Ideologia, cultura e Estado: lei 10.559 e lei Rouanet
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O Estado de S. Paulo trouxe ontem uma entrevista muito interessante com a pesquisadora Glenda Mezarobba. Ele trata dos desvios que acabaram acontecendo com a bem intencionada lei que buscava reparar os prejuízos causados pela ditadura militar. Sua tese é o livro Um acerto de contas com o futuro: a anistia e suas consequências.
Seu ponto, há uma inversão de valores, quando pessoas que tiveram prejuízo profissional, é claro que outras questões estão envolvidas, torturas aconteceram, recebem hoje indenizações milionárias, de milhões mesmo, e os que perderam a vida, deixaram para seus parentes no máximo 150 mil reais. Como diz a autora, é um exercício de futurologia recompor a trajetória interrompida e calcular os valores da indenização e da pensão, é um grande negócio que já custa a união mais de 2,5 bilhões de reais e vai aumentar. É claro que já apareceu beneficiado que virou agente. Além da implícita quebra de valores, um emprego parece valer mais que uma vida, há um mercado e como diz, se não me engano, Millôr Fernandes: achei que era por ideologia, não por aposentadoria que “a esquerda” se rebelou contra a ditadura.
Mas parece mesmo que o brasileiro se acostumou com o Estado. Eu sei que a cultura é uma das áreas mais dependentes do incentivo, mas a lei Rouanet é bastante discutível, nunca a utilizei como editor, mas não estou criticando, mas me pergunto qual é o valor de um patrocínio? Quem acompanhou a briga pública entre Lygia Fagundes Telles e Maitê Proênça pelo nome As meninas. Também não quero julgar, acho que a Maitê tem razão ao afirmar que o quadro do Velasques tinha esse nome antes do livro da Lygia, mas é triste ler na mídia que a atriz não quer o patrocínio por um nome? Quanto vale um patrocínio? Quanto vale o cavalheirismo? Quanto vale o respeito?
E aí, podemos incluir na mesma baciada os cantores que utilizam a lei Rouanet para ter supostamente a viabilização de seus shows para um público mais amplo. Também não tenho nada contra, mas discordo de Caetano Veloso ser mal humorado ao responder sobre as revisões de decisão depois de apelos ao ministro Juca Ferreira. É carteirada sim, e no mínimo, Caetano e tantos outros, deveriam pensar e ter a paciência para responder o questionamento legítimo da imprensa, principalmente daqueles que representam os inúmeros eventos de cultura popular menos midiáticos que ficam de fora.
É brasileiro se acostuma com o Estado, acho que todos os artistas e ideólogos deveriam repensar seus valores e no mínimo, saber o que dizer e como justificar porque merecem os privilégios. Fala Caetano, sendo injusto de colocá-lo como representante não só da categoria artística que consegue pedir revisão das decisões direto ao ministro, como também, dos engajados que viram seu sucesso profissional ser sacramentado por uma lei que foi impiedosa com os méritos, e pouco conseguiu fazer para de fato eliminar e culpar quem causou o que causou. O Estado brasileiro sinaliza que valores valem menos do que o papel moeda que consegue imprimir.
