ARTIGOS DO EDITOR

Caim e Abel

Sobrava apenas o núcleo familiar, um ninho portátil de neuroses, como qualquer família.
Paulo Nogueira Baptista Jr.

Dessa vez resolvi modificar a forma de escolha do livro para a coluna. Fui até uma boa livraria, a Cultura, pedi a indicação de um vendedor. Ele me disse que … e Deus criou a empresa familiar estava vendendo muito bem. Não posso esconder de você que sou ateu, sim, faço parte do pequeno grupo de 1% dos brasileiros não crentes numa instância superior e criadora. Ele me disse que iria gostar assim mesmo. Topei.

Comecei a leitura e ficou claro que para acaba-la, ou se acredita no criador fortemente, ou se está a trabalho. Encarei, mesmo porque tive deficiências na minha formação católica em relação a leitura da bíblia. O tema empresa familiar é do meu interesse, vou desenvolver um projeto de livro na área, família é algo que procuro acompanhar de perto, não só pela sanidade da minha, mas também por acreditar que não se consegue evoluir no lado profissional sem essa base encaminhada, iria usar a palavra resolvida, mas aí, é pretensão demais. Como bem diz a epígrafe do Paulo Nogueira, um núcleo portátil de neuroses.

Foi nisso que o livro me frustrou, parte da visão que o perfeito é possível, se não, algo a ser tentado. Ser tentado vá lá, mas já se deve ter a total compreensão das limitações, talvez para a empresa familiar, o livro mais adequado ainda seja o não-escrito: Nem Freud explica…

De positivo há no livro um bom enfoque jurídico das questões familiares. Se você está em busca de informação sobre as modalidades de casamento, de distribuição de herança, eis uma boa fonte. O livro promete analisar a família em sua essência e rapidamente transborda para essas questões jurídicas, importantes, necessárias, mas na minha visão, ainda na seqüência das questões emocionais. Nisso sou radical, um empresário familiar precisa ter claro em sua mente o que vem primeiro, a família ou a empresa. Aí não vale demagogia, não vale o politicamente correto. O discurso não vai adiantar de nada, não há palavras, ações ou justificativas que sobreponham a emoção dos filhos. Por isso, atenção, a velha teoria de fazer o bolo crescer para depois repartir, geralmente não funciona. Os filhos mais precisam dos pais quando são pequenos, geralmente quando a empresa também mais precisa. Já me dividi, já errei nesse ponto.

As histórias do Gênesis podem até funcionar como exemplos abrangentes, mas há o risco de serem dependentes de uma crença, e efetivamente os assuntos de crença mais funcionam quanto menos se evolui na sua análise, ou seja, nem todos estão no mesmo nível de compreensão e concordância, há sempre um mistério. Na empresa familiar esse mistério pode ser fatal. As principais questões do universo dessas empresas são cobertas pelos autores, insisto, sempre não conseguindo cobrir todo o espectro pelo viés escolhido.

Tirar uma empresa do zero pode ser tão complexo quanto construir a arca de Noé, mas o empreendedor não tem o tempo que Noé teve nem um aliado tão importante. O dilúvio, dura muito mais do que um ano e deixa marcas.

As recomendações para que se mergulhe num planejamento e se procure ter uma sucessão maximizada são importantes e didáticas. As possibilidades de escolha mediante alguns critérios e os aspectos emocionais e jurídicos envolvidos também estão lá. A difícil e indispensável fase da profissionalização está repleta de exemplos e comparações que podem ser úteis e um antídoto para as questões práticas do dia-a-dia, pois existem poucas coisas mais difíceis do que um criador se afastar e encontrar o ponto certo de se relacionar com a sua criatura jurídica, é nela que está toda a expressividade de uma pessoa que geralmente acabou por toler outros lados de sua personalidade, completamente absorvidos por uma entidade carente e eternamente demandadora de energia. Nos momentos em que ela dá um retorno interessante, esse sacrifício é relevado, mas nas dificuldades e nas crises, tende-se a olhar para a empresa como a vilã dos desarranjos das vidas pessoais. Não dá para esquecer que as empresas, tais como os filhos, são uns pidões eternos.

… e Deus criou a empresa familiar
Luiz Kignel e René Werner
Integrare, 232 págs

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