ARTIGOS DO EDITOR

Atos duráveis

A divisão do tempo utilizada por Ian McEwan em seu novo romance indica bastante do desejo do autor em empurrar ao leitor a consciência do peso de algumas decisões momentâneas ao longo de toda existência. São 120 páginas de contextualização de vida até a chegada à noite de núpcias. Nelas estão realidades de duas pessoas com origens e famílias distintas, as expectativas, inseguranças e sentimentos que não deixam dúvidas de confluir para a mesma direção. Nas outras 8 páginas estão mais de 40 anos de um futuro impactado por emoções que extrapolaram os desejos e razões, emoções que não arredaram pé dos protagonistas, sendo companheiras até o fim.

Costumo grifar e riscar meus livros, os de McEwan são um prato cheio. Seus personagens ou narradores produzem frases que abastecem minhas coleções e sempre me pego repetindo-as em distintos contextos. Quer exemplos, aqui vão: “E ela amava Edward, não com a paixão ardente e úmida sobre a qual lera, mas de um jeito cálido, profundo, às vezes como filha, e outras quase como mãe.”; “Entendeu quão submissa e pobre a vida podia ser, uma geração após a outra.”; “Chegara à descoberta fortuita de que mesmo o sucesso lendário trazia pouca felicidade; só inquietação redobrada e o tormento da ambição.”; “O namoro deles foi uma pavana, um desdobramento solene, demarcado por protocolos nunca acordados ou ditos, apesar de geralmente cumpridos.”; “Achavam-se demasiado sofisticados para acreditar no destino.”

Identifico em suas histórias o argumento de quem entende e encara a vida sem máscaras, sem necessidades de paliativos, de filtros. Nas entrevistas sobre este livro McEwan explicita que quem não entende de sexo não pode escrever, ao escritor resta os temas profundos e necessários, para ele, o sexo é um deles, dos principais. Em Na praia, a abordagem é delicada, acredito que possa levar às mulheres a uma lembrança comparativa, os homens à revelações pouco pensadas sobre suas companheiras, namoradas, casos eventuais. É difícil entrar na intimidade desse casal e não mergulhar na nossa própria história passada, rever relacionamentos, mais do que vale a leitura.

Numa dessas figuras de linguagem o autor cria um juiz implacável e imparcial que percebe perfeitamente todos os momentos que vivemos, ele está em nossas mentes, disposto a emitir sua sentença caso seja consultado. O que nos assombra é a possibilidade desse juiz ganhar independência, vida própria em nosso interior e passar a despejar suas opiniões sem ser chamado. Mesmo que ninguém de fora o ouça, é terror suficiente se não se pensou nele ao tomar determinadas decisões. À quantos humanos não resta outra alternativa a não ser torcer para que o juiz da pessoa ao lado seja tão complacente quanto ele gostaria que o seu fosse? Assim, não se é necessário recorrer ao próprio juiz, quando ele parece despontar, afastasse-o em nome do social, os outros acabam por justificar nossos próprios desvios. O pior dos tempos brasileiros atuais é ver isso na classe dirigente, não há ninguém minimamente limpo naquelas bandas? Minimamente independente e capaz de puxar o bloco dos que querem viver de um modo virtuoso, todos os rabos estão presos?

Parece mesmo que não, só resta então torcer para que os juízes interiores que também atormentam Edward e Florence, sejam implacáveis com nossos pretensos representantes. Se lá o arrependimento é por não ter tido amor e paciência ao mesmo tempo, no Brasil de hoje, será por não ter tido vergonha e honra junto ao poder.

Na praia
Ian McEwan, Companhia das Letras, 128 págs.

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