Arquivo: Agosto de 2009



Borges: ensaio autobiográfico

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Eis uma leitura profunda e rápida. Borges escreveu aos 71 anos este ensaio onde fala sobre sua vida. Poucas páginas, mas suficientes para aprender algumas lições importantes. Sim, ele também começou bancando sua produção, pediu para um amigo incluir seus livros, editados sem correção, no bolso dos casacos dos visitantes de uma revista literária.

Fala bastante da necessidade de não cair na tentação do enfeitar a escrita, arrepende-se de muito do que fez na juventude, mostra reverência a alguns, principalmente Bioy Casares, com quem criou dois autores, contesta a necessidade de reescrever. Era diferenciado? Claro, mas é uma das poucas poses a pegar contra o eterno reescrever, o limar, uma voz suficiente para qualquer aceitar que não existem regras, que os leitores peguem os diversos resultados e julguem se lêem até o fim, se compram outro livro, se indicam aos amigos.

Borges também precisou acontecer no exterior, depois de traduzido para o francês, para acontecer na Argentina. É tudo muito parecido, santo de casa não faz milagre em lugar nenhum, aliás, santos não existem, só se vistos à distância, e a literatura é algo que exige proximidade, transparência. Tratou a cegueira de forma muito sensata, responsabilizando-a por ter voltado à poesia, e à clássica.

Como disse seu editor: “todo escritor tem um livro. Só precisa procurá-lo”. O pior é que muitos que não deveriam encontrar não só encontram o livro, mas também editores dispostos a publicá-lo…

Continuo no Fica Sarney! mas começo nova campanha: Folha, demite o Sarney!

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Ainda acredito que o “presidente” Sarney deve ficar onde está! De que adianta renunciar a presidência do Senado, se deveria perder algo, teria que perder o que já usurpou do país e principalmente de seu estado, e é claro, do Amapá também.

Por mais que altere o meu humor, é positivo ver toda a baixaria vir a tona, mar de milionário folgado é assim mesmo, cheio de óleo e merda flutuando. Somos assim, isso mesmo, eu, você e o restante deste povo, se não, esses caras ainda não estariam lá. Não gosto da OAB, advogado é uma categoria complexa, desculpem-me os amigos, mas até que a proposta de renúncia coletiva me parece mais digna, não é Simon, Suplicy e alguns outros que já estão iguaizinhos aos Calheiros, Sarneys e Collors? Deixa todo mundo lá, se sair, voltam daqui há algum tempo redimidos, talvez lá, consigam se queimar mais.

Mas o que não suporto mesmo é a Folha de S. Paulo ainda permitir que o Sarney escreva as besteiras que escreve às sextas-feiras em espaço tão nobre. Está na hora da Folha demitir o Sarney, veja a pérola do último parágrafo da coluna de ontem:

Enquanto discutimos essas coisas, a natureza floresce e Brasília está linda, os paus-d’arco em flor”. Otávio e Luís Frias, está na hora de demitir o homem, até pluralismo tem limite, Sarney denigre o espaço e o jornal, ao fingir de intelectual e habitante de outro contexto. Tirem-no dela, sugiro também que a Academia Brasileira de Letras discuta alguma ação, daqui a pouco, ninguém mais decente, vai querer ser imortal…

Grupo Corpo: não arrebata, mas sacode…

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Ontem fui ao grupo Corpo no Teatro Alfa, como aliás, tenho feito nos últimos 5, 6 anos. A primeira coreografia, Bach, é de 1996, foi assim a primeira vez, desde a primeira que assisti a duas coreografias “inéditas”.

Bach fala com o que há de Bach dentro de cada um de nós, é engraçado, por mais que não seja um conhecedor profundo de música clássica, ela existe dentro de mim, acho que deve ser assim com todos, aqueles sons que fazem parte da sua formação e você nem sabe bem de onde vieram, até meus filhos, digitais, sentirão isso. Apelei para Strauss e seu Zaratrusta, num volume bem alto para introduzir as crianças.

Volto ao Corpo, assim a música serve como meditação e a coreografia compõe, mas não dá a vontade de dançar que dá em Imã, música de Moreno Veloso, música matreira, me peguei em vários momentos mexendo o corpo. Há uma beleza estética, uma harmonia colorida com o figurino da Freusa.

Digo que é um programa clássico, que acrescenta, que fala com seu corpo, com o interior, ignora a mente racional. Já vi coreografias que me inspiraram mais, mais delicadas, outras incomodaram mais, a com a música do Lenine, mas mesmo assim é algo que pode e deve ser incorporado, para mim, uma prática anual.

A única coisa negativa de ontem, tinha mais cadeira vazia do que de costume. Ou seja, as pessoas estão mais acomodadas… Levante e vá para lá! Garanto que seu corpo vai remexer.

Charlie e Lola, a peça: roubada!

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Minha filha de 5 anos adora Charlie e Lola, seu irmão, 12 anos, classifica o desenho de surreal, não acredita que poderia existir tamanha paciência entre entre fraternos. Ela queria ir ao teatro, obrigação de pai e mãe preocupados com a formação da prole.

Resisti a ir, 50 reais o ingresso para adulto, já demonstra que se trata de “superprodução”, minha filha demonstrou autoridade num olhar de decepção, fui. Mas o que vi é apenas uma maquininha de gerar lucro, associada ao Luciano Hulk, para mim é estranha a Natura estar patrocinando, devem existir muitas outras peças infantis com conteúdo mais merecedor de apoio de empresa preocupada com a imagem.

Tentei curtir, voltar a ser criança, não consegui, como estava algumas poltronas distante, estava lotada a compra pela internet (balcão custa a mesma coisa que platéia), resolvi jogar Sudoku. Achei que corria o risco de tomar uma bronca da “patroa”, mas ela, mãe, ou seja, um ser muito mais preparado para entrar no universo infantil, também estava inconformada. Não gostei.

Plano B - Plan B - In the bubble by John Thackara 11

capaplanob4x6.jpg Penúltimo post sobre o Plano B.

Abaixo os links para os detalhes do livro no site, ou então para os sites de venda das livrarias. O John é uma autoridade mundial, veja o que tem a falar, qualquer dúvida, cheque no site dele: www.thackara.com , ou aguarde até novembro quando estará no Brasil:

TELEPRESENCE EXTRACT

The prospect of traveling without moving makes good economic and environmental sense. Matter is more expensive than energy; energy is more expensive than information; it is cheaper to move information than people or things. So what is to stop us moving less, and and tele-communicating more? Why go in person, when we can call?

Telecommunications companies have invested heavily for years in so-called telepresence systems that will reproduce as closely as possible the sensation of ‘being there’. Hewlett Packard their system, called Halo, as “the ultimate collaborative environment… a telepresence solution that brings meeting attendees from around the globe into an environment that feels as if they are in the same room”.

The entertainment industry has also been busy. We pay theme park operators a dollar a minute to experience sophisticated simulations, and the computer games industry is now bigger than Hollywood, so big money is at stake.

continue…

Informações sobre o livro:

Comprar Plano B na Livraria Cultura

Comprar Plano B na Livraria Saraiva

Buy In the Bubble at Amazon

Parque de diversões para metidos a intelectuais - Lojinha do Moreira Salles by Cultura

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Diversão é uma questão de perfil, quase toda criança gosta de parque de diversão, por mais que as mongas, e os jogos tenham mudado ou mesmo desaparecido, o coletivo virou individual, e a visita ao parque foi substituída pelo digital.

Se todas as crianças gostam de parque, os adultos se segmentam: alguns preferem o shopping, outros a Daslu, outros uma concessionária de veículos, alguns o Café Photo, alguns o boteco, poucos uma livraria. Os metidos a intelectuais, categoria a qual sou aspirante, irão adorar a Loja do Instituto Moreira Salles administrada pela Livraria Cultura no Conjunto Nacional.

Extremo bom gosto estético, os Cadernos de Literatura e os de Fotografia são lindos, talvez até sirvam mesmo para um coffee table book que tem a aparência, mas também o conteúdo. Além disso há os outros livros.

Hoje comprei O leque, uma belíssima edição de 10 poemas de Dora Ferreira da Silva e Escritores por Loredano. Esse é meu novo instrumento de fetiche, são 20 caricaturas de 21 escritores em formato de pequenos cartões postais. Acho o Loredano um craque, dá vontade de escrever bem, mas muito bem mesmo, só para merecer ser caricaturizado por ele.

Taí um presentinho simpático que pode até ser utilizado como guia de leitura, a cultura agradece. Loredano, afirma o livrinho, tem seus trabalhos publicados no Estadão, El País, Libération, La Repubblica e Frankfurter Allgemeine. Fera!

Contos no palco - Rasif por Angu

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O livro Rasif, o mar que arrebenta foi parar no palco do Sesc Pompéia este final de semana. Como bom aluno do Marcelino Freire, fui assistir a adaptação do grupo Coletivo Angu de Teatro, recifense como o autor. A foto acima é do Tuca Siqueira, de outra apresentação.

Nesta de São Paulo, integrante da iniciativa Palco Giratório 2009 do Sesc, aliás, bastante interessante e louvável, foram apenas duas, sábado e domingo, portanto, quem quiser ver, precisa aguardar uma próxima oportunidade, é necessário ficar ligado nas apresentações de teatro “alternativo”, e isso é elogio.

O texto de Marcelino é crítico e como tudo dele, sonoro. O grupo é profissional, competente, gostei das sacadas da montagem, mas esperava um resultado final superior, sabe quando você gosta das partes, mas parece que o todo fica um pouco abaixo dessa soma? É isso. Muitas vezes me pareceu que a montagem brigava com a crítica, talvez, o que senti falta é da continuidade que uma adaptação de um texto linear, os contos tem uma interrupção, dificulta uma linearidade, pode ser falta de costume.

Olhei para o relógio mais vezes do que gostaria, é claro que isso também pode ser culpa da Lina Bo Bardi, por mais que reconheça a importância daquelas cadeiras, a utilização delas nem sempre é prazerosa.

Luiz Amorim, este fez pela leitura!

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Já não lembro se falei do Luiz Amorim aqui. Dele, é claro que nunca falei, só soube o seu nome agora por matéria da revista Época desta semana, mas sua obra foi uma das coisas que mais me chamou a atenção em Brasília.

Bibliotecas em pontos de ônibus. Sim, Luiz Amorim, um açougueiro que passa dificuldades para ganhar a vida nesta atividade começou a investir nas bibliotecas nos pontos de ônibus de uma das mais movimentadas avenidas da capital, é tudo muito aberto, cada um pega o que quer, devolve quando puder, e dá certo. Já dependeu de um esforço pessoal do Luiz, hoje ficou um pouco mais fácil, patrocínios, inclusive da Petrobrás já facilitaram, a continuidade das bibliotecas. Tomará que isso se espalhe, é um ótimo exemplo de como alguém de fora, é capaz de contribuir para a leitura muito mais do que as figuras de sempre de dentro.

Inimigos Públicos, sobra bala para todo lado, falta paralelo na polícia real!

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Um belo elenco, Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, à disposição do diretor Michael Mann, uma história um tanto idealizada e dirigida de maneira esteticamente irreparável, mas há muita bala.

Fui levar meu filho e meu sobrinho, começaram com a pressão que queriam assistir na tal sala Première (Shopping Cidade Jardim), supostamente a sala mais “chique” de São Paulo, resolvi lhes dar uma lição de vida, fomos ao Marabá, reformulado, mas ainda no centro da cidade, rodeado de mendigos, putas e outros tipos muitas vezes ignorados pelos habitantes da região onde moro. O filme era o mesmo.

Não gostei, não gosto deste tipo de filme de homem, muito tiro. Mas fiquei mesmo incomodado com a certeza que se tratava de uma idealização do policial, sim, o filme é baseado na vida real, se existiu, creio não existir mais algum policial com aquela retidão, e é claro, nenhum fora-da-lei tão ousado, por mais que nem sempre enxerguem o que tem a perder. Na vida real, a que vivo, consigo aceitar mais facilmente o tal Hoover, o primeiro dirigente do FBI e sua sede pela fama e pelas câmeras, esse tipo de autoridade está cheia no Brasil e no mundo, aliás, nos Estados Unidos acabamos de ver o exemplo do negro preso por engano ao tentar entrar em casa.

Sou contra essa idealização do homem, mesmo porque, depois quando não os encontramos nas ruas, ficamos perdidos, a mercê de aproveitadores de ilusão. Nas versões americanas, tanto os bandidos quanto os policiais tem muito caráter. Impressionante!

Vovó não gostou??? Por isso se muda um clássico? - Paris é uma festa não é mais de Hemingway

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Você conhece Sean Hemingway? Provavelmente não. Dos herdeiros de Ernst Hemingway, confesso que conhecia apenas suas netas Margaux e Mariel, habitantes do meu imaginário juvenil, depois vim a conhecer a história de seu filho Gregory, que minha mulher utilizou na capa de um livro.

Agora fico sabendo deste tal Sean Hemingway que parece querer entrar para a história ao mexer num dos principais livros de seu avô, simplesmente porque ele não achou que o mesmo foi simpático com sua avó. Se a onda continuar, teremos muitos livros alterados. Acabei de ler a biografia do Nelson Rodrigues, comentada abaixo, imagina o quanto alguns herdeiros puritanos poderiam depenar da obra de Nelson se os editores não firmarem posição.

O biógrafo de Hemingway, A.E. Hotchner escreveu hoje no Estadão falando que teve acesso aos manuscritos e a versão publicada foi sim a mesma que o autor preparou, sem a suposta intervenção da última mulher, conforme acusa o neto. Isso é algo perigoso, e a tal Scribdner não deveria estar relançando um livro sem maiores investigações, aliás, no máximo, deveria fazer um livro sobre o caso, atraindo apenas alguns interessados, não alterando um clássico.

Eu garanto que eu não faria nada parecido pela minha avó, ainda viva, tenho certeza que Sean Hemingway o fez por si mesmo, como uma tentativa de entrar para a história, cada um usa o talento que tem…

Uma vida vivida, de verdade, deu o que falar, deixou o que pensar - Nelson Rodrigues

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Já era para ter lido, mas buracos sempre existem, esse era quase inadmissível, pelo que gosto da obra do Nelson Rodrigues.

O mencionado curso com o Ruy Castro me fez parar de adiar e conhecer melhor a vida do Nelson. O livro é muito bem escrito e deixa claro que Nelson inventava pouco, reproduzia o que via ao redor, o que sentia, o que ouvia. Tudo era matéria-prima para seus livros, colunas, teatro.

Apesar de ter participado supostamente da esquerda, nunca fui contra esse reacionário. Os anos passaram e hoje sou obrigado a concordar com Nelson em outros pontos, não apenas admirar seu estilo e a visão da temática familiar e dos relacioamentos. Não existia a diferença entre esquerda e direita que a esquerda dizia existir. Ela não passou no teste do poder. Esse é o óbvio “ululante” que Nelson já descobriu, mesmo tendo morrido antes de Lula, que deve ter sido a inspiração para o tal do “ululante”… Esse óbvio estava aí, muitos não perceberam e não apenas votaram, perderam isso sim a esperança.

Para a sorte do PT Nelson não está aqui e não encontrou nenhum substituto à altura. Salvaram-se Lula, Dirceu, Marta e tantos outros, com um discurso muito diferente da prática.

Mas ele não merece que eu gaste o espaço dedicado a sua vida para falar dessas fraquezas do ser humano, ele quase sempre preferia explorar o lado pessoal, o desejo que atormenta as pessoas, mesmo que algumas não recomendem.

Pela minha idade, já fui muito mais fã de Dom Hélder Câmera do que sou agora, depois da leitura. Também se aprende bastante sobre os bastidores da imprensa brasileira e sua relação com o poder.

É impossivel ler O anjo pornográfico e não constatar que o ser humano é de natureza contraditória, só não entendi o medo do Nelson de andar de avião e a disponibilidade de acreditar que ou não havia ou que o Médici não sabia sobre a tortura, aí, pareceu um daqueles fucionários públicos tão babacas que muito reproduziu. É, a vida como ela é, um chavão rodriguiano, mas também um óbvio ululante. Bela biografia!

Ele foi parar na Veja antes do 2o. ouro

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A edição de Veja de hoje saiu com ele na capa, fazendo referência a nossa tradicional falta de heróis. Para não deixar dúvidas, foi lá e ganhou de novo nos 50 metros. De fato, ninguém nada mais rápido do que ele!