
Gonçalo M. Tavares continua a me irritar, não gosto do jeito que ele escreve, simplesmente porque tenho inveja…
Li seu último livro A máquina de Joseph Walser, coleção O Reino, a mesma do premiado Jerusalém. A cada livro dele que leio, sou um leitor mais maduro, exigente e continuo a gostar. Percebi nesse que em alguns pontos a história perde para a forma, nada que afaste o leitor, que diminua a sua experiência, uma experiência diferente, compensada pela densidade das palavras, sem nenhum apelo aos adjetivos fáceis.
Walser é um operário com hábitos esquisitos, tão esquisitos quanto qualquer ser humano, tem problemas com a mulher e o chefe, os dois no mesmo problema e acaba tendo um acidente mutilante de trabalho, próximo ao do nosso presidente, mas perde o indicador. A máquina causadora do acidente pode ser vista como metáfora para regras e outras questões, as relações homem-mulher são questionadas, eis algumas ”pérolas”, no melhor dos sentidos (a que mais gostei não vou botar porque posso incluir como epígrafe do meu livro):
“mulheres obesas agarram-se aos homens e não mais os largam: porque sabem qeu provavelmente não terão outro, e odeiam essa possibilidade, a de não terem outro.
… de quem dizem coisas assustadoras mas também maravilhosas, como convém ao currículo dos poderosos.
… porém o aperto de mão entre dois homens faz o que a engenharia demora meses em casas destruídas: os sentimentos são, apesar de tudo, materiais mais leves e recuperáveis que a pedra, o tijolo ou o cimento.
Se busca algo rápido e forte, eis uma excelente indicação.