ARTIGOS DO EDITOR

Eu compro, tu compras, ele compra

Nosso grande sonho de consumo é consumir a nós mesmos!
Nilton Bonder

Os mais espirituosos, talvez preconceituosos, poderiam jurar que um livro não religioso de um rabino só poderia, de uma forma ou outra, abordar a questão do consumo, da propriedade. Mas já aviso, quem vos escreve é uma pessoa secular.

Nilton Bonder vai direto à questão da sabedoria do consumo já no subtítulo. Tema bastante propício aos dias de hoje. Nunca lojas, shoppings, produtos e marcas pareceram estar tão próximos de invadir a essência dos seres humanos. O pior, não vislumbro reversão à vista. Movimentos pregam volta às origens, instituições religiosas pregam choque de valores, a sociedade sente que algo muito sério vai errado. Mesmo assim o consumo não dá indícios de ser substituído por algo mais efetivo como a droga de tratamento ao vazio existencial resultante do modelo de estruturação da sociedade ocidental. Um exemplo inserido nesse contexto de marketing, publicidade e consumo? A equação Tostines: consome-se para tapar um vazio existencial ou o vazio existencial é resultado de tanto consumo?

Ter ou não ter, eis a questão! começa a defender a imprescindibilidade do ter, como questão essencial da existência. Inspirado em Shakespeare o autor adota as mesmas dificuldades do tradutor de Hamlet para o iídiche: questão pode ter quatro significados. Bonder faz o paralelo desses com quatro diferentes mundos: físico, emocional, intelectual e espiritual.

Antes de aprofundar devo confessar meu momento existencial. Nunca estive tão envolvido com leituras e questões evolucionistas. Nunca carreguei tão abertamente a bandeira do ateísmo. Por que então fui escolher um livro de um rabino para a coluna? O tema. Se o foco aqui não é religião e sim consumo, vou tomar cuidados extras para entender a interligação dos dois e me manter imparcial. Porém, é necessário ressaltar a ausência maior de fontes distintas de rabinos e tradições judaicas, por mais ricas que essas sejam, e a escassez de estudos e teorias de consumo provenientes de antropólogos, psicanalistas e outras análises sobre os impactos do marketing e campanhas publicitárias nas decisões entre o ter e o não ter.

Ausências sentidas, porém não chegam a inviabilizar a utilidade e a atratividade da leitura, indicação interessante para profissionais de marketing e propaganda, mas principalmente para qualquer pessoa que viva dramas, ou se aproxime deles, diante de todo o bombardeio que é submetida para não só “investir” a sua grana em tal produto ou sonho, ou simplesmente pressionada por fazer mais e mais. Banqueiros, profissionais de mercado e rentistas, cuidado! A leitura pode ser danosa a vocês, talvez ainda não seja hora de descobrir a diferença entre propriedade e posse, o mercado ainda promete bônus e lucros bastante agressivos nos próximos anos…

Se você se assustou com o parágrafo acima e não vai comprar o livro, fique com uma profunda reflexão: a sua existência é decorrência do conflito entre e o ter e o não-ter. É o que você tem e o que você não-tem que o definem perante o mundo. Mas a grande questão é mesmo: quem é você perante você?

A expectativa é que nossas vidas cumpram as seguintes etapas: “o que é meu, é meu - o que é teu, é meu!”; “o que é meu, é meu - o que é teu, é teu!”; “o que é meu, é teu - o que é teu, é meu!” e “o que é meu é teu - o que é teu, é teu!”. Cada uma dessas etapas requer um tipo de vivência e um tipo de aprendizagem. O autor deixa claro a importância do não-ter para acender o desejo, e a importância do desejo para a vida. Nos lembra que desde a infância preferimos o raro, a simples obtenção do desejo não implica na satisfação, e sim no imediato aparecimento de um outro desejo. O valor à escassez vem de longe.

É fácil também aprofundar um outro questionamento: Existe seu limite para trocar sua inteligência e energia por salários e bônus para criar demandas que incitam os outros a consumir? Quando você é o culpado? Quando você é a vítima? Será que essa roda do consumo vai mudar?

Ter ou não ter

Nilton Bonder
Campus/Elsevier, 141 págs.

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