ARTIGOS DO EDITOR
Até que a morte nos separe?
Temos a oportunidade - e o desafio - de inventar o casal, o casamento, a família, a vida que queremos para nós.
Mirian Goldberg
Não interessa o acontecido no mundo, não interessa a capacidade de Brasília de anunciar novidades ou cair nas antigas besteiras. Desta vez me vanglorio de ter o assunto mais quente e polêmico dessa revista.
Infidelidade e casamento vão permear a sua existência, de uma maneira ou outra. A antropóloga Mirian Goldenberg mais uma vez estuda a infidelidade, apoiando-se em livros anteriores e em pesquisas, mostra um relato, além de curioso, bastante reflexivo sobre as perspectivas masculinas e femininas diante de um relacionamento amoroso e sexual. Em teoria os homens traem mais, a diferença cai, mulheres assumem cada vez mais também trair, mas as razões ainda são diferentes. Para alguns pode parecer machismo, os homens buscam uma diversidade, outras experiências, e isso acaba provocando um revide, uma resposta. Nem todas conseguem suportar uma traição ou um abandono presente sem se jogar nos braços do mais conveniente que aparecer.
A inspiração para a autora vem de sua admiração por Simone de Beauvoir, para quem seria monstruosidade capaz de incluir hipocrisia, mentira, hostilidade e infelicidade, a tentativa de um homem e uma mulher se bastarem durante toda uma vida. Todos os pontos do livro são descritos ao largo da história de Mônica, uma jornalista real, disposta a compartilhar com a autora e seus leitores todos os seus desencontros afetivos e sexuais, originados num casamento complicado e mal estruturado de seus pais.
No Brasil temos uma disputa por homens, mais mulheres do que homens, capaz de colocar sobre outro ponto de vista a posição da amante como uma alternativa efetiva ou o lesbianismo adulto-maduro como uma saída para a solidão. Além desses fica claro uma evolução da situação da amante aos 20, 30 e 50 anos. De início, uma situação passageira, aos 30, transitória e aos 50 já vista como definitiva. Em todos os casos há uma monogamia de visão. Todas, matrizes ou filiais, se vêem como as verdadeiras, ou seja, independente de que lado do jogo se está, é importante ser vista e admitida como a legítima, como a opção exclusiva se esta fosse solicitada. Há também uma regeneração a um tipo “raro” de homem, aquele que “pegou” poucas. Seus amigos não tiveram mais do que uma mesma dezena de parceiras sexuais, mas saem por aí falando em centenas.
Os encontros e desencontros de Mônica aproximam esse livro de um outro, o relançamento de O Casamento. Mais uma vez sou obrigado a me render a Nelson Rodrigues. Se você está interessado em entrar, salvar ou terminar o seu casamento, sugiro a leitura dos dois livros. Comece pelo de Mirian, assusta menos. Quando já estiver convencido da seriedade e da necessidade da discussão é melhor você mesmo abordar seu cônjuge, os dois livros viram matéria-prima de primeira para trazer verdade e vida a sua relação. O livro de Nelson Rodrigues foi censurado pela ditadura militar, lá o pai da noiva fica sabendo um dia antes que o futuro genro estava aos beijos com o assistente do ginecologista, mas muito mais é revelado. Marido, mulher, filhas, dinheiro, secretária, defloramento, pederastia, igreja e moral são descritos de uma forma que te aproximam daqueles flashes que inundam a minha, a sua e a imaginação de nossas mulheres e maridos. Calar é deixar espaço para o perigo…
Infiel
Mirian Goldenberg
Record, 364 págs.
O Casamento
Nelson Rodrigues
Agir, 270 págs.
