O pai dos burros, pena que não é um software…
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Se você é metido a escritor, tal como eu, eis uma leitura fundamental. Se você é editor, tal como eu, eis um livro que se fosse um software seria muito melhor. Adoraria poder pegar um original e tirar dele um cálculo do percentual de lugares comuns e frases feitas. Daí, me restaria a escolha das faixas: de tanto a tantos %, nem mandar resposta, não se dar ao trabalho de responder. De tanto a tantos %, enviar email agradecendo a preferência pela editora mas avisar que não se trata assim de uma obra-prima, nem sequer tão original. Apenas se tivesse próximo a 5% de lugares comuns e frases feitas e que valeria a pena um passar de olhos…
Brincadeiras de editor à parte, o novo livro do Humberto Werneck serve para o leitor ter noção de que estilo utiliza: o seu, ou o dos outros. Para minha felicidade, passei no teste da auto-leitura, utilizo bem poucas dessas expressões de domínio público, mas sou capaz de identificar vários amigos que ficariam mudos se acesso a elas não mais tivessem. Tê-lo lido de uma vez só foi importante para se dar conta de como é fácil apelar para o “senso comum”, utilizar “a voz do povo” e ficar muito distante da autoria de um texto. Ou seja, se quiser escrever algo erudito e autoral, fuja dessas expressões, se quiser escrever algo popular e um best-seller, eis as expressões a serem utilizadas, a escolha é sua.
Por mais que o autor diga no prefácio que não quer cercear ninguém, está é para mim uma das maiores utilizações do livro.
Copio-o e também cito Hannah Arendt (por ele posta no prefácio): “Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera exigência. Se respondêssemos todo o tempo a essa exigência, logo estaríamos exaustos”.
Você decide se encara a realidade ou simplesmente apela ao O pai dos burros…

