ARTIGOS DO EDITOR
Efeitos de uma mordida
Escolheram continuar crianças, sem saber que ninguém tem essa opção.
Se você concorda com Otto Bentwood, autor da epígrafe acima, ler Desesperados será uma experiência das mais interessantes. Se é daqueles que entende o que ele quer dizer mas prefere aceitar que existe um movimento kidult no mundo, que toy art é a expressão artística de nossos tempos, talvez encontre leitura melhor. Paula Fox não se preocupou em ser agradável, aliás, como diz Jonathan Franzen no prefácio, “a boa ficção se define, em grande parte, por sua recusa em oferecer as respostas fáceis da ideologia, as curas da cultura terapêutica, ou o poder de resolução dos sonhos do entretenimento de massas.”
Mas esse necessário autor contemporâneo é suspeito, ele já leu Desesperados sete vezes, e escancara ao leitor uma dessas pegadinhas da vida: localizar, decifrar e organizar a significação da vida pode empacar o próprio viver. Isso dói em mim. Para ele, a maldição do casal Bentwood é serem criaturas altamente literatas, absolutamente modernas, é estarem bem equipados demais para ler a si mesmos como textos literários densos de significados sobrepostos. Que tipo de texto você é? Tão denso e literário como Desesperados ou um daqueles manuais de auto-ajuda? Sem juízo de valor, ambos têm um preço, na entrada, durante a vida e na saída, não há como fugir.
Ao ser mordida por um gato de rua que alimentava, Sophie, esposa de Otto, começa a deixar transparecer todas as questões que podem ocupar as mentes e os sentimentos da espécie. Ao estar sempre em casa, perdida numa crise de meia idade, sem filhos, vê suas diferenças em relação ao marido se acentuarem. São quinze anos de um relacionamento e paira uma dúvida se um de fato conhece como o outro pensa. Uma certeza, conheciam-se na densidade de uma vida conjunta, havia outras fora do casal? Ao ler o livro você vai ter o mesmo tipo de questão?
Antes da definição da abrangência da mordida, outros fatos negativos acontecem. O marido está se separando do sócio, agora perturbado com os novos rumos, bens materiais são invadidos e Sophie, insegura em quem confiar acaba se abrindo demais para o ex-sócio o que nas circunstâncias a deixa ainda mais insegura. Insegurança diante da vida é um outro sentimento abordado pelo livro. Quando procurou se libertar dessa relação não foi correspondida e se consolou com a conclusão que o tinha escolhido num momento tardio da vida, quando escolhas são quase sempre hipotéticas, fora de tempo. Mais um ponto a ser considerado: extensão e momentos de nossas escolhas, sentimentais ou não.
Diz Otto, em vários momentos de nossas vidas, há apenas uma certeza, o desejo de que alguém nos dissesse como viver. Não seria ótimo poder terceirizar a tomada de decisão e principalmente o não arcar com as conseqüências? Mas como Sophie, o espelho é revelador, ao se olhar, “viu por um instante a energia derrotada do pai em seus olhos e, misturada a isso, a insistente força dos contornos de sua mãe, tudo transformado misteriosamente nela mesmo. Tocou o espelho, dedo no dedo de vidro.”
O medo de pessoas conscientes é descobrir que são iguais ao mundo externo que desprezam, é lutar para fazer diferente e cair antes de chegar, cair ainda num terreno movediço e lamacento, antes alvo a ser destruído, depois sapo a ser engolido, aterrorizados com a hipótese de se transformarem em seus agentes de propagação.
Desesperados
Paula Fox, Companhia das Letras
186 págs.
