Arquivo: Janeiro de 2010



Para tentar entender o Brasil e o processo das biografias

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Um enigma chamado Brasil, organizado por André Botelho e Lilia Moritz Schwarcz é a junção de 29 intérpretes do país, uma obra fundamental para pesquisa e conhecimento das contradições que nos deixaram do jeito que somos.

O desafio biográfico, do francês François Dosse questiona e apresenta definições sobre a arte e a teoria de retratar vidas. Material fundamental para quem se aventura no campo.

A crítica literária brasileira diminuiu bastante de estatura hoje

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Morreu hoje em Curitiba o crítico literário Wilson Martins, um dos mais destacados intelectuais brasileiros. Num tempo onde internacionalmente se discute a relevância das críticas, a empresa Kirkus Review anunciou a interrupção de suas atividades e depois parece que foi salva, e em sites de editoras existe a visão de que os prêmios poderiam ser os substitutos dos críticos, a perda de alguém com o conhecimento de Wilson é dificilmente substituível, por mais que já não mantivesse uma produção rigorosa.

Deu aulas nos Estados Unidos e escreveu em alguns volumes A crítica literária no Brasil e A história da inteligência brasileira entre outras obras.

Dicas para escrever

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Acabei a leitura de A preparação do escritor de Raimundo Carrero, um livro estruturado em aulas, apresentando a teoria do autor em como escrever, compor um romance.

Não fiz os exercícios e não gostei tanto do tom de intimidade, tentativa de reprodução de um papo, impossível, ou pelo menos forçado, mas o conteúdo, a teoria literária estão lá. Serve como fonte de reflexão e informação, para mim serviu como comparação à primeira versão do livro que escrevi, Infidelimizade, obra que está descansando mais algumas semanas, quando pretendo retomá-la, fazer os ajustes e daí tentar a publicação.

Não sou muito adepto dessas regras, muitas vezes existem apenas para dar parametrização para todos, mas se você sabe e conhece, leu bastante, tem muito mais liberdade do que insinuam esses teóricos. Na literatura, como em qualquer outra área, a regra se adapta ao sucesso de alguém que não a seguiu…

Roger Federer, o “velhinho” que joga quando precisa

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Este site/blog continua fã de Roger Federer. Neste Australian Open, bateu Davidenko, algoz dos últimos torneios, e na final hoje, Andy Murray, contra quem tinha retrospecto negativo 4 x 6. Agora o placar ficou 5 x 6 e ele dois títulos à frente de Pete Sampras, 16 x 14 no número de Grand Slams.

Federer é aquele velinho, 28 anos, que parece que usa toda sua capacidade de vitória e experiência quando é preciso, quando quer reforçar as marcas do seu nome na história.

Parabéns Federer!

O recluso se foi para sempre…

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J. D. Salinger morreu hoje em Nova York aos 91 anos. O último livro que publicou foi em junho de 1965, seis meses antes de eu nascer… Não dava entrevistas e não se deixava fotografar. O apanhador no campo de centeio foi um enorme sucesso mundial, escrito quando tinha 30 e poucos anos, na década de 1950 e tratando sobre um adolescente.

Li há alguns anos, não achei nada demais. Mas inspirou escritores ao redor do mundo, a escrever e também a adotar comportamento parecido…

iPad, você ainda vai ter um?

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Gutenberg possibilitou a partir de 1450 a impressão de tipos móveis. Isso foi fundamental para o que o careca, aí acima da direita, pudesse ser mais famoso que o outro careca, aí acima da esquerda. Será que o iPad mostrado hoje por Steve Jobs vai ser tão impactante quanto Gutenberg e ele passar Shakespeare?

456 anos de São Paulo

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Já foi a terra da garoa, hoje tem até peixe dentro de túnel, mas mesmo assim, apesar de toda a loucura e confusão, São Paulo é um lugar interessante para viver, para quem quer viver, para quem acha que viver é se defrontar com extremos e não apenas se esconder, seja atrás de filmes, grades, seguranças. Essa cidade de extremos pode propiciar as melhores e piores experiências, é preciso não ter acomodação e um bocado de sorte. Parabéns São Paulo!

Amigos de infância, expectativas familiares e natureza humana

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Com este livro, Pastoral americana,  Philip Roth ganhou o prêmio Pulitzer de 1997 ou 98, já não sei. O livro narra a história de um jovem bem-sucedido, bonitão, o melhor esportista e com tudo para dar certo na vida. Deu? Até um certo ponto. Ficou muito aquém do que prometia porque queria agradar a todos e acabou não se libertando nem criando vida própria, assumiu a fábrica de luvas do pai.

Viveu à sombra do pai, um judeu imigrante, a quem desafiou apenas ao casar com uma católica, quase miss América. A filha resolveu, num mundo cercado pelas questões da Guerra do Vietnã e pelas transformações do capitalismo americano, ser simpática a causa dos mais pobres. Acabou envolvida em questões guerrilheiras e transformou a vida da família.

O livro em alguns momentos parece um pouco mais longo do que o necessário, mas há momentos de pura dureza e profundidade de Roth. Pai e filho, marido e mulher, filha e pai, marido exemplar e amante, irmão e irmão, são relacionamentos explorados de forma crua e direta.

Daquelas obras que te deixam pensando por tempos e olhando para a sua própria vida e família e tentando encontrar semelhanças, ou melhor, as diferenças para sentir-se um pouco aliviado.

Haiti, McDonalds, Scarlett, Gisele e o ser humano geral

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Ontem vi um cartaz no McDonald’s que não li até o final. Não gosto dessas ações que pegam carona na comoção geral e se posam de boazinhas. Se o McDonald’s quer ajudar, deveria sim enviar milhões de Big Macs da conta deles, não utilizar isso como propaganda. Parece a ação da Scarlett Johansson. Até agora sou mais a Gisele Bunchen que botou mais de milhão de dólares.

Mas o que me parece de fato humano nesta história toda é a reportagem de Jamil Chade no Estadão de hoje. Fala sobre o quê? Tráfico de crianças no Haiti, isso mesmo, no meio dessa confusão, tem gente pagando 45 mil dólares para ter uma criança haitiana. Essa é a melhor solução? Não é a opinião dos especialistas. Por mais complicadas que sejam as condições das 7.000 haitianas que irão parir até fevereiro, com taxas altíssimas de risco de mortalidade, contrabandear crianças não é solução, existe no mínimo alguém fazendo uma grana com a desgraça dos outros. Esses são os piores tipos de empreendedores, empreendedores da desgraça alheia…

Onde vivem os monstros. De onde veio este filme???

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Em tentativa de programa familiar fomos assistir Onde vivem os monstros. Não sabia muito do filme, fomos pela minha filha de 5 anos, apesar da censura ser 10 e o filme não ser dublado, pensei então que poderia angariar mais os ânimos do meu filho de 12.

Depois descobri que o filme era baseado em um livro, um best-seller infantil. Depois de passar um período irritado no cinema, não culpo Maurice Sendak, o autor, na verdade mais ilustrar do livro lançado aqui pela Cosac. É para se culpar o diretor, Spike Jonze, e o roteirista o escritor e ativista Dave Eggers.

Pode ser reflexo de “não ter tido infância” mas o filme, a exceção era a trilha, não me tocou em nada, só irritou. Durante vários trechos olhava para a minha mulher meio com um olhar “olha a roubada em que você me meteu” e ela, ao invés de retribuir com um “deixa de ser um pai desnaturado”, jogava um misto de “desculpa, não sabia” com um “eu também não estou aguentando”.

Minha filha queria dormir ou não parava, no final disse ter gostado. Perguntei para o meu filho, supostamente a quem se direcionaria o filme: a maior perda de tempo e dinheiro que já vi. Resumo, minha família não gostou nadinha de Onde vivem os monstros, para mim, posicionamento errado.

Quem quer dar uma rapidinha com Scarlett Johansson?

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Será que a loira preferida de Woody Allen não tinha outra maneira de ajudar de forma mais efetiva as vítimas do terremoto no Haiti? Saiu na imprensa hoje que Scarlett Johansson está leiloando 10 minutos de sua companhia. Queria contribuir ou obter publicidade? Eu não vou participar do leilão, dez minutos, nem com a profissional da esquina da USP…

Novo livro da Virgília: Todos somos iguais? - O mundo não é plano

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Eis um lançamento que conquistou o editor e todos que trabalharam nele. A Virgília tem a característica de cuidar de perto de seus produtos, todos tem uma frase específica junto à biblioteca da primeira contracapa, todos tem uma entrevista com o autor na segunda orelha, todos tem um jogo de frases sobre seu assunto. Mas este livro é um pouco diferente, trata de um assunto muito duro: pessoas morrendo de fome e em condições sub-humanas.

Jamil Chade, correspondente de O Estado de S. Paulo em Genebra relata em O mundo não é plano - A tragédia silenciosa de 1 bilhão de famintos, o que acompanhou em várias viagens pela África e outros continentes investigando sobre a questão da fome, subsídios e outros assuntos conectados a mais primárias das funções humanas.

O título é sim uma provocação ao best-seller de Thomas Friedman, O mundo é plano. Nas minhas discussões com o autor a conclusão era que o mundo é plano apenas para quem é saxão, para uma boa parte dos africanos, ele tende a ser fundo, bem fundo.

Há um caderno de fotos que falam por si, feitas pelo talentoso editor de fotografia do jornal, Juca Varella. Os papos com Jamil e Juca, mereciam até a inclusão no livro, para mim já é bastante forte o assunto, imagino estar diante da realidade retratada. Vivenciaram experiências marcantes.

Ler este livro é poder não só tomar um conhecimento mais de perto deste enorme e vergonhoso problema, como também olhar para o homem com outra perspectiva. O livro é sim denúncia, mas é muito mais um alerta para que acordemos o mais cedo possível para tentarmos salvar da fome e da ignorância milhões, ou pior, bilhões de humanos que nasceram e vão continuar a nascer caso a educação não chegue, sem condições de ter um pouco de dignidade para deixar como herança aos seus filhos.

O prefácio de Jean Ziegler, ex-relator da ONU para o Direito à Alimentação é claro e diz muito. Leia-o aqui.

São poucos os malucos de cabelo que respeito: Ronaldo Fraga

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Assumo meu preconceito por pessoas que criam personagens exóticos. Geralmente querem disfarçar a falta de talento. Mas sou obrigado a reconhecer uma enorme exceção, o mineiro Ronaldo Fraga, com seu cabelo (talvez seja inveja pela minha falta) e bigode esquisitos. Não sei como classificá-lo, estilista, para mim é pouco, é um homem da moda e da cultura, talvez modultura. É de fato uma das poucas coisas as quais presto atenção no São Paulo Fashion Week, onde existem vários afetados por opção e muito poucos por direito.

Ronaldo Fraga sempre encontra alguma inspiração baseada na cultura. Nesta edição, Pina Bausch. Basta visitar sua loja na Vila Madalena em São Paulo para verificar que existe criatividade e condições de misturar moda com cultura e não apenas com um glamour falso.

Uns vão, outros chegam. Haiti e uma breve reflexão sobre o humano

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A foto da capa da Folha de S. Paulo de hoje, do Joshua Trujillo (AP), me deixou muito chocado. Cerca de 200 pessoas literalmente apinhadas no que supostamente é um avião para partir para Orlando. Tenho dificuldades de visualizar um avião daquela forma, a situação é das mais dramáticas, para um país que foi o primeiro a estabelecer uma república negra no mundo. O artigo do João Pereira Coutinho na mesma Folha discute a diferença das catástrofes naturais em economias ricas e economias pobres, vale ler, a diferença do número de mortos é brutal. É claro que por trás da riqueza está a educação e outras questões que ainda faltam no país centro-americano.

Mas o contraste maior, para mim, completamente alinhado com o que é a vida e as incoerências humanas, diz respeito a continuidade das praias do Haiti como roteiro de cruzeiros de luxo. O Independence of the Seas, da Royal Caribean continua, após muitas discussões, atracando em Labadee. É um navio para 4.370 pessoas onde os passageiros podem curtir o sol e andar de jet sky, numa área protegida e não atingida pelos terremotos. Tudo, segundo a companhia de navios, discutido com emissários do governo que acreditam ser importante se preservar formas de receita, o que é também verdade. Os passageiros se dividem, alguns curtem as férias, outros chegam a declarar ter nojo.

Não é um trágico porém real espelho da vida? De uma espécie que precisa variar entre viver o coletivo e viver o individual e sem saber que peso dar a esses momentos?

100 anos sem Joaquim Nabuco: ele faz falta na elite brasileira

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Há cem anos morria Joaquim Nabuco, enquanto cumpria temporada como embaixador brasileiro em Washington. Foi um dos principais intérpretes do Brasil. Escreveu alguns livros clássicos: O abolicionismo, a biografia de seu pai, O estadista do Império e sua autobiografia, Minha formação.

Foi imperialista até o final, mas depois embarcou na república e cumpriu missões fora do país. É o exemplo de uma elite capaz de pensar, de conviver com o diferente e se preocupar com o geral. Boa pinta, dizem que era classificado como o homem mais bonito de Washington, casou tarde para os padrões da época e viveu algumas aventuras, mas o melhor foi ter defendido a modernização do país.

Para a literatura, criou juntamente com o amigo Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras, e foi seu primeiro secretário-geral. Era um dos poucos a quem Machado chamava de querido.

Quem é o Joaquim Nabuco de agora?

Guenta Zé Celso

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Zé Celso é um ícone da cultura brasileira. Fui ao Oficina muito menos do que deveria. Ir lá requer abandonar a zona de conforto. Zé Celso incomoda, mais ao Silvio Santos, mas questiona os valores “normais” para não dizer burgueses, coloca sua criatividade para conectar passado e presente do país. Seu coração anda fraco, terá que colocar um marca-passo. Uma máquina irá ditar agora o ritmo das coreografias? Torço para que corra tudo bem, apesar de 72 anos ele é uma das coisas mais jovens e vanguardistas que temos no Brasil.

A traição quando começa é difícil parar…

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Um marido poderoso, bem-sucedido, dois filhos e um vazio levam uma dona-de-casa a pensar a retomar a atividade profissional. Mas o vazio não era só de ter o que fazer, era também de ter o que sentir. Aí, entra um pedreiro espanhol e começa a confusão.

Esse é o filme de Catherine Corsini, Partir, em cartaz nos cinemas de São Paulo. Quem está em um relacionamento deveria assistir, quem pensa em entrar, ou pretende sair, também. Quem tem fetiche por homens ou mulheres comprometidos idem. Além da questão do casal, o filme aborda bem uma sempre possível divisão entre os filhos.

Decidir casar é fácil, decidir continuar casado sem hipocrisias, bem mais difícil, requer esforço constante, na verdade diário. Trair talvez não seja uma decisão e sim um impulso. As consequências dependem do estilo de cada um dos envolvidos seja no trio, ou no quadrado, ou sei lá, quantas pessoas acabam se envolvendo. A dona-de-casa do filme tinha personalidade e ficou perturbada com a perseguição do marido traído. Veja antes de continuar ou decidir fazer algo novo e motivador na sua vida afetiva…

Dra. Zilda Arns Neumann

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O terremoto no Haiti matou a brasileira Zilda Arns. Figura conhecida da sociedade civil do país ganhou respeito e admiração por estar próxima de pessoas carentes. Contribuiu com um livro que editei: Ah, se eu soubesse… Brasil (respostas para uma pergunta simples: o que você gostaria de ter sabido 25 anos atrás), eis a resposta dela:

 Que a organização da comunidade e uma rede de voluntários são fundamentais para a diminuição da mortalidade infantil e da violência dentro de casa.
Talvez hoje não tivéssemos tantos jovens violentos se, 25 anos atrás, se tivesse cuidado melhor das crianças em suas famílias.
Dra. Zilda Arns Neumann (Fundadora e Coordenadora Nacional, Pastoral da Criança - CNBB)