ARTIGOS DO EDITOR

É Carne!

Não passa disso. As almas deixaram os corpos e estão no céu com Deus. Tudo o que restou são carcaças que são tão humanas quanto a carne morta do gado que comemos em casa”. De todas as decisões que ilustram o novo livro de Michael Useem, essa foi a mais forte para mim. Sim, Roberto Canessa decidiu, e convenceu os outros sobreviventes, a comer carne de seus antigos companheiros de vôo após o acidente nos Andes em 1972 que abateu a aeronave onde viajavam o time de rúgbi e alguns torcedores.

É difícil uma decisão tão forte, tão instintiva na sua vida. Na média, vivemos dramas e questões complexas, mas poucas nos levam tão ao básico, nos expõem a um dilema tão primário. Esse é um dos grandes méritos de Useem, um professor norte-americano disposto a deixar a pompa das salas de Wharton e tentar vivenciar um pouco das dificuldades que os personagens escolhidos por suas lições de liderança viveram em momentos definitivos. Para isso ele vai e leva suas turmas de estudantes para o acampamento base do Everest, para as montanhas onde grandes incêndios destruíram áreas inteiras, para outros continentes e situações menos protegidas que o puro ambiente acadêmico. Isso já não é pouco!

Faz isso por acreditar que liderança e decisão se ensinam e se aprendem, e esse ato fica muito mais fácil quando se pode efetivamente sentir um pouco mais das dificuldades do momento crucial. Ou seja, uma coisa é analisar o comportamento de um bombeiro no meio de um grande incêndio, outra, é estar no local e correr a mesma quantidade de metros no mesmo tempo determinado. Por mais que na simulação o fogo não te pegue, o fato de saber que não correu o suficiente para se salvar empurra o aluno para um outro patamar, mais prático e efetivo.

Em alguns momentos o livro parece cansativo, exagera nos detalhes da guerra de Secessão americana, expõe detalhes do incêndio x, mas isso não atrapalha a leitura, não diminui a força do verdadeiro guia de tomada de decisão. “Ir” com ao autor nos locais e situações propostos serve no mínimo para você certificar-se que não sofre nem de decidofobia, nem de hipengiofobia. Na verdade, há uma possibilidade maior de sofrer dessas duas patologias, à pertencer ao diminuto grupo dos decisores naturais, pessoas que não tem pavor de tomar uma decisão como os primeiros, nem se incomodam tanto com responsabilidade, quanto os segundos.

Uma série de dicas e fatos verdadeiros aparecem ao longo dos capítulos. Lá se é possível aceitar que o acaso e decisões quase místicas também afetam importantes políticos americanos como a secretária de comércio que aceitou o equivalente a secretária geral do ministério após uma dúvida arrastada, por simplesmente se deparar com um carro na sua frente de placa: GO4IT. Lá se aprende que as pessoas ficam mais propensas a cometer erros de decisão depois de uma experiência afirmativa, ou seja, uma autoconfiança elevada e um bom desempenho levam um excesso de confiança e um orgulho pessoal perigosíssimos. As pessoas também tendem a se cercar de opiniões muito próximas às suas, acabam sempre consultando outras de um universo muito familiar e parecido. Outras cometem erros grotescos ao chegar a ambientes mais sutis e não se preocupar em entender as regras ocultas do jogo.

Uma outra seção didática é a dos exemplos que requerem uma interatividade com o site do livro. Lá três exercícios devem ser respondidos para se obter a resposta correta. Além da resposta o autor pede breves explicações, tudo em inglês. Dá para passar sem isso? É claro, mas não deixa de ser interessante utilizar essa ferramenta adicional, vale tudo para aprender a decidir no campo teórico, quanto mais preparado estiver, mas natural será a reação diante do momento verdadeiro.

O livro não esconde que o processo de decisão requer disciplina e dedicação, mas não cai na tentação de tomar partido apenas desse lado ciência, defende também o lado arte, o do palpite e da intuição. O autor também tem claro que quanto mais decisões você tomar, menor será a probabilidade de arrependimentos a respeito de tomar a próxima decisão. É lógico que tudo fica mais complicado quando sua decisão impacta a vida de outros. Falando em vida dos outros, nesses momentos de descrença e bandalheira geral que vivemos, a leitura é também altamente recomendada para os políticos, lá existe uma regra básica: quanto mais privilegiada for a sua posição, menos vantajosas para si suas decisões devem ser.

A hora da verdade
Michael Useem, Campus/Elsevier
264 págs.

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