ARTIGOS DO EDITOR

De olho mais puxado!

Quando veio a sugestão de resenhar O Relatório da CIA confesso que um preconceito se manifestou. Meu caminho passa longe do neo-conservadorismo americano e sobre esse assunto sempre preferi páginas de jornal, não um livro que até parecia “chapa-branca”. O livro chega e na capa vejo o logo da CIA e uma chamada “vendedora” de que esta prevê o Brasil como potência mundial em 2020 (na verdade identifica um espaço, não dá como certo) e noto alguns desenhos e ilustrações de gosto duvidoso (o editor brasileiro me avisou que vêem do projeto original), que em nada diminuíram o meu preconceito.

Mas dizem que as aparências enganam, geralmente pago para ver. Fui fundo e o preconceito se desfez. Confesso, a leitura é interessante e importante. Participei recentemente do lançamento na FIESP e saí de lá com a sensação que de fato o Brasil não vai ser a potência que a CIA chegou a visualizar. Se um assunto como esse não é capaz de atrair a atenção dos nossos empresários, se a presença de debatedores como o embaixador Rubens Barbosa e o geógrafo e cientista social Demétrio Magnoli, não é suficiente para lotar as dependências do auditório, fico pensando o que de mais importante ou urgente os nossos líderes empresariais estavam fazendo? A única redenção possível é a leitura do livro e principalmente a ação para que o Brasil não perca mais essa oportunidade e eu, você, os meus e os seus filhos estejam novamente condenados a crer que o Brasil é o país do futuro.

O Relatório da CIA, Como será o mundo em 2020 (Ediouro, 240 pags) apresenta 4 cenários possíveis de acontecer: Mundo de Davos, Pax Americana, Novo Califado e Ciclo do Medo. Para saber detalhes de cada um deles você terá mesmo que se dedicar a leitura, o que posso adiantar é que os autores têm ciência que o mundo não será em 2020 como previsto nessas alternativas, mas têm por outro lado a competência e o respaldo para apontar mudanças e transformações que conveêm à aqueles que gostariam de encontrar no mundo não só um lugar para se realizarem pessoalmente, mas também oportunidades de desenvolvimento de negócios.

Pessoas mais capacitadas do que eu em análise de política e economia estão e vão produzir detalhes sobre esses cenários. Sinto-me mais confortável para focar em alguns pontos que possam nos trazer reflexões pessoais. Não resisto a questão do BRIC, intuia que ele iria se transformar em RIC, depois da leitura vejo que será mesmo o IC. A Rússia vai se perder no envelhecimento de sua população e nas dificuldades de formação de instituições democráticas, combate a corrupção e novas alternativas além do petróleo. O B nós estamos sentindo na pele e no noticiário, todas as indicações mostram que o governo Lula está perdido e mesmo assim ganha por falta de adversário e de valores coletivos. Resta China e Índia, também com desafios tão grandes quanto sua população, mas mais equacionados e com a bola rolando.

Às nações ricas resta aceitar movimentos migratórios, e aí vai um paralelo com nossas vidas íntimas. Cada vez mais opostos e extremos irão conviver. Inicia-se uma lenta decadência do modelo americano, combatido aos poucos por uma dinâmica asiática. As nossas aspirações irão mudar, podemos nos resignar e assistir isso daqui da América do Sul ou poderemos olhar a mudança como grande oportunidade. Se o seu filho ainda estiver na pré-escola, talvez seja mais interessante a universidade de Xangai à de Harvard e isso é apenas um pequeno aspecto de um novo mundo que você terá que acomodar. Encare que continuar falsamente protegido numa redoma de grades, insulfims e seguranças, isolado num distante país em desenvolvimento irá diminuir as suas chances de ser um cidadão do mundo, de participar ativamente da construção de um novo modelo.

voltar