ARTIGOS DO EDITOR

Existe pecado do lado de baixo do Equador?

Na vida ou se faz algo de verdadeiramente importante, ou é melhor não se fazer nada.

Cada um de nós tem o seu dilema.

Um amigo é alguém cuja presença se gosta, por que se tem admiração e em cuja companhia se aprende.

Não, essas frases não foram retiradas de nenhum livro de um filósofo, não pelo menos de alguém que se autodenomine assim. Elas aparecem na boca dos personagens de Miguel Sousa Tavares, advogado, jornalista e também escritor português, em seu primeiro romance: Equador (Nova Fronteira, 518 páginas).

Acredito que poucos tenham se atentado para a enorme utilidade do livro para uma pessoa ligada ao mundo dos negócios. Embora contenha muitos outros elementos, escrito de forma culta, porém simples, o livro prende, mostra vários universos e apesar da editora tentar dar um tom mais escandaloso e sexual, resta a você, executivo ou empreendedor, desfrutar das histórias contadas e também aprender e refletir sobre o que utilizar na vida profissional (confesso que eu não acredito nessa divisão, não consigo ver dois homens, o que sai de casa para o trabalho e o que chega em casa do trabalho. Você é um só, escolha qual dos dois melhor te representa e assuma isso diante do outro, não é impossível e sim necessário).

Quantos fariam como Luís Bernardo Valença e abandonariam a mais que confortável vida de um jovem empresário herdeiro, vivendo na corte com todas as regalias e confortos, venderiam sua empresa e seguiriam rumo ao nada, num local isolado e beirando ao inferno de tão quente, apenas para cumprir uma missão real? Existem essas missões ou somos nós quem de fato nos colocamos desafios e escolhas?
Como governador de São Tomé e Príncipe Luís Bernardo tentou defender os seus ideais, impor o seu estilo, ambos digamos não tão alinhados com o interesse dominante, que quase, como sempre, representava muito mais o passado do que o futuro (o difícil para os que não querem se envolver, é apostar no time e no momento certo…), isso só já é uma enorme reflexão para os que estão no comando, seja de uma equipe, seja de uma empresa. O livro mostra como tendem a funcionar os grupos de interesse estabelecidos e o jogo político à sua volta.

O grande adversário de sua missão é o jovem e brilhante cônsul inglês David Jameson. O que levaria mais alguém brilhante à aquele fim de mundo? Para David, estar em São Tomé e Príncipe não era uma missão real, sim um castigo. David é um daqueles homens que se fez sozinho, por mérito próprio, sem uma rede consistente a lhe dar apoio e relevar erros cometidos nas horas vagas. Pagou caro pelo erro e mesmo assim não desertou, foi até o fim, com certeza bem distante de seus sonhos e potencial iniciais. Outra grande lição: sem um lastro, atenção redobrada em todos os aspectos.

É claro que há uma mulher a compor esse cenário, não só no livro de Souza Tavares, mas em todas as cortes do mundo, de Brasília a St. Jameson, não estou sendo machista, se fossem duas mulheres, haveria um homem, é do humano.
A pergunta final para os homens e mulheres de negócios é quantos no lugar de Luís Bernardo fariam o mesmo? Como você classificaria a atitude dele? Garanto que chegar a sua resposta é mais rápido e prazeroso do que possam parecer todas essas muitas páginas da fluente e instigante prosa do autor.

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