ARTIGOS DO EDITOR
Diga Não!
É fácil saber se você é daqueles que precisa ler o novo livro do William Ury. Estenda a sua permanência no escritório hoje, até tarde, muito tarde, faça algo de fato necessário, elimine uma das pendências importantes. Amanhã ao acordar, quando alguém que gosta muito der aquela reclamada e pedir algo, quase que como uma compensação a sua ausência, diga não. Se esse não pesar, talvez você esteja mesmo precisando ler O poder do não positivo.
Se você já diz um não convicto, sem arrependimentos ou insegurança, procure um outro tema de leitura, os pontos menos atraentes do livro vão se tornar difíceis de serem carregados e os resultados não irão compensar.
Diz a lenda que nossa cultura latina envolve uma necessidade maior de relacionamento, Sérgio Buarque de Holanda classifica o brasileiro como ‘homem cordial’, portanto, um povo de se supor com maiores dificuldades de olhar objetivamente no olho do outro e discordar, de arriscar não agradar ao interlocutor. Esse é o principal assunto de Ury no livro.
O título adotado diz bastante do tom do livro. Confesso que preferiria que o mesmo se chamasse Não com respeito e essa abordagem permeasse os exemplos, a linguagem e toda a construção do autor. Do jeito que foi feito, cai em muitos momentos numa auto-ajuda, com exemplos beirando ao piegas e sempre tendo como pano de fundo uma vida feliz e plena, fruto de uma postura de linguagem. Não concordo, aceito sim os argumentos do autor na necessidade de mesmo impondo nosso ponto de vista, o fazermos com interesse e respeito pelo outro lado, de nos preocuparmos em não acuar demais o outro lado numa negociação, mas receio que quem seguir o método tal qual apresentado vá implicar numa pasteurização das relações. Então, cuidado leitor, além de prestar atenção para não se confundir entre os Sins e Nãos do texto, existem variações, Sim-Nãos, Não-Sins e outras mais, sugiro que filtre as dicas de Ury para evitar qualquer semelhança com um operador de telemarketing. Feito essa ressalva, o autor transmite os pontos necessários e defende sua teoria.
Acho interessante reproduzir aqui a armadilha dos 3 Cs. No receio de ter o relacionamento prejudicado, tendemos a: Ceder, dizemos Sim quando queremos dizer Não; Combater, dizemos Não muito mal; e Calar, não dizemos coisa alguma. O pior, muitas vezes é que essas armadilhas se contaminam e numa mesma situação a pessoa acaba por cometer mais de um erro. Para o autor, a única solução é o Não Positivo, que é um “Sim! Não. Sim?”.
A explicação dessas variações dessa teoria é a forma para um Não Eficaz e engloba 3 etapas, cada uma delas com 3 subetapas: Prepare-se, Aja e Arremate. Todas elas para convencer o leitor da necessidade de fazer o bom senso imperar sobre a impulsividade, da razão para se utilizar algo que é simples porém quase sempre uma daquelas pegadinhas da vida, totalmente ao alcance, nunca praticada. E de que sempre é indispensável se ter um plano B, mesmo que não se o utilize, já se beneficia da segurança de uma alternativa, se reduz, e em muito, a pressão.
Para os tempos atuais o livro deixa uma grande lição, na verdade duas. A primeira e mais importante é “…de que é fácil abusar do poder. E que esse abuso, geralmente vem acompanhado de um espírito de vingança, de uma insensibilidade ao sofrimento dos outros e de um profundo desrespeito. Se o seu desejo é chegar ao Sim com o outro, o seu uso do poder terá de ser temperado com respeito. Quanto mais poder você exercer, mas respeito precisará mostrar.”
A outra lição importante e completamente aplicável aos dias atuais diz respeito a necessidade de se “construir uma ponte de ouro”, uma saída honrosa para que o outro lado sinta-se respeitado. Quem é que no Senado vai efetivamente entender essas lições e conseguir uma saída para essa crise de valores a que estão expondo o país? Quem daquelas 81 pessoas de fato entende que não se pode abusar do poder da forma que se está fazendo e que é necessário construir uma saída para se desarmar um deles?
Talvez por ter uma mulher brasileira e alguma ligação com o país o autor resolveu incluir uma passagem do presidente Lula, no livro citado por sua ascensão e por, acreditem se quiser, ter cunhado a frase “Há momentos em que é preciso dizer Não, e esse Não tem que ser dito com a mesma sinceridade, a mesma honestidade e no mesmo tom com que as pessoas dizem Sim”. Presidente, mostre a nós o poder do Não positivo e dê um basta em toda essa situação!
O poder do não positivo
William Ury
Campus/Elsevier, 264 págs.
