
Em terra de poucos leitores, os que lêem são obrigados a ver espaço nobre dedicado mais à polêmica do que a livros. Chega de discussão sobre o Jabuti. Só hoje pude por em dia a leitura da Ilustríssima, estava atrasado, comecei pelo artigo do Sérgio Machado da Record, daí pulei para o primeiro, da Folha e depois a resposta deste e artigo que originou a resposta do primeiro, do Luiz Schwarcz da Companhia das Letras. Mas é claro que todos os outros veículos ecoaram o assunto, ainda não passei na banca que me reserva O Globo de sábados e domingos desde a semana passada, daqui a pouco vou fazer e acompanhar a repercussão na terra de lá, porque mesmo no meio de tanta confusão de verdade, deve ter sobrado espaço para vaidades e prêmios, e aí, a vaidade e os prêmios são acusatórios para as editoras, os autores, os organizadores e para mim, ela é inerente a todos os humanos, alguns a assumem, outros a tentam disfarçar.
O que lamento é que nem na Folha, nem no Estado, nem em outra mídia que tenha acompanhado achei nenhuma avaliação mais objetiva. Que tal contratar dois ou três críticos para falar das obras, não das polêmicas? Não seria um modo construtivo de fazer polêmica? Chico ou Silvestre? Por que não partir para os críticos e outros leitores, mas todos partindo de uma avaliação equitativa? Não ficariam os leitores dessa mídia mais preparados para se posicionar?
Falando em se posicionar, não posso ficar de fora. Não vou preparar nada para esta suposta avaliação. Não lembro tanto assim dos dois livros. Qual deles é um puta livro? Nenhum, então, reproduzo abaixo o que comentei aqui após o final da leitura. De resto, fico desejoso que a comunidade editorial e a mídia resolvam consensar que é hora de preservar este espaço dado a polêmica aos livros da literatura brasileira. Paremos de falar de prêmios e falemos de livros, é hora de manter o espaço conquistado…
16 de Abril de 2009

Se você lê jornais e revistas, deve não ter ficado imune ao bombardeio do lançamento do novo livro do Chico Buarque, Leite derramado. Irretocável a estratégia, todo mundo deu, alguns, mais de uma vez e eu, para não me sentir um peixe fora d’água, resisti no sábado, mas comprei no domingo.
A posse me fez relaxar um pouco, mas finalizei a leitura nesta semana. Acredito que já tinha lido tanto sobre o livro que precisei de alguns dias para desintoxicar… Gostei bastante, mas concordo, se não me engano com o Eduardo Gianetti, que afirmou que o personagem não atrai a simpatia do leitor. Sim, existe uma decadência do Brasil descrita numa linguagem madura, muitas vezes ácida, noutras poética, na maior parte do tempo sofisticada sem ser pedante, sem ser chata.
Mas o tal Eulálio não me deixou querendo saber o que mais tinha acontecido com os seus, essa é a grande ausência, não conseguiu formar a filha, nem mesmo a Matilde no meu desejo de ir além. Você vai sabendo, os capítulos funcionam quase como grandes parágrafos que o conduzem, criam o fluxo, mas não me criaram uma realidade paralela, não adicionaram mais histórias, comecei a ler Questões de honra na livraria no outro dia e, apesar de uma linguagem mais pobre, além de comprar, comecei a me envolver mais com a história, vamos ver no que vai dar, depois informo.
Ah, muita boa a estratégia das duas capas, li a outra. Escolha a sua, talvez você se empolgue mais como a maioria, mas se Eulálio está na mesma posição de Cubas, talvez tenha faltado a viagem pelo túnel da morte para dar uma outra pitada. Para quem gosta de comparações, Chico não ultrapassou Machado, mas essa verdade cabe ao tempo.
3 de Setembro de 2010

Li o novo e primeiro romance do Edney Silvestre apenas para checar os critérios da comissão julgadora do Prêmio São Paulo. Deram a ele o de livro iniciante. Desconfiava que poderia ser um desvio por se tratar de um autor iniciante já famoso, repórter de televisão, apresentador de programa de literatura.
Conclui que não foi, apesar de não ter lido os concorrentes. A história é bem boa, a linguagem me pareceu em determinados pontos uma tentativa de escrever bem, mas a relação dos dois garotos numa cidade do interior para descobrir um crime e um submundo do poder e do desejo humano são muitíssimos bem explorados por Silvestre. Não é possível ao leitor ir construindo sozinho a história, precisa do narrador que surpreende. Estava gostando mas não tão empolgado até que num determinado momento, lá nas páginas finais tive um lacrimejamento espontâneo dos olhos. Acho que literatura isso, uma medida individual, gosto de pensar que o meu sarrafo é elevado, por isso, a recomendação.
Um livro que trata da amizade masculina e do ritmo lento de consciência do verdadeiro jeitão da espécie.