ARTIGOS DO EDITOR

Bem vestido no departamento

Dos vários releases sobre livros que recebi no período um me chamou a atenção, Vestir os nus, uma peça de Pirandello. O motivo foi o tema, dizia o texto que se tratava de vitimização, algo que julgo bastante comum no dia-a-dia corporativo. A tradução é de Millôr Fernandes, a leitura rápida requer uma certa extrapolação, confesso que não adoro ler peças de teatro, para mim, a indicação dos personagens quebra bastante o ritmo da empreitada, mas insisto que o tema me parece muito presente, nos mais diversos níveis.

A história conta a história de Ercília uma governanta que se distrai de seus afazeres por estar envolvida com o patrão, talvez um outro paralelo com o mundo das empresas, e acaba não evitando uma tragédia com a filha de quem paga os seus salários. A coisa se complica também com o seu noivo e ela decide apelar ao suicídio. Mas fique tranqüilo, não é tão pesado quanto possa parecer, é tragicômico.

É claro que desde aquela época já havia imprensa interessada em explorar tragédias, em dramatizar, vestir alguns de coitados, outros de malfeitores, tudo para, no calor da polêmica, vender alguns exemplares a mais, sem tantos cuidados com implicações concretas nas vidas dos envolvidos. Também como na vida real, uma tragediazinha dessas sempre acaba por chamar a atenção de um escritor, carente de inspiração para suas criações. Os personagens vão se acusando, dizendo como dizem, “coisas que não se confessam a si próprios”, discutindo se escrúpulos existem e para que servem? E um deles se coloca na posição de vítima, capaz de sacrificar a tudo para ser punido de forma adequada.

Conhece algum tipo mais difícil de lidar? Quase todo ser humano tem dentro de si um reservatório de piedade, pronto para emergir assim que a culpa o acusa pelo que viu ou ouviu. Aí entram os escrúpulos, a ética, a moral. Na sociedade brasileira, a massa escaldada pela impunidade e acostumada a ser maltratada quase sempre se solidariza com o mais fraco, razão à parte, vale mais a condição de companheirismo, de sofrimento conjunto, de pertencer à mesma classe. Juntos contra os ricos, também juntos contra os pobres, mas aí já com um certo disfarce. Juntos contra os chefes, contra a diretoria, a alta-gerência. Ou então, juntos contra os funcionários, quase sempre relapsos e pouco comprometidos. Ou seja, é um apontando para o lado do outro, poucos com energia e disposição para encontrar uma solução, o fator de união é quase sempre uma meta que promete um prêmio.

Sobra para os casos isolados administrar as pessoas que se sentem culpados. Quase sempre esses culpados são úteis, interessantes ao funcionamento da rotina. Chegam cedo, são os últimos a sair. Precisa-se de algo no final de semana, não me diga que não é o famoso coitado do departamento que vai cooperar. Nas roubadas ele é o escalado, nas boiadas, para quê? Sequer se sentiria bem. O tempo vai passando, alguns de outros departamentos enxergam o problema, até o omisso RH as vezes cobra uma solução, mas todos o fazem porque não se encontram na sua posição, não tem as tão diversas demandas para administrar e com aquele budget, quem aceitaria isso pelo que recebe em troca no final do mês. É só agradecer, torcer para que ao chegar tão cedo, sair tão tarde, e durante o dia demonstrar tamanha fidelidade, não sobre tempo para mais nada, sequer pensar num adultério corporativo. Depois de algum tempo, quando os mais novos já se desenvolveram e ultrapassaram o super-dedicado, quando as regras e a chefia geral mudaram, fica aquela tremenda saia-justa. Você reconhece o quanto aquela fidelidade lhe foi útil, não quer ser injusto, mas a situação já ficou evidente para todos. Todo mundo olha para a pessoa e ninguém quer ter a mesma trajetória, a vítima não tem força e coragem para tocar no assunto, você também prefere evitar.

Se não for nessa empresa de hoje, foi na anterior. Se não é com você, é com um par. Desafio alguém do mundo corporativo que não tenha tido um colega nessa posição, que não tenha visto alguém não entender que apenas uma dedicação exaustiva não era garantia de ascensão. Para esses perdedores da corrida corporativa esse era o único caminho, medrosos, sem confiança, nunca conseguiriam dizer não naquela hora que faria a diferença, não conseguiram conviver com a incerteza e a desconfiança de perderem o emprego. Desesperados com a sobrevivência, esqueceram de crescer. Só são efetivamente vítimas, porque alguém em cima sabia disso, sabia, mas precisava…

Vestir os nus
Luigi Pirandello
Ed. Civilização Brasileira, 140 págs.

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