigos como Collor, mas tampouco os abraço.
Daniel Piza escreve no Estado de hoje sobre Graciliano Ramos e sua renúncia à prefeitura de Palmeira dos Índios, caso raro de alguém que abriu mão do poder. Ficou ainda maior, vou citar apenas os nomes de algumas de suas obras, veja se não tem a ver…:
São Bernardo
Angústia
Vidas secas
A terra dos meninos pelados
Infância
Insônia
Histórias incompletas
Memórias do cárcere
e Viagem
Vidente esse Graciliano, não????
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Passei o feriado na casa de um amigo. Lá me dei conta do quanto fico distante da televisão, em casa, meu filho de 12 anos, é o maior representante dessa fatia do “eleitorado”. Resolvi não brigar com ele, uma parte de formação trash não vai prejudicar no final, ele tem exemplo suficiente para evoluir.
Ontem o pano de fundo para as conversas era o show do Roberto Carlos. Assistia ao início quando me dei conta do quanto aquilo já tinha feito parte da minha vida. Assistia aos filmes de Roberto e também do Tarzan aos domingos em Itapeva, era o mocinho da minha infância. Na adolescência foi um ídolo até começar a me intelectualizar e ter preconceito. Mas algumas de suas músicas ficaram, mérito delas, mérito dele.
É claro que não gosto do estilo e do cabelo, da postura de vida, ridículo ter censurado o livro, mas algumas músicas, se estiver relaxado, canto. E isso eu admito, não é tão fácil assim ficar esse tempo todo na posição de destaque que ficou, é claro que firmou com a Globo uma parceria muito competente, um reforça o outro e neste país a Rede Globo, se quiser, transforma um poste em príncipe, em rei, precisa de alguma ajuda do postulante… Mas tenho que admitir que popular ele é, e fala com o meu lado popular também. Mas o tempo cuidou de interromper minhas questões, deu um temporal e a luz acabou…
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Émile Faguet publicou a primeira edição de A arte de ler, há exatamente 98 anos. A Casa da Palavra acaba de relançá-lo. É um belo guia de leitura, na primeira página um resumo deste ato com os homens:
O destino dos homens, sabe-se muito bem:
Muitos conclamados, poucos escolhidos.
O destino dos livros, ei-lo também:
Muitos aclamados, poucos lidos
O autor defende a necessidade de se ler devagar e classifica os livros nos seguintes tipos:
Livros de idéias;
Livros de sentimento:
Peças de teatro;
Para os autores, a classificação é a seguinte:
Poetas;
Escritores obscuros;
Maus autores;
Críticos;
Clássicos.
Como inimigos da leitura, não culpa os livros ruins, acha que são os estudos científicos, a vida ativa e os esportes (imagine o quanto isso piorou desde então). Mas os verdadeiros inimigos são: o amor-próprio (ou a falta dele), a timidez, a paixão e o espírito crítico. A vida não é leitora, ela é uma inimiga da leitura, para ele, ler é também a vitória do tédio sobre o amor-próprio…
Há um capítulo muito interessante sobre a releitura, o seu significado. Lemos porque queremos nos comparar ao que já fomos e achamos. Livros lidos aos 20 serão uma coisa completamente diferente se relidos aos 40, poucos livros sobreviverão ou serão interpretados da mesma forma. Ler é pensar, um pouco do que resume este livro que se não empolga, dá o caminho das pedras e nem parece que já é tão velhinho (sinal de não tão grande renovação da leitura no século XX): “Felizes, talvez, aqueles que não tem necessidade de livros para pensar, e de todo infelizes, sem dúvida, aqueles que ao ler só pensam exatamente aquilo que pensa o autor.” Não disse tudo?