ARTIGOS DO EDITOR
Alicerce
Se você busca uma ferramenta para melhorar o seu desempenho na empresa ainda para o próximo bônus, esqueça o livro de Celso Furtado. Se não consegue um bom relacionamento com a equipe também de pouco adianta, se ter uma visão macro do estágio atual da economia brasileira nunca fez parte dos seus sonhos, definitivamente esse não é um livro que deve ser seu companheiro por alguns dias e depois engrossar a sua biblioteca.
Caso se encaixe no leitor acima, não se desespere você não está condenado, muitos executivos bem-sucedidos são assim, só conhecem o universo da empresa, só lêem o que se lê na empresa, o que lhes é dado nos treinamentos e workshops. Você irá ganhar bem, terá responsabilidades, mas conforme-se, desenvolver um raciocínio macroeconômico geral, ter opinião própria já é mais difícil.
Vale o investimento, Formação econômica do Brasil é um clássico nada complicado, didático, coloca em perspectiva toda a história econômica do Brasil, desde as razões políticas que levaram os portugueses a terem que desviar recursos de atividades mais lucrativas para ocupar o Brasil, política e a fantasia do ouro, até todas as incorreções de decisão que ainda deixavam o Brasil longe do desejado quando o livro veio ao mercado em finais da década de 1950. Mas lá, com certeza a perspectiva ainda era maior, mais virgem. Não tínhamos vivido a desilusão da ditadura militar, não tínhamos perdido a esperança nos tucanos, não tínhamos tomado o susto ético que tomamos com o PT. Se em 1959 já era preocupante o futuro do Brasil, hoje ainda mais.
Da primeira edição do livro até hoje a Coréia se transformou, a China rompeu um sistema comunista e é o que você sabe e tantos outros países que por um tempo viam o Brasil por baixo, agora o vêem de cima. Por aqui ainda não se fez nada prático para uma efetiva revolução educacional, revolução necessária e já identificada por Celso Furtado.
As elites dominantes insistem em acreditar na possibilidade e suficiência das soluções que atendam apenas aos seus interesses. Devem ser os genes de seus antepassados traficantes de escravos, senhores de engenho do nordeste, pecuaristas, exploradores da borracha e do ouro, fazendeiros de café e industriais de setores estimulados. Celso Furtado ajuda a entender como faltou uma amplitude de interesses e uma visão global. Mostra que o Brasil quase sempre esteve na contramão do mundo, quando se fechavam, aqui estávamos abertos, quando se abriam, aqui olhávamos apenas para dentro.
Outra lição importante diz respeito ao lado extremamente negativo da abundância. Se recursos naturais aqui não faltaram, nenhum grande esforço de produtividade foi empenhado, isso sempre fez que os empresários não precisassem investir em tecnologia, buscar soluções inovadoras. Talvez o momento mais tecnológico do Brasil ainda seja na empresa açucareira nordestina, essa sim capaz de “vender” tecnologia para o parque açucareiro antilhano. Toda essa tecnologia veio de uma estrutura de capital menos pura do que eu tinha conhecimento. Também desconhecia o quanto capitais de outras potências européias já estavam comprometendo a independência de Lisboa e o quanto fica claro que nesse mundo, desde os primeiros tempos, todo favor político tem uma contrapartida econômica.
Um alerta importante para o otimismo atual diante de todos os usineiros, heróis brasileiros, pelo menos para nosso mandatório-mor, talvez mandatório não seja a melhor palavra, são os perigos da monocultura. Como diria Celso Furtado: “o sistema de monocultura é, por natureza, antagônico a todo processo de industrialização”. Não sou ingênuo, o processo de industrialização brasileiro é complexo e já percorreu distâncias importantes, mas vale o alerta diante de tamanha euforia.
Ler Celso Furtado também permite entender como os Estados Unidos foram para um lado e o Brasil para outro, como as chances foram perdidas e como o Estado nunca conseguiu enxergar o todo e agir em nome de todos.
Para quem se dispõe a ler Formação econômica do Brasil um bom complemento é um pequeno livro de uma entrevista de Celso Furtado para Cristovam Buarque: Foto de uma conversa. O livrinho serve como reforço da dimensão intelectual de Furtado e da extensão de seus pensamentos. Falta uma influência maior de Furtado nas universidades, nos partidos políticos e nas associações empresarias. Falta uma elite interessada em se inserir num contexto mundial de cabeça levantada, isso ainda deixaria uma pessoa nascida no sertão da Paraíba, que não optou pelo cangaço e foi ser professor em Cambridge e Paris envergonhado.
Formação econômica do Brasil
Celso Furtado, Companhia das Letras, 350 págs.
Foto de uma conversa: Celso Furtado - Cristovam Buarque
Paz e Terra, 96 págs.
