
Conhecia muito pouco da obra de António Lobo Antunes, mas a sua presença na Flip me fez ficar com muita vontade de ir fundo. Uma aula sobre escrever, sobre a vida, sobre literatura.
Quando Werneck o apresentava parecia distante, desleixado, foi entrando na conversa e mostrando um humor ácido, irônico e uma visão do que faz das mais desenvolvidas. Se fosse ensaísta, teríamos um ótimo guia sobre como fazer. Como diz, o livro é que tem que ser a metáfora, não conter um grande número de metáforas para que acreditem que o autor é inteligente.
É uma pena que minha memória anda fraca e que eu não tenha gravado, dava para escrever páginas e mais páginas com as histórias e exemplos. Do avô brasileiro tinha uma enorme proximidade, apesar daquele achar viadagem o pequeno neto escrever versos. Do pai, herdou a educação estética e a cobrança para serem, também dos outros cinco irmãos, campeões no que fizessem, mas morreu fazendo o filho acreditar que não havia lido os seus livros, apesar de tantos livros em casa. Depois veio a descobrir os seus livros lidos, anotados e recebeu uma carta de 600 páginas, nunca vi tamanho testamento.
Ah, ele ainda escreve a mão, com letra pequena e não foge de uma boa polêmica, aliás, adora quando alguém fala que o prêmio Nobel foi para o português errado…
Lembrou que escrever é na verdade reescrever e cortar, retrabalhar o texto e contou uma ótima história do Picasso sobre inspiração, que esta é ótima, pena que quase nunca aparecia quando estava trabalhando.
Não teve vergonha de assumir toda a ambição de sua obra, mudar a arte e a literatura e sobre a disputa com os contemporâneos e o sabor de descobrir uma boa leitura. Recomendou a todos que acabassem com a injustiça sobre a obra de Paulo Mendes Campos e contou sobre as dificuldades de início e como viu sua obra obter acolhida no mundo todo. Além de falar sobre as feijoadas madrugada à dentro da casa do João Ubaldo Ribeiro e da acolhida que recebeu de Jorge Amado, uma pessoa maior do que sua obra.
Criticou os advérbios e os adjetivos, recomendou um poema de João Cabral que esqueci, mas vou procurar, e que segundo ele todo escritor tem que ter na mesa, para sentir-se estimulado a tirar a gordura.
Essa eu estava em pé, mas o corpo aguentou firme, mesmo tendo corrido pela manhã…