Slow reading: não é movimento pró-leitura, é pró-humanidade
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O Sabático de ontem traduz uma ótima matéria de Patrick Kingsley do The Guardian sobre o Slow Reading. Na verdade, vai muito além de ser um movimento que defende a leitura sem pressa ou algo assim, é sobre garantir nossa capacidade de entendimento. Se você está lendo este blog agora corre o risco de estar diminuindo sua interação com o mundo, ao invés de estar aumentando. Há anos, dificilmente saberia que eu existo e quais são minhas idéias, restava-lhe então fontes mais seletivas, porque custavam mais caro, havia um mínimo de seleção (era mínima mesmo, desde o início se publica muita porcaria, seja em jornais, revistas ou livros).
Mas como começa Kingsley, seu artigo tem 10.841 caracteres (versão em inglês, publicada no dia 15 de julho, talvez o mais adequado seja falar em slow translation…), quem o lê na versão impressa deve ler aproximadamente 5.420 caracteres, a metade, mas quem lê on line, deve passar apenas por 2.100 caracteres. Por que? Porque o mundo digital é amplo, mundo vasto mundo, incontrolável e desfocado. Quem entra nele e fica apenas nele corre o risco da superficialidade.
Não estou aqui fazendo uma defesa de editor, sim, vivo disso e gostaria de continuar vivendo, mas defendo a minha convivência com seres humanos minimamente interessantes, pessoas com quem dê vontade deixar o comodismo da interação online e me empolguem a dividir uma garrafa de vinho e algumas horas, nem que seja para repetir o que foi dito no último encontro. Afinal, as pessoas que mais gostamos não falam quase sempre a mesma coisa? Quem não encontra o colega de faculdade e não se vê ouvindo e falando aquele mesmo e velho assunto, o pior, na verdade o melhor, é que, com a mesma empolgação inicial, próxima à empolgação do vivido naquele tempo, isso é humano, gente com gente.
Nicholas Carr defende que as palavras do escritor atuam como catalisador na mente do leitor, mas para chegar a isso, precisa ser escritor, ter alguma formação, alguma vivência, algum talento. O risco que corremos é ficarmos seguindo alguns com pouco ou quase nada a dizer, apenas esboços dos personagens que idealizaram para si num mundo de celebridades e instantâneos. Ler é ruminar o mundo que se cria entre o autor e o leitor, pode até ser digital, vai depender da preferência ou da disponibilidade, mas tomara que não fiquemos apenas restritos aos blogs, twitters, facebooks e seus substitutos. Prefiro ler um bom livro, prefiro uma tela de cinema, o escuro de uma sala de teatro, a dimensão arquitetônica de um museu e de preferência alguém com quem valha a pena compartilhar ou discutir tudo isso. Eu não quero conversar com quem não lê…
