ARTIGOS DO EDITOR

Excessos!

Corro o risco de cometer o mesmo tipo de engano de André Gide. Mas, pretensões à parte, se ele rejeitou os originais de No caminho de Swann, posso discordar de Marçal Aquino no prefácio e me recusar a entrar no fã-clube de Fup.

Isso não quer dizer, não leia. Leia sim, esse pequeno livro é interessante e de leitura agradável. A convivência de um avô ao cabo de uma vida quase tresloucada e bastante intensa com um neto antes distante e obcecado por construir cercas mostra como é possível “compartilhar paixões, diferentes no tipo, mas não na intensidade”.

Os contrastes nos fazem pensar nos detalhes, nas particularidades e como alguém adquire, à partir de determinadas escolhas, características de personalidade, molda a vida e as batalhas que vai travar. Por ser libertário e livre, porém distante, vovô Jake estava ocupado em seu mundo e não participou da educação da mãe de Miúdo e passou a interferir na vida dele já quase sem tempo de uma interferência de base. Só isso possibilita um avô fabricante de whisky clandestino e um neto cada vez mais focado em cercar o mundo. Em quantas casas não vemos esse distanciamento? De avô a neto, importa menos do que pai e mãe a filho ou filha. Com certeza existem razões fortes, importantes ou racionais à justificar o afastamento, mas talvez a mais verdadeira seja a dificuldade de encarar um ser que foi gerado por você mesmo, precisar de uma dedicação total de início e aos poucos ir dispensando os esforços e atalhos que você quer lhe mostrar.

Jake e Miúdo são um alento, mostram que mesmo da diferença, cada um com seu estranhismo, é possível brotar uma convivência amorosa. Jake ajuda seu neto a entender que não se deve colocar toda a energia de uma vida, ou parte dela, correndo atrás de um inimigo como o Cerra-Dentes, ou qualquer que seja. Quase sempre, quando se chegar o momento do embate final, se verá que o inimigo está velho e desgastado, dará pena acabar com ele. Conselho: mate o inimigo dentro de você e parta para outra, não é só ele que envelhece, e o seu envelhecimento travado não é recuperável, tem um custo muito maior do perceptível. Nas palavras de vovô Jake: “a obsessão é altamente traiçoeira; não se pode nascer sem se soltar, e muito pouca gente consegue soltar uma obsessão”.

Também concordo com Jake que para se aprender a voar, ou qualquer outra coisa, é preciso fazer sacrifícios, quer você seja uma pata magra, mais ainda se for uma pata gorda (Fup é a pata enorme e gorda que nomeia o livro e não sabia voar). O método prático de Jake para se portar numa situação onde não se tem a menor idéia do que fazer pode ser-lhe muito útil em vários momentos da vida. Use na seqüência a intuição, a razão e só então o desespero, essa é a ordem. Jake sabia que a intuição freqüentemente falha, mas quando funciona economiza um tempo enorme e lhe impulsiona para frente. A razão é mais fidedigna, porém mais lenta. Não se renda ao desespero antes de tentar essas outras saídas.

A pata é a responsável pelo questionamento final do livro, a obsessão fez que Miúdo extrapolasse em muito suas intenções. Quando se é forçado a entender o inexplicável, mais uma liçãozinha do livro: “algumas coisas não é possível explicar, talvez até a maioria delas. É interessante pensar nelas e fazer alguma especulação, mas o principal, é que se tem que aceitar as coisas tal como são, e seguir em frente com aquilo que se entende”. Entendeu?

Ou como diz vovô Jake: “Ora, com os diabos, fui imortal até morrer”.

Fup
Jim Dodge
José Olympio, 96 págs.

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