Arquivo: Agosto de 2010



Que tal um anel de livros ao invés de diamantes?

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As moçoilas mais intelectuais podem definitivamente olhar com desdém para os anéis de brilhantes e diamantes. Agora elas poderão saciar a fome de cultura e conhecimento com um dos anéis criados pela artista Jeremy May. Para os pretendentes deste tipo, uma economia e tanto, não sei o preço deles, mas devem ficar muito abaixo das teóricas jóias que embutem margens assustadoras, se bem que… Ou seja, comprar livro como encalhe e vender como semi-jóia deve ser também um ótimo negócio.

Faz também pingentes e outros objetos. Dá uma busca na internet que você acha.

Tipos de escritores, segundo Cony!

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O Cony disse na Folha e o PublishNews reproduziu:

Sempre ouvi dizer que há duas maneiras de ser escritor. A primeira, a mais tradicional, é a do refúgio na chamada torre de marfim, em que o autor se isola para não se promiscuir com o mercado. A segunda considera o livro como um elo entre o autor e o leitor, não diviniza nem demoniza a praxe, aceita a regra do jogo e dá o seu recado. Há gênios e imbecis nas duas categorias. Como gênio é coisa rara, e discutível, quem não é gênio precisa pagar o mico e se submeter à sua circunstância. Por tudo isso, salve as bienais, principalmente as anuais.

Concordo com ele, que as feiras continuem a existir e que os gênios e os imbecis existem nos dois grupos, e esses últimos, em escala muito maior. Mas isso não é nenhum privilégio da literatura, um retrato do país, na verdade, da humanidade.

A mediocridade salva?

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Assisti Piscina (sem água) indicação, se não me engano, do Pondé em sua coluna da segunda. Gostei bastante, a interpretação de Ester Laccava ficou acima do grupo, mulheres melhores que homens, e gostei mais do que minha mulher, talvez porque tenha ido já com o briefing, para questionar alguns pontos.

Uma pessoa se destaca de um grupo e só ela atinge a fama e o reconhecimento. Os outros são obrigados a se conformar com sua mediocridade, não sem antes sofrer, praguejar e fantasiar justiça. A vida não é justa, nem sempre os mais talentosos chegam, principalmente se além da sorte, não tiverem uma excessiva persistência e, em alguns casos, até mesmo a disposição de dançar algumas músicas que não gostam, até beirando os limites. Se ultrapassarem, chegam, mas carregam um peso excessivo.

A peça não alivia, é meio agressiva com o expectador, o que é bom. Mas também deve ser a razão para vários lugares vazios, os tais medíocres (não estou me excluindo, inclusive fui em busca da resposta), logicamente a maioria, preferem o riso fácil e até mesmo ridículo desde que não se aproxime. Enfrentar a realidade é para poucos, suportá-la, para pouquíssimos! Mas como dizem os amigos que ficaram na peça, ouvir a verdade muitas vezes alivia.

A beleza das rugas

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Há uma bela reportagem com Ferreira Gullar hoje na Serafina. Texto de Humberto Werneck. Vale ler, quem não está em São Paulo, acho que a revista circula apenas por aqui, pode recorrer à internet ou então aos amigos, o belo ensaio do fotógrafo Murillo Meirelles não se encontra na versão da net e merece ser visto no formatão da revista.

Gullar faz 80 anos no próximo dia 10 de setembro, cada vez mais admiro sua postura, mesmo apelando para as frases de auto-ajuda: eu não quero ter razão, quer ser feliz.

A capa da Serafina é para mim um dos sinais da beleza vivência e da experiência, uma estética da vida. Cada ruga, cada veia, cada pedaço de pele flácida da mão de Gullar deixa claro que a vida, a dele teve momentos dos mais complexos, vale ser vivida e precisa ser aproveitada. Não perca!

Eis um poema do novo livro, Em alguma parte alguma:
Duplo
Foi-se formando
a meu lado
um outro
que é mais Gullar do que eu

que se apossou do que vi
do que fiz
do que era meu

e pelo país
flutua
livre da morte
e do morto

pelas ruas da cidade
vejo-o passar
com meu rosto

mas sem o peso
do corpo
que sou eu
culpado e pouco

Slow reading: não é movimento pró-leitura, é pró-humanidade

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O Sabático de ontem traduz uma ótima matéria de Patrick Kingsley do The Guardian sobre o Slow Reading. Na verdade, vai muito além de ser um movimento que defende a leitura sem pressa ou algo assim, é sobre garantir nossa capacidade de entendimento. Se você está lendo este blog agora corre o risco de estar diminuindo sua interação com o mundo, ao invés de estar aumentando. Há anos, dificilmente saberia que eu existo e quais são minhas idéias, restava-lhe então fontes mais seletivas, porque custavam mais caro, havia um mínimo de seleção (era mínima mesmo, desde o início se publica muita porcaria, seja em jornais, revistas ou livros).

Mas como começa Kingsley, seu artigo tem 10.841 caracteres (versão em inglês, publicada no dia 15 de julho, talvez o mais adequado seja falar em slow translation…), quem o lê na versão impressa deve ler aproximadamente 5.420 caracteres, a metade, mas quem lê on line, deve passar apenas por 2.100 caracteres. Por que? Porque o mundo digital é amplo, mundo vasto mundo, incontrolável e desfocado. Quem entra nele e fica apenas nele corre o risco da superficialidade.

Não estou aqui fazendo uma defesa de editor, sim, vivo disso e gostaria de continuar vivendo, mas defendo a minha convivência com seres humanos minimamente interessantes, pessoas com quem dê vontade deixar o comodismo da interação online e me empolguem a dividir uma garrafa de vinho e algumas horas, nem que seja para repetir o que foi dito no último encontro. Afinal, as pessoas que mais gostamos não falam quase sempre a mesma coisa? Quem não encontra o colega de faculdade e não se vê ouvindo e falando aquele mesmo e velho assunto, o pior, na verdade o melhor, é que, com a mesma empolgação inicial, próxima à empolgação do vivido naquele tempo, isso é humano, gente com gente.

Nicholas Carr defende que as palavras do escritor atuam como catalisador na mente do leitor, mas para chegar a isso, precisa ser escritor, ter alguma formação, alguma vivência, algum talento. O risco que corremos é ficarmos seguindo alguns com pouco ou quase nada a dizer, apenas esboços dos personagens que idealizaram para si num mundo de celebridades e instantâneos. Ler é ruminar o mundo que se cria entre o autor e o leitor, pode até ser digital, vai depender da preferência ou da disponibilidade, mas tomara que não fiquemos apenas restritos aos blogs, twitters, facebooks e seus substitutos. Prefiro ler um bom livro, prefiro uma tela de cinema, o escuro de uma sala de teatro, a dimensão arquitetônica de um museu e de preferência alguém com quem valha a pena compartilhar ou discutir tudo isso. Eu não quero conversar com quem não lê…

Uma ilha num oceano

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Vale ler na coluna de Mônica Bergamo da Folha de hoje o perfil de Muricy Ramalho. Não é sempre que se diz não para um sonho e se consegue manter a integridade e o respeito como ele fez. Fala do pai (link com o livro do Castello), do Poy e passa para uma sociedade tão leve e mutante de valores e significados algo mais antigo. Aumenta a pressão sobre si e dá um exemplo de que é difícil, mas talvez possível ser uma ilha de dignidade num oceano poluído, como é o do futebol, aliás, o futebol está hoje para o golfo onde a BP deixou escapar seu petrolinho… Hoje contra o Fluminense, não vou torcer para o São Paulo, mesmo porque, muita coisa precisa mudar lá e não adianta ficar tapando o sol com a peneira!

Nós olhos dos outros é refresco

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O jornalista Daniel Piza lança esta semana seu novo livro. Abandona temporariamente o estilingue e se coloca como vidraça, daquelas de arquitetura contemporânea, grande, com muito vidro. Noites urbanas foi criticado pela Folha de S. Paulo, não li para afirmar que foi sem base no livro e sim na pessoa, como parece afirmar a pessoa. Piza é feroz em sua coluna, tem não só o direito, mas também o dever. Mas Piza é também humano, o que no interesse desse post, quer dizer vaidoso, e parece lidar mal com a crítica. Na minha opinião deveria aguentar calado, não o fez, utilizou o espaço da sua coluna para atacar, um ataque leve, mesmo assim um ataque defensivo, não deixou os leitores julgarem, como o faz quando é o estilingue em várias obras que aborda no Estadão. Noites urbanas será lançado na Vila da Lorena esta semana.

É duro ser coerente, ainda mais quando, e quase sempre, se quer também ser o outro, do lado de lá…

Pai é coisa séria

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Acompanho todo sábado a coluna do José Castello em O Globo, gosto da sua visão e dos caminhos que percorre na literatura. Desde que vi matéria há um mês sobre seu novo livro, me interessei. Ele demorou para chegar. Castello teve uma relação complexa com seu pai, exclusividade dele?, e escreveu agora, também influenciado por Kafka, um livro sobre essa relação. Ainda não li nada, só as críticas, já sei que mistura vários gêneros.

Eis um assunto de formação, adote ou prefira qual linha você quiser…

Aviso aos diretores do Sebrae, Banco do Brasil e Caixa: aqui existem livros mais sérios para os senhores patrocinar…

Chega a ser ridícula, se não quase impossível de acreditar a notícia dada na coluna da Mônica Bergamo de hoje. Mas estamos no Brasil e o tal do Agaciel Maia, sim, aquele mesmo dos escândalos no Senado, foi escolhido “personalidade do ano” do prêmio Mérito Empreendedor dado pela Federação das Associações Comerciais, Empresariais e Industriais do DF.

Prêmios fajutos existem aos montes. São alimentados pela vaidade humana, pela mania do homem de achar que os outros também os vêem como ele gostaria de se ver, ou de ser. Contra isso, não tenho nada, acho que quem vende o prêmio merece quem ganha e quem assiste, todos humanos de baixa qualidade.

O problema é que o tal livro, A história quem faz é você, é patrocinado pelo Sebrae, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, piada. Piada maior é o tio Sarney ter escrito sobre Agaciel, imagina o que o cara sabe…

Esses livros deveriam continuar árvores. Empreender com dinheiro público e ter lucro privado é crime, não mérito!

Brasil está mesmo no moda: blowing in the wind…

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Fábio Cypriano não poupou Bob Dylan na reportagem de ontem da Folha sobre a exposição do cantor passando por pintor em Copenhagen. Acho que tem razão, se não fosse quem é, dificilmente teria espaço num museu. A produção já estaria muito bem colocada numa galeria, isso acaba deixando claro que os museus são também instituições políticas e fazem seu marketing. Uns com Bob Dylan e o retrato de paisagens brasileiras, outros com roupas de designers famosos, e por aqui, uns corpos. Vale tudo para ouvir o tilintar da caixa registradora. Bob Dylan compõe muito melhor do que pinta…

O ranking das mídias sociais

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A foto é da artista Elida Tessler, encontrei na net, o ranking da Daily Beast, a utilidade, sei lá…

O ranking das mídias sociais mais quentes do momento nos Estados Unidos é:

1) You Tube
2) Twitter
3) Tumblr
4) Facebook
5) Foursquare
6) Myspace
7) Skype
8) Flickr
9) Vimeo
10) LinkedIn
11) Posterous
12) Gowalla
13) Bebo
14) Zynga
15) Friendster
16) Playfish

Das 16, conheço 8, uso 6, do restante, tô velho… Ou então, tem muita besteira por aí! Mas quem quiser me apresentar e convencer, estou aberto.

Buying literature has become cool again…

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A frase acima é do professor de comunicação de mídia da Fordham University Paul Levinson. Que bom que enxerga assim, tomara mesmo que a literatura volte a ser algo cool, ou seja, que atraia pessoas que não vinha atraindo, acho que não por falta de oferta, sim por demanda, pelas pessoas estarem preferindo coisa fácil, se é que isto existe.

A frase estava inserida numa matéria do New York Times dizendo que os e-readers deixam as pessoas menos isoladas. Para mim a matéria contém um erro básico. A leitura não é um ato isolante, é um ato mergulhativo, requer esforço e concentração quando é consumida, mas abre portas e mundos depois, possibilita uma convivência mais interessante e saudável, menos superficial. Se aproximar de alguém por um gadget é algo tão bobo quanto se aproximar por um cachorro. Cachorros e iPads têm telefone (talvez a hístória do telefone já esteja ultrapassada), mas é algo passageiro, uma desculpa com prazo de validade. A literatura não só aproxima, mas capacita para conviver, esse sim o desafio da vida. Conhecer pessoas é fácil, mesmo para quem é tímido, conviver com pessoas, e bem, eis algo já não encontrável em lojas de artigos, nem de 1,99, nem de luxo…

Nossos autores no twitter

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Eis a lista dos nossos autores que podem ser seguidos no twitter:

André Torretta - Mergulho na base da pirâmide - https://twitter.com/andretorretta 

Francisco Britto - Empreendedor ou executivo? e Miguel Abuhab - https://twitter.com/chicobritto 

John Thackara - Plano B - https://twitter.com/johnthackara

Julio Ribeiro - Fazer acontecer.com.br - http://twitter.com/Talentprop 

Raul Rosenthal - Sonhar acordado - https://twitter.com/RaulRosenthal

O Britto aborda várioas aspectos, o Torretta e o Julio Ribeiro falam mais de publicidade, o Thackara de design e o Raul Rosenthal fala sobre carreira e negócios. Vale conferir.

Seth Godin x editoras

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Uma notícia que rola pela net é que o “guru” Seth Godin desistiu das editoras. Eu como editor, nunca optei por ele, não preciso portanto desistir agora…

Para mim Godin é um marketeiro interessante, mas alguém consciente de que precisa dos livros para vender palestras e consultorias. Lá fora diz fazer sucesso, por aqui, já transformou muito papel bom em encalhe. Estou com isso dizendo que ele está errado em confrontar as editoras e seus modelos de negócios? Claro que não, acho que o momento é propício para que todos revejam seus interesses, suas expertises, suas possibilidades. Cada um deve sim exigir o melhor para si, mas é preciso reconhecer que os editores, uma grande parte deles, faz um trabalho descente, esforçam-se e correm riscos por seus autores. Não dá para retribuir com remuneração equivalente ao que se ganha e cobra no mercado de palestras ou consultorias, mas é preciso sim ver as escalas.

Estou voltando agora ao mercado, animado que vai crescer. Existirão aqueles que querem ir direto com uma livraria? Sim, existirão, estão errados? Não sei, ainda acho que livro é um tipo de produto não tão igual aos outros, requer um certo trabalho, e principalmente um tempo para ser deglutido.

No Link de segunda há uma interessante matéria com Nicolas Carr, não sei se esse também desistiu do formato tradicional, pelas suas idéias, acredito que não, mas prega que a rede está “emburrecendo” as pessoas, no mínimo estaríamos ficando mais superficiais e menos focados, com menor capacidade de processamento vertical. Isso é sério, qualquer pessoa na meia idade olha para um jovem com um misto de inveja por perceber nele a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Como tudo na vida, o que não está sendo considerado é o custo, e tudo tem um preço. Os jovens tem uma enorme capacidade horizontal, migram de um aplicativo ou programa para outro com leveza absurda, o que não sabem é como vão encarar um tal vazio criado pela falta de densidade, um dia ele vem.

Então, calma lá. Que editores, muitos deles, estão velhos e precisam olhar o mundo com outros olhos, sim, precisam, mas não será seguindo os senhores Godin, Covey ou Coelho que o mundo vai começar a resolver seus problemas.

Caros autores e futuros autores, nós aqui sim pretendemos e vamos trabalhar também nas plataformas digitais, porém ainda acreditamos no livro em papel como algo prático, até com um componente que beira o sagrado, no sentido de um produto capaz de ter auxiliado a humanidade a sair das trevas, e que o homem, no seu caminho individual, quer mesmo é percorrer uma longa e desafiadora viagem para terminar reconhecido por poucos, aqueles que lhe fazem sentido, cercado de sua história, da maior parte dela que puder.

Nós vamos continuar tentando atrair autores, mas só aqueles que acreditam que existem profissionais que agregam valor às suas idéias, interlocutores capazes de ajudá-los a desenvolver melhor seus conteúdos, que entendem de formas de empacotar e que podem sim separar o joio do trigo. Para os que vêem apenas uma commodity de varejo, façam seus acordos diretos com livrarias ou sites de venda, vão ganhar mais, que a busca pelo seu algoritmo seja bem-sucedida, vou ficar por aqui de olho aberto tentando aprender, vendo onde posso aplicar o meu talento em resolver alguma frase, escolher um título, um subtítulo, um detalhe ou uma capa inteira.

Há aqueles que acreditam que tudo é apenas comercializar, esses dificilmente terão lugar na Livros de Safra, porque o nosso nome vem de agricultura, de um esforço em trabalhar a terra e encontrar as melhores condições para as sementes darem fruto, ciente de que as condições climáticas podem complicar. Um desabafo a uma mídia que abre espaço para muita coisa boa, mas também para muito lixo. Já disse aqui várias vezes: pare de ler esse blog e vá ler um grande escritor, um grande livro, com certeza terá mais lastro, um lastro de pensamento, capaz de iluminar um pouco quando estiver no meio do blackout causado por tamanho amontoado de frugalidades e besteiras.

Espelho LXXVIII

Ser humano é flertar com o certo e o errado, sem saber qual é qual, sem a certeza de para qual lado ir…

É melhor conhecer o inimigo: White Collar

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Tive um final de semana diferente, li menos do que assisti televisão. Mas era o que tinha que ser feito, tudo começou na mesa, numa conversa familiar, meu filho apontando seu entusiasmo com as características do herói da série White Collar, que seu professor tinha erroneamente já explicado como crime do colarinho branco, não apenas como pessoas que trabalham em escritório, em oposição aos operários.

Como o assunto já o tinha feito aprofundar e inclusive pensar em vestir-se diferente para ir à escola, resolvi entender do que se trata. É mais uma série onde o bonitão, é esperto, no sentido ruim da palavra, um estelionatário, um falsificador dos mais inteligentes, une-se ao policial bonzinho e caretão e passam a desvendar melhor os crimes.

Pode até haver uma representação real e natural da natureza humana, mas que é estranho ver o seu filho querer ser tipo o cara, isso é, mas é melhor que seja assim agora, aos 13, e me alerta para o quanto de trabalho terei pela frente, do que aconteça depois. Mas o ritmo e os clichês são interessantes, suficientes para ser difícil que ele abra um livro, algum clássico. Aliás, como disse, na livraria há semanas, pedi indicação de uma leitura de algo clássico para ele e não obtive nenhuma resposta significativa. Me resta a esperança do exemplo dada. Se ele vai ler num gadget ou no papel não sei, espero que lei, nem que seja para ter idéias para as séries que planeja produzir.

A arte de colecionar…

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Parece que o pessoal do Lehman Brothers não foi apenas incompetente para gerir banco, o foi também para montar coleção de arte.

Com um passivo de 80 bilhões de dólares, a coleção do banco vai a leilão com uma expectativa de levantar míseros 16 milhões de dólares. Ou seja, mais uma comprovação de que a riqueza já foi distribuída. Esse valor é menos do que os bônus anuais de dezenas, quiçá centenas de executivos. Talvez se os bônus tivessem sido menores, se a coleção fosse mais valiosa, o banco ainda existisse… Sei lá, coleção é algo complexo, parecido com a montagem do catálogo de uma editora. Se for para não vender, o melhor então é ter livros que lhe agradem pessoalmente. Nada pior do que lançar sem gostar por acreditar que vai vender, tão ruim quanto comprar sem gostar esperando a valorização.

Colecionar é uma arte, tal qual editar! Hoje li notícias de apostas sem muita vontade, apenas pelo potencial de vendas. Coisa que tendo a não fazer, o mercado editorial é também uma máfia, mas que seja então uma máfia do bem!

Deve ser a parte mais fraca da trilogia biográfica de Coetzee

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Acabei a leitura de Infância, primeiro livro da trilogia “biográfica” do escritor Coetzee. Me resta agora Juventude, Verão li há pouco e fiquei com a sensação de ter gostado mais do que este.

É claro que são profundas as dúvidas do garoto perdido entre as culturas, não quer ser africânder, parece temer ter que conviver com os locais e encontra dificuldade de se posicionar numa África do Sul marcada pelos contrastes. Também não sabe como se colocar em relação a mãe e ao pai, prefere a mãe, tem com o pai uma relação complexa, mas não entende a mãe e a relação dela com o pai, demonstra em alguns pontos o nojo e o incômodo. Bom aluno, vê as coisas mudarem quando vai para a Cidade do Cabo, mistura interior, vida rural com a vida urbana.

É um homem fadado a ser frio, não teve relações carinhosas na formação. O que disso foi verdade? Só o próprio e seus próximos sabem. Se for verdade, é exposição profunda, se for criação, desnecessária, não para o leitor, sim para os familiares.

Tive uma discussão sobre empresas familiares e usei a seguinte frase como algo verdadeiro que acontece com famílias: “O pai gosta do Partido Unido, gosta de críquete e de rúgbi, porém ele não gosta do pai. Não entende essa contradição, mas também não tem vontade de entendê-la. Mesmo antes de conhecer o pai, isto é, antes que ele voltasse da guerra, já tinha decidido que não iria gostar dele. Em certo sentido, portanto, a antipatia é abstrata: ele não quer ter um pai, ou pelo menos não quer um pai que more na mesma casa.
O que mais detesta no pai são seus hábitos. E os detesta tanto que só de pensar estremece de repulsa: o ruído forte ao assoar o nariz no banheiro de manhã, o odor quente de sabonete Lifebuoy que deixa para trás, junto com um círculo de espuma e barba cortada na pia. Sobretudo odeia o cheiro do pai.”