ARTIGOS DO EDITOR
Uma estrada que pode não levar a lugar nenhum!
Nada é pior do que aquilo que somos capazes de imaginar.
A morte não é aniquilação. Sobrevivemos por adoção na memória daqueles que conhecemos.
Só se consegue chegar ao topo escalando uma pirâmide de mortos?
O magistrado criado por J.M. Coetzee, prêmio Nobel de Literatura em 2003, ainda em 1980 e agora lançado no Brasil pela Companhia das Letras (À espera dos bárbaros, 204 pgs) se apossa do estilo seco e forte do autor e nos leva a considerações bastante atuais para aqueles que vivem em São Paulo, ou melhor, no mundo, globalmente assustado com as ameaças terroristas ou de violência.
Quem são os bárbaros? O que querem de nós? Quando chegam? É impossível mergulhar na história dos desmandos e abusos do Império na tentativa de proteção às fronteiras, no desprezo das realidades locais, sem traçar um paralelo com o que estamos vivendo nos grandes centros. Ninguém mais consegue sentir-se seguro, não temer um bárbaro disposto a invadir o seu território. No livro, fecham-se os portões da aldeia, aclama-se os soldados do Império e aplaude-se cenas brutais de destruição do suposto inimigo na frente das crianças, em plena praça pública. Isso é ficção ou aconteceu na invasão do Iraque? Ficção ou ruas de São Paulo? Ficção ou morros do Rio? Nós da elite brasileira não estamos nos escondendo dos bárbaros? Não estamos como os soldados comandados pelo coronel Joll superestimando nossa capacidade de compreensão e dominação e tripudiando os do “lado de lá”, como se não fossemos todos pertencentes a mesma espécie? O que nos diferencia dos “bárbaros”?
São questões diretas, meu objetivo não é apontar culpados. Culpados somos todos nós, qualquer um que levante de manhã e toque a vida amedrontado e sem ações para transformá-la, que acredite na solução externa, que ao supostamente pagar impostos, ache que fez sua parte. O magistrado de Coetzee tentou unir os dois lados e foi hostilizado pelos seus iguais, ao ir até os bárbaros acumulou a revolta dos seus. Preso, faz o leitor questionar quem rouba a liberdade de quem. O preso ou o carcereiro? Como no mundo real, ao fazer parte do poder, tem domínio de seus corredores internos e questiona como utilizar. O magistrado de Coetzee põe a mão do leitor na consciência, mostra o seu envelhecimento, os seus limites e suas dúvidas existenciais. Dá para sermos diferentes? São os modos à mesa que definem isso? Ultrapassa a fronteira física e imaginária pelo humano. Aceita a prisão, foge, vai mais fundo, até a mendigagem. De lá ressurge para retomar seu lugar. Não mais apenas referendado pelas leis e tradições, mas amparado pelo sofrimento, por não ter desertado, por não ter desistido e se agarrado ao conforto na primeira tortura.
Volta ao topo por ter mergulhado no raso e me deixa muito confuso, “questionativo”, me coloca a seu lado na indefinição se vale ou não a pena lutar contra esse mundo que continua a girar, se me esforço ou não para escutar além do conveniente, enxergar atrás do óbvio, agir além da média, ou como diz o autor: “os novos são os que acreditam em novos começos, novos capítulos, páginas limpas; eu continuo lutando com a velha história, esperando que, antes que termine, ela me revele por que foi que achei que valia a pena”. Acredito que é melhor ler autores corajosos como Coetzee que desafia a história, vê nesta a razão por não podermos ter apenas nossas vidas individuais, alguém que enxerga que como espécie “ainda não descobrimos melhor jeito de passar os dias do que sonhando com um salvador, com uma espada que dispersará as hostes inimigas, que nos perdoará os erros que foram cometidos por outros em nosso nome e nos dará uma segunda chance de construir o nosso paraíso terreno”. Acordemos!
