ARTIGOS DO EDITOR

Paiêêêêêê!!!

Quando não se tem um bom pai, convém providenciar um.
F. Nietzsche

Cada vez mais gosto da coragem de Nietzsche e de sua capacidade de olhar para a vida de olhos bem abertos. Conviveu pouco com o pai, um influente pastor da cidade em que moravam e que veio a falecer quando o menino tinha apenas 5 anos. Nietzsche estudou teologia, não poupou convenções e entre vários pontos polêmicos, acabou conhecido como o filósofo a decretar a morte de Deus. Simples acaso ou mais um exemplo dessa relação no mínimo paradoxal entre pais e filhos?

O livro de Luis Colombini, Aprendi com meu pai, Editora Versar, 254 páginas, trás 54 depoimentos de pessoas das mais variadas áreas, empresários, executivos, artistas, jornalistas que escolheram um viés para abordar a relação com seus pais. Ao autor coube, além de selecionar os participantes, deixar o texto redondo e gostoso de ler e contar a história de seu pai. Confesso que participei do projeto, não apenas como depoente, mas também como palpiteiro e entusiasta. Garanto não ser esse um artigo encomendado, agora que você já sabe vai me cobrar maior isenção. Fica o desafio, leia a coluna, depois o livro e se achar que fui parcial, critique.

Eis um bastidor sobre a capa. O editor se apaixonou pela foto escolhida. O fotógrafo, ninguém menos do que Robert Capa, o pai Ernest Hemingway. Grande escritor e uma vida bastante complexa Hemingway não acompanhou todos os tropeços do filho Gregory. Aposto que quem olha a foto queria ser um dos dois. Perfeita, a vida deles, não. Como não é a minha e nem provavelmente a sua, mas um resumo dessa relação que não é uma simples equação de soma de momentos, e sim uma onde, alguns momentos, podem equivaler há muitos anos, os que o livro trata. Verdade na capa!

É impossível percorrer as histórias e as biografias dos pais sem fazer ligações com a sua história pessoal, isso já vale por uma terapia, várias seções. Um ponto de aproximação com o seu pai, ou com os seus filhos. Se a sua relação com o seu pai não estiver bem resolvida, esse é um excelente exercício, uma oportunidade de resgatar momentos e traçar paralelos, comparar o seu com o dos outros. Alguns participantes escolheram um tom mais festivo, optaram pelo lado mais leve da relação, outros se abriram mais e tocaram em pontos mais delicados. Ou seja, para alguns pais a homenagem é direta, para outros, é mais da vida.

Para os que têm uma relação bem resolvida com seu pai a leitura também é indicada. Uma oportunidade de olhar para o “velho” e reconhecer o que te foi dado. O papel de pai é um dos mais complexos que um ser humano tem a encarar, não existe receita, não tem chefe, estratégia, é improviso, é longo prazo. Não existe manual, não espere isso do livro. Há muito a aprender, mas dependerá de você, do tipo de reações que as suas experiências, guardadas no consciente ou no inconsciente, terão diante dos relatos. Bem assim, como a vida é.

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