ARTIGOS DO EDITOR

Líder que é líder, ensina!

É isso mesmo, a sugestão de leitura dessa semana para você, empresário ou executivo, é um livro de pedagogia. A arte de ensinar, do professor, poeta, romancista e crítico Jay Parini. Não, esse colunista não pirou, partiu apenas de um pressuposto básico e direto. O que faz um bom chefe ou líder a não ser ensinar?

Se você tem em seu trabalho que inspirar, dirigir ou gerenciar pessoas, o paralelo com um bom professor é mais do que útil, fundamental. Por isso, a leitura do livro de Parini não só trás de volta tempos de estudante, como mostra que alguns professores inspiram e outros simplesmente são esquecidos, alguns estimulam, outros obrigam os alunos a decorarem a matéria e a esquecer não muito depois. Milhões e milhões são investidos em programas de trainees para os iniciantes, em cronogramas de treinamento e universidades corporativas que seguem o executivo ao longo de sua carreira. Você já parou e acumulou quantas horas do seu tempo foram despendidas numa sala de treinamento? Qual o percentual protocolar dessas? Em oposto, quantas dessas horas efetivamente conseguiram acrescentar questionamentos, despertar a sua atenção, mobilizar sua ação e fazer uma maior integração entre o seu lado pessoal e profissional?

Sim, apesar de absurdo, é enorme a quantidade de pessoas que ainda insiste em separar seus momentos, como se ao fechar a porta de casa, a pessoa encarna um outro personagem, um no escritório, outro em casa, você é um dos que tentam essa dissociação pouco saudável? O autor traça um paralelo entre as necessidades de adaptação de um professor, a utilização de máscaras, como no teatro grego, onde a escolha de determinada máscara facilita a interpretação de determinado papel. Mas não confunda a possibilidade e exigência de se interpretar vários papéis, dependendo da demanda de sua equipe, e a ruptura total que acomete muitos executivos, tentando ter vidas paralelas, pessoa jurídica durante o dia, pessoa física às noites e fins-de-semana.

Outro ensinamento fundamental do livro onde basta apenas trocar a palavra aluno por membro da equipe, texto por projeto é: “o professor Tony tratava cada membro de sua equipe com respeitosa deferência, esperando que dissessem coisas inteligentes e sérias e que descobrissem maneiras pelas quais o projeto estudado corporificasse, ou simbolizasse, experiência.” Ou seja, cuidado, não deixe que o sucesso e todas as mordomias ainda reinantes te afastem dos membros de sua equipe, ouça-os de verdade. Não deixe que as pressões cada vez mais prementes por resultados e certezas, impeçam que um sentido de confiança e respeito crie a cumplicidade capaz de desenvolver novas soluções imediatas, ou então, pavimentem um caminho para que no futuro, mais e mais pessoas possam contribuir com idéias, posições e ações.

Sobre disciplina há no livro vários argumentos que não existem condições ideais, é melhor escrever duas páginas por dia, todo dia, do que aguardar o momento e os recursos adequados para se iniciar e finalizar o intento todo. Cita o exemplo do escritor John Updike, adepto das duas páginas por dia e que invariavelmente lança todos os anos longos livros, todos escritos dessa forma. Então chega de desculpas, nunca vai chegar o instante em que a equipe, recursos, sua motivação, macroeconomia, chefe e outros obstáculos, deixem de bloquear o início de projetos viáveis se encarados em partes e de acordo com as disponibilidades do momento. O autor dá a dica da diferença do urgente no seu desempenho, serve como um potencializador da disciplina, para tanto, tem sempre duas ou três coisas urgentes a serem concretizadas. Tem também consciência daquela máxima, “se quer algo de alguém, peça para um ocupado…”, ao constatar que nas férias da universidade, tem dificuldade adicional de criar poemas e ficção. Em tempos de aula, com uma agenda mais focada, desperdiça menos as oportunidades e cria mais.

Mas talvez a lição mais significativa é a da importância e dificuldade de se encontrar o tom adequado. Cada um possui o seu, mas chegar a ele requer, não apenas conhecimento no assunto, e sim, principalmente, uma paixão e vontade de transmitir algo, de se conectar com a audiência e acreditar na força e capacidade de motivar alguém a dar prosseguimento àquela chama interna. Só assim lições são passadas, seja numa sala de aula, seja em casa, seja na empresa em que trabalha. Ler A arte de ensinar ajuda a combater muito da hipocrisia que ronda as empresas, só isso já pode ser classificado como mais uma das grandes contribuições da universidade, na visão do autor, um dos últimos bastiões do pensamento crítico num mundo tão voltado ao entretenimento.

A arte de ensinar
Jay Parini
Civilização Brasileira
189 págs.

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